EDITORIAL

A política é de todos

Programa de educação política


Por:Pedro Pinto Leite

Ilustração: Ema Falcão
2017-05-08
Talvez não fosse má ideia a (re)transmissão no município de Odemira

No passado dia 25 de abril, no final do seu discurso de agradecimento pela atribuição da medalha de honra do município, Cláudio Percheiro (ex vereador e ex presidente da Câmara Municipal de Odemira) proferiu as seguintes palavras: “(...) legislação que está em preparação pretende transformar o poder local quase em poder absoluto para alguns eleitos passando os restantes a serem meros espetadores. Se já hoje considero que existe falta de transparência, então com a resposta que anunciam e prometem, passará tudo a ser menos claro, pouco ou nada dignificante, onde as oposições não terão direito de participação direta ou a exercer uma posição interventiva nas decisões”.

 

Quem não esteve naquela cerimónia (quase toda a população de Odemira menos as sete ou oito dezenas de pessoas presentes - autarcas e funcionários do município incluídos) e segue a página do Facebook do Município de Odemira eventualmente reparou no ‘post’ das 23:30 daquele dia, onde apenas se veem fotografias do presidente da câmara e da presidente da assembleia municipal - a discursar, a entregar diplomas e medalhas, a fazer revista aos bombeiros, a entregar viaturas de socorro – seguidas de umas outras com algum folclore e da atuação de Raquel Tavares, e cuja legenda é “Hoje viveram-se os momentos altos das Comemorações do 25 de abril em Odemira (...)”, como se os restantes membros da assembleia, representantes dos partidos e eleitos pelo povo, que proferiram os seus discursos relativos à comemoração daquela data, fossem meros espetadores.

 

Recentemente, e mais uma vez, foi tornada pública, nas redes sociais, parte de uma mensagem envidada por um “técnico superior do gabinete de apoio aos eleitos locais” (é assim que o próprio se intitula e cuja tradução poderá ser “boy”) do município de Odemira (ver página 6), que revela, independentemente do restante conteúdo, a prepotência da atuação daquele gabinete.

 

Este tipo de pressão não é exclusivo do gabinete de apoio e é com alguma frequência que mensagens escritas e verbais são transmitidas aos munícipes que não têm uma “postura de cooperação”. E quem não “coopera” pode sofrer represálias.

 

“A Política é de Todos – programa de educação política” foi um programa de televisão, da responsabilidade de Álvaro Guerra (prémio “melhor programa de 1974”, atribuído pela Casa da Imprensa), criado pouco depois do 25 de abril de 1974, com o intuito de “educar” o povo, para o exercício da sua cidadania.

 

Era, então, intenção da RTP dar a voz ao povo, ao “auditório nacional que está interessado em ouvir falar do que mudou ou vai mudar (...) em poder, enfim, dar-se como participante (esclarecido tanto quanto possível) nos novos projetos de transformação da sociedade em que vive. Há, pois, uma necessidade de mútuo encontro. Talvez melhor: um claro reconhecimento de que se à RTP compete papel determinante na divulgação de pedagogia adequada às circunstâncias, ao espetador compete a triagem dos conteúdos recebidos, de modo a estabelecer o seu quadro de convicções”, como se pode ler no livro dos 50 anos de História da RTP, “Televisão – uma história com muitos protagonistas”.

 

Havia na altura vários programas para atingir aqueles objetivos e com títulos bastante sugestivos como “Vamos Decidir em Conjunto”, “No Mundo do Trabalho”, “Responder ao País”, “Diálogo”, “Os Movimentos Políticos e a Economia” ou “A Lei e o Povo”, entre outros.

 

Talvez não fosse má ideia a (re)transmissão daqueles programas no município de Odemira.