EDITORIAL

Espíritos superficiais

Da teoria à prática


Por:Pedro Pinto Leite

Ilustração de Ema Falcão
2017-04-03
Partindo dos três conceitos ‘empreendedorismo’, ‘Mérito’ e ‘Reconhecimento’ a atribuição de diplomas de mérito por parte da câmara municipal é algo muito sério e deveria ser menos teórico e mais prático

O ‘Empreendedorismo’ pode resumir-se como o pôr em prática, com algum arrojo, uma boa ideia, criando oportunidades inovando e acrescentando valor, normalmente associado ao lucro. Mas nem sempre o lucro está associado quando se trata de Empreendedorismo Social.

 

O ‘Mérito’ é o merecimento do apreço pelo trabalho de alguém ou de alguma instituição, ou da importância da sua contribuição para com a comunidade.

 

O ‘Reconhecimento’ é o ato através do qual alguma coisa, ou alguém, é admitida como verdadeira, válida, legítima, útil, necessária, inovadora, excecional, etc.

 

É de louvar que as instituições reconheçam o mérito de uma prática social empreendedora ou dos bons resultados obtidos por um desportista, e o expressem publicamente. Partindo dos três conceitos acima descritos a atribuição de diplomas de mérito por parte da câmara municipal é algo muito sério e deveria ser menos teórico e mais prático, isto é, mais do que a entrega de um diploma, deveria contribuir para a criação de condições para uma maior autonomia dessas práticas, por exemplo através da atribuição de um prémio em dinheiro, a oferta de uma viatura para transporte de idosos, na facilitação de um equipamento condigno de apoio à prática da canoagem...

 

Sendo assim, e apesar do reconhecimento público ter sido feito, não se compreende o porquê da falta de interesse, por parte da Câmara Municipal, pelo projeto AVIDAVALE (ver página 11) bem como não se entende a pouca atenção dedicada, pela mesma instituição, à prática da canoagem no concelho.

 

Tome-se o exemplo (extremo) de um prémio Nobel, o mais prestigiado reconhecimento mundial que um ser humano ou uma instituição pode receber nos campos da literatura, medicina, física, química e paz. Este prémio vem acompanhado de um valor monetário (perto de um milhão de euros, cada) que, para além de outras coisas, serve também para proporcionar uma maior autonomia às boas práticas premiadas.

 

O que seria, por exemplo, da escrita de José Saramago se uma boa parte dos vários prémios por si recebidos não viessem acompanhados, uns mais modestamente que outros, de um valor monetário?

 

No texto “Palavras Iniciais” de Fernando Pessoa pode-se ler: “Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria” (in Revista de Comércio e Contabilidade). 

 

Voltando à realidade concelhia. Um projeto social ‘reconhecido’ pode ir sobrevivendo, um clube náutico e os seus atletas federados e premiados, também ‘reconhecidos’, podem ir competindo e fazendo o seu melhor, mas não poderiam alcançar melhores resultados com maior apoio municipal?

 

Estando o levantamento das necessidades definido, isto é, sabendo-se perfeitamente o que é que estas instituições precisam e havendo dinheiro nos cofres da câmara municipal de Odemira porque é que, por exemplo, não se alargaram os critérios das verbas atribuídas a várias instituições de apoio aos idosos, para a aquisição de viaturas no final do ano de 2016, de forma a que o projeto AVIDAVALE também pudesse ter sido contemplado e pudesse desenvolver mais dignamente o seu trabalho? Porque é que não se criaram, até agora, melhores condições para a prática da canoagem, no concelho e particularmente em Vila Nova de Milfontes?

 

Ficam as perguntas. Pode ser que alguém tenha as respostas. Ou não.