NA PRIMEIRA PESSOA

Em ODEMIRA há 25 de ABRIL POR CUMPRIR


Por:Manuel Cruz

2017-05-08
“O 25 de Abril em Odemira não se pode sentir plenamente realizado, faltando aos responsáveis eleitos, olharem para as suas necessidades básicas e pelos seus direitos de cidadania”

Sou daqueles que nasceram no tempo da “outra senhora”, assim lhe chamamos aos tempos da ditadura salazarista que o 25 de Abril de 1974 apeou do poder em Portugal.

 

Sim, do tempo da luz do candeeiro a petróleo, também.

 

A “candeia” era laboriosamente elaborada pelo Latoeiro, que andava de terra em terra (poético).

 

Dava-nos um prazer imenso ver o Mestre Latoeiro retirar da caixa de madeira uma grande tesoura. Com destreza, cortava três tiras rectangulares de folha-de-flandres, ou folha zincada, medidas a olho, mais ou menos do mesmo tamanho - pois não utilizava qualquer meio de medição. De seguida cortava em cada ponta um triângulo; depois cortava mais dois pequenos rectângulos, outro pequeno rectângulo de outro tamanho e ainda outra em forma redonda. Em cima do poial da casa, arrumadas em sequência, ali estavam: três trapézios dois rectângulos e um círculo, e nós, “os putos” entusiasmados, olhávamos curiosos, sem saber qual seria o resultado”.

 

Com mestria, o Latoeiro martelando a chapa sobre a bigorna, que entretanto tinha espetado no chão de terra da nossa rua, modulava um cone perfeito e dois formatos em forma cónica, terminados com abertura em círculos de cada um dos lados de forma irregular; depois formatava outros dois com forma tubular e sobre a chapa circular com um punção fazia um buraco circular mesmo no seu centro. Estava concluída a primeira parte do trabalho.

 

Passando à segunda fase, retirava da caixa um fogareiro a petróleo, um ferro de soldar, um lingote de chumbo, um lingote de estanho, uma tira de zinco e um frasco com ácido sulfúrico e um frasco com álcool muriático. Começava então a operação; num recipiente colocado em cima da grelha do fogareiro era depositado o chumbo e o estanho. No recipiente colocado sob a base da cabeça do fogareiro era colocado o álcool ao qual um isqueiro de pedra accionado pela faísca eclodia a chama. Quando via que a cabeça estava muito quente, o Mestre começava a bombar o petróleo contido no reservatório do fogareiro, que pela pressão resultante da bombagem era pulverizado sobre a cabeça aquecida, originava uma chama em forma redonda com muita intensidade calorífera. Derretidos os minerais, estava feita a mistura que iria soldar as peças anteriormente moldadas. Mas antes outra operação teria que acontecer – a passagem a estado sólido do produto em estado liquido. Depositado entre os elos de uma cana cortada ao meio no sentido longitudinal, o líquido, solidificava e arrefecia. Eis que um lingote de solda, formato meia cana, saía para as mãos do artesão. Ferro de soldar entretanto ao lume, saltava para uma das suas mãos, na outra mão a barra de solda, sobre o seu avental de couro, entre os seus joelhos, estava pressionada a chapa moldada e o ferro derretia a solda que unificava as arestas das peças moldadas, depois pelo mesmo método eram, as peças, unidas entre si.

 

Não me lembro para o servia o pedaço de zinco, se juntava ao preparado, se servia para derreter sobre a soldadura! Para espanto da miudagem lá estava nas suas mãos uma candeia, que colocado o pavio em cordão de algodão, iria iluminar a nossa casa, contrariando a escuridão natural da noite, mas também a oportunidade da mensagem clarividente da vida proporcionada pela transmissão do saber que os nossos pais nos ensinavam antes de o sono chegar.

 

Sim sou do tempo em que as mulheres lavavam as roupas nos pegos por si construídos, nos barrancos dos locais onde vivíamos. Nas duas margens do barranco, onde uma clareira de vegetação o permitia e o leito alargava, enxada nas mãos, a vizinhança juntava-se, criava um pequeno lago, “o pego”, e nas margens depositavam pedras, individuais, em forma de laje, onde de joelhos, sabão numa mão e a roupa na outra procediam à lavagem da roupa, para que o seu lar tivesse roupa limpa e todos se apresentassem com vestuário cuidado e asseado.

 

Sim do tempo em que a água que se consumia em casa, para preparar os alimentos ou para a higiene pessoal e do lar, era recolhida dos poços.

 

Uma “quarta” uma “enfuza”, nomes que a minha mãe dava às vasilhas de barro impermeabilizadas com pez, onde transportávamos a água e a mantínhamos armazenada sobre a bancada de madeira na nossa casa.

 

Era uma tarefa árdua a busca do precioso líquido, maior ainda em anos de seca, quando era necessário percorrer grandes distâncias, para encontrar fonte ou poço.

 

O seu consumo tinha que ser feito com muita ponderação e poupança.

 

Muitos anos passaram destes acontecimentos.

 

Já comemorámos 43 anos da data da restituição da liberdade.

 

Muitos direitos fundamentais foram conquistados.

 

Já decorreram 40 anos desde que foi instituído o poder local com eleições para escolher os homens e mulheres de quem se espera que resolvam as necessidades da população.

 

Os Municípios conquistaram poder e meios para realizar muitas das necessidades que desejamos e com direito reivindicamos.

 

Mas o 25 de Abril em Odemira não se pode sentir plenamente realizado quando ainda existem muitas famílias com problemas semelhantes àqueles que descrevi, faltando aos responsáveis eleitos, olharem para as suas necessidades básicas e pelos seus direitos de cidadania.

 

Mais triste e lamentável é sentir a frustração de ver que se privilegia o acessório em vez do mais básico e essencial, no exercício do poder em Odemira.

 

Saber que debaixo do festim e dos foguetes vivem pessoas sem poderem usufruir da energia eléctrica e de água potável nas torneiras das suas habitações, como verifiquei pessoalmente, num destes dias de comemoração de Abril, não se tratando, portanto, só dos habitantes que residem no campo, mas também de habitantes em meios urbanos dentro das povoações mais emblemáticas de destino turístico do concelho. Não posso deixar de me sentir revoltado e angustiado.