PALAVRA DE PALHAÇO

“Renovar ou Morrer”

É preciso reeducar-nos. Todos, professores e pais


Por:Enano Torres

2017-04-03
Precisamos quanto antes de mudar o Sistema Educativo desde as suas profundezas. Rever as temáticas que as nossas crianças são obrigadas a estudar, adequando-as às suas necessidades

Um dos momentos mais libertadores da minha vida foi no começo do verão de 1989 quando acabei o 12º ano e agarrei nos apontamentos dos anos anteriores, de todas as disciplinas, e enfiei-os numa grande mala. Depois, com um colega, fui até à praia. Ele também trazia na sua bagagem milhares de folhas preenchidas com letras esquecidas. Juntos, amontoamos tudo, construímos uma montanha de tempos perdidos e pegámos-lhe fogo. Dançámos e gritámos à volta da fogueira enquanto ardiam tantas e tantas lembranças de esforço, obrigações, tempos mortos, matérias decoradas, noites sem dormir, grandes secas à pala daquelas disciplinas que os professores nos obrigavam a estudar. Sabíamos que esse momento significava um antes e um depois nas nossas vidas. Foi um ato “psicómágico” de liberdade, rimos e chorámos conjuntamente!

 

Já passou muito tempo desde então e sempre imaginei que o sistema educativo iria mudar para melhor com o passar dos anos. Mas, pelo que vejo nos jovens, e em particular no meu filho, infelizmente não tem sido assim.

 

Para mim o fim da escola significou a certeza de poder fazer o que desejasse, escolher o melhor para mim, fazer o que gostasse ou simplesmente ir conhecer o mundo transformado em “escola universal”.

 

As crianças de hoje continuam obrigadas, todos os dias, a estar sentadas durante seis horas a ouvir e a repetir, sem poder falar sequer com o colega do lado. E isso é aborrecido para qualquer um. Para um adulto também!

 

Quando acabam a escola ainda tem que fazer os TPC? Por favor! Esta prática já está ultrapassada, ainda não repararam que isso é molestar as crianças? Quem defenda que as crianças têm de trabalhar mais, depois de um dia inteiro na escola, esqueceu-se do que é ser criança, estar com a família, brincar... Infelizmente ainda existem milhares de crianças a fazer os “deveres” até à hora do jantar; eles não têm culpa que os programas escolares sejam tão extensos e pesados.

 

Têm de ali estar, na escola, na sala da aula, diante do professor. Por vezes muda o professor consoante a disciplina mas a filosofia é a mesma. Eles têm os programas para dar, obrigados pelo Ministério, sendo impossível realizar alguma coisa diferente da rotina de cada dia.

 

Será que os professores desfrutam quando dão aulas? Os professores devem ter a consciência de que à sua frente estão pessoas que durante toda a infância e adolescência não podem mudar de vida. Ser professor não é abrir a cabeça da criança e enchê-la de conhecimento até fartar! A responsabilidade deles é conseguir que o aluno deseje voltar no dia seguinte. Como é que isso se faz?

 

O desafio é ensinar-lhes o que precisam, convidar as crianças a olhar para o mundo à sua volta , estimular-lhes a curiosidade para gostarem de aprender e irem à procura de mais conhecimentos por vontade própria e não por obrigação, formar boas pessoas, gente que trate bem os outros, que respeite o meio ambiente, que tenha responsabilidade social, para mudar o que as rodeia, ter maior consciência do grupo, dos companheiros, ser solidário; claro que cada pai quer o melhor para seu filho, mas às vezes o melhor para um filho é dar um passo atrás para ajudar o colega do lado e depois seguirem os dois em frente.

 

Melhoramos a sociedade sempre que ajudamos um companheiro e se começarmos a ensinar isso desde criança, nas escolas, será uma maneira maravilhosa de aprender. De certeza que ela nunca mais irá esquecer o que lá aprendeu.

 

Não podemos continuar a ensinar como se as crianças fossem indivíduos isolados, avaliados por números, formatados pouco a pouco para uma sociedade capitalista e competitiva.

 

Somos seres sociais e, cada vez mais, há que ter maior consciência do nosso meio e da nossa comunidade. É preciso reeducar-nos. Todos, professores e pais.

 

Numa ficha de Inglês na turma do meu filho, a esmagadora maioria dos alunos, numa questão que pedia para indicarem uma coisa de que não gostavam, respondeu: a escola. Casualidade? Não!

 

Precisamos quanto antes de mudar o Sistema Educativo desde as suas profundezas. Rever as temáticas que as nossas crianças são obrigadas a estudar, adequando-as às suas necessidades.

 

Acredito que existam professores maravilhosos que sejam capazes de dar um passo em frente e propor projetos diferentes dentro da escola pública. É verdade também que cada vez mais existem outros espaços escolares alternativos à escola pública onde as crianças conseguem ser elas próprias e estudar com prazer, sem a pressão do programa por cumprir. E parecem ser felizes. Mas são meninos privilegiados cujos pais pagam para poderem lá estar. Aceito, mas não é a solução para a grande maioria das crianças que pertencem à escola pública. Há que renovar e reinventar pela saúde pessoal, social e coletiva dos nossos pequenos grandes seres que serão o futuro para um mundo mais justo, equilibrado e solidário.