A MÁQUINA DO TEMPO

A Passarola Voadora

Hoje, mas em geral a mentalidade continua a mesma


Por:Artur Efigénio

2017-04-03
Passados trezentos anos, e restando-nos apenas o ouro vindo da Europa, em programas de apoio, lá continuaremos a sonhar

“D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou…”.

 

Este é o primeiro parágrafo do Memorial do Convento de José Saramago. Narra-se aqui nas primeiras linhas desta obra as desventuras de um nosso rei, o magnânimo, que mesmo cumprindo religiosamente e com o devido cerimonial o dever conjugal duas vezes por semana, ainda não tinha conseguido assegurar a sua descendência. Conta-se que foi o bispo inquisidor acompanhado de um velho franciscano que anunciou ao rei, numa das suas visitas aos aposentos da rainha para o efeito já descrito, que se ele quisesse teria o desejado filho. Para isso “só” teria que mandar construir um convento na vila de Mafra e Deus lhe daria sucessão. Mas teria de ser um convento franciscano, bem entendido. E assim o fez, depois da austríaca ter dado à luz Maria Bárbara, a sua primeira filha.

 

Este episódio, descrito pelo Nobel ribatejano, é o primeiro ato do genial livro que conta as desventuras amorosas das personagens Blimunda e Baltazar aquando da construção do convento de Mafra, e que demonstra o plano sociocultural antagónico da altura, mas ainda hoje muito atual, entre os da classe do “poder” os da classe do “fazer” e por último, os da classe do “querer”, onde aqui se inclui uma outra personagem, o padre Bartolomeu, sonhador da máquina de voar.

 

Vem isto a propósito, por neste ano de 2017 se comemorarem trezentos anos do início desta colossal construção do barroco português, só possível devido à abundância de ouro trazido do Brasil, com o primeiro carregamento de 500kg do vil metal a chegar a Lisboa em 1699, chegando até aos 25 000kg no ano de 1720. D. João V era o monarca mais rico do seu tempo. Daquilo que aí o país desperdiçou, e do que tem sido sempre, e ainda assim é hoje, um pouco a maneira de pensar e de atuar do dito “poder”.

 

Obra inicialmente concebida somente para uns poucos frades, rapidamente, e à força de quase 50 000 homens apanhados em todo o país e enviados em cordadas à força para Mafra, tornou-se na megalómana construção do que é atualmente este Palácio Nacional, que ocupa cerca de 4 hectares, compreendendo 1200 divisões, ostentando das mais belas obras de arte adquiridas em toda a Europa da altura, tem o maior conjunto de carrilhões do mundo, uma das mais belas bibliotecas do país e do mundo e dispõe de uma área verde circundante de 1200 hectares – a extraordinária Tapada Real.

 

O ouro que na altura proporcionou todo este conjunto arquitetónico é o testemunho de mais uma época áurea de Portugal e serve-nos ao menos de consolo o legado patrimonial que daí adveio, mas não trouxe grandes repercussões em transformações no plano económico, ou em modificações na estrutura social do país. Ilustrado a este propósito por Hermano Saraiva com a expressão “A maré alta passou por nós como vento e deixou o país como dantes.”. Também outros tempos com algumas farturas continuam a passar por nós sem grandes modificações estruturais.

 

Poder-se-á dizer que há trezentos anos não existia uma massa crítica e quadros empresariais no país preparados para se servirem da riqueza como instrumento gerador de nova riqueza distributiva. O mesmo não se passa hoje, mas em geral a mentalidade continua a mesma.

 

Até a própria maneira como são decididas pelo “poder” esta ou aquela obra, e como é feita a consequente canalização de fundos públicos, é igual à dessa altura. Já não por devoção a Deus para assegurar descendência, mas agora por conversas telefónicas entre amigos, onde estes exercem e traficam influências para obter os seus propósitos da mesma forma e com a mesma facilidade como os franciscanos no séc. XVIII conseguiam assegurar a construção do seu convento. Ou ainda, a forma escandalosa como são sonegados fundos ao país através de complicados esquemas de ocultação e fuga de capitais para entidades paradisíacas onde não pagam impostos, como se de vento, que também não se vê, se tratasse.

 

Uma visita ao Palácio Nacional de Mafra é uma experiência avassaladora pelo peso que a pedra lioz trazida de Pero Pinheiro utilizada para a sua construção exerce sobre nós e pela grandiosidade que nos é transmitida por tal obra. Mas para apreciarmos convenientemente este nosso património ou outros do mesmo género, mais pequenos é certo, mas construídos um pouco por todo o país sob os auspícios da fé, é necessário abstrairmo-nos dos pensamentos sobre aquilo que poderia ter sido feito com as ditas toneladas de ouro, os proveitos das especiarias ou das pedras preciosas retiradas de um solo, à altura pátrio, que tal como a água que só passa uma vez pela ponte, voaram como vento. 

 

Porém, passados trezentos anos, e restando-nos apenas o ouro vindo da Europa, que nos chega, já não em carregadas naus, mas em programas de apoio desde 1986, lá continuaremos a sonhar com o dia em que, enquanto país, poderemos voar numa Passarola Voadora, como Bartolomeu fazia no Memorial do Convento.