AMBIENTE

O Fabuloso Destino da Diabelha do Almograve

Planta alentejana rara e fascinante

2017-05-08
Tal como o Almograve, o guerreiro de outrora que vivia nos matos, há uma planta escondida no litoral alentejano lutando pela sobrevivência

São raras, muito raras. Numa pequena área de três hectares de Vila Nova de Milfontes, o equivalente a três campos de futebol, sobrevivem aquelas que pode, muito bem ser as últimas Diabelhas do Almograve. Trata-se da única população no mundo desta planta. No papel é protegida, mas na prática está em perigo crítico de extinção e mal conservada. É ameaçada pelo pisoteio, pelo lavrar da terra e pela competição com as plantas invasoras exóticas. E a juntar a tudo isto, acontece que a planta tem dificuldade em reproduzir-se.

 

A bióloga Helena Cristina Serrano, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), escreveu uma tese de doutoramento sobre a Diabelha do Almograve, em 2015. Uma das tarefas foi a de estimar a sobrevivência da planta nas diferentes fases do seu ciclo de vida. “Para se reproduzir a planta tem espigas que libertam pólen ao sabor do vento - quem nunca ouviu falar em alergias causadas por pólenes de plantago? - e vão fertilizar a parte feminina das flores”, explica a especialista em conversa com o MERCÚRIO.

 

O alvo do estudo foi um pequeno grupo de plantas, estudado entre 2008 e 2011. “Verificámos que só um quinto das plantas adultas produzia flores; dessas, de todas as flores produzidas nas espigas, 86 por cento não conduziam a frutos viáveis (sementes férteis); das sementes que tentavam germinar, só 24 por cento conseguia fazê-lo”, constata a bióloga. E então, o que aconteceu às sementes que conseguiram germinar? A nossa guia esclarece: “Nos meses seguintes, 62 por cento dessas plantas não sobrevivia até ao fim da Primavera e mais 44 por cento perecia durante o primeiro verão; só as poucas sobreviventes deste processo, já com pelo menos um ano de idade, poderiam continuar o ciclo de reprodução e produção de sementes, mas ainda com uma taxa de mortalidade de 21 por cento na sua fase adulta”.

 

“No exemplo analisado, de 2008 a 2011 aquele pequeno grupo de plantas diminuiu em cinco por cento, embora os anos finais tenham sido de seca intensa, o que contribuiu também para o resultado negativo”, descreve a mesma fonte. Estima-se que existam apenas três mil a 10 mil plantas desta espécie.

 

É uma planta com caules lenhosos que terminam em rosetas de folhas lineares. Ou seja, pode dizer-se um arbusto, mas como não ultrapassa cerca de 12 cm de altura, é um arbusto anão. Trata-se de uma planta muito discreta, com flores pequenas e agrupadas em espigas, pouco vistosas e que, por isso, não chamam a atenção. “Na maior parte das vezes podemos caminhar em cima das plantas sem nos apercebermos, pois a maioria delas não atinge uma idade ou tamanho que permita perceber as ramificações”, alerta Helena Cristina Serrano, que faz parte também do Centro para a Ecologia, Evolução e Mudanças Ambientais (cE3c), um grupo de investigadores da Universidade de Lisboa dedicados ao futuro sustentável.

 

Daí que o pisoteio seja uma das grandes ameaças. “Em zonas mais protegidas do pisoteio, encontramos indivíduos com grande longevidade, muito ramificados (muito mais de 10 anos) formando pequenas almofadas junto ao solo, mais ou menos cobertas de areia”, descreve. Como se não bastasse, ainda há quem as colha. “O pisoteio e a curiosidade das pessoas que teimam em levar plantas para casa, podem ser um problema grave”, acrescenta.

 

Neste momento, a planta só existe em pequenas zonas em que o solo é raso e com concentrações elevadas de metais, que impedem outras plantas competidoras de viver lá. A Diabelha do Almograve tem a característica invulgar de ser uma das poucas plantas acumuladoras de alumínio, que podem ser encontradas em climas não-tropicais. “Ao lavrar o solo, por exemplo, o terreno fica homogéneo e perdem-se essas zonas de refúgio onde a “Diabelha” consegue sobreviver e, provavelmente, foi isso que aconteceu na costa alentejana onde a planta era descrita como abundante e agora desapareceu”, relata a especialista.

 

O plano de pormenor do PNSACV e Rede Natura 2000 prevêem que a zona (3 ha) é de acesso condicionado (protecção total), mas para a bióloga “as dificuldades na vigilância e cumprimento dessa determinação poderão não ser as mais eficazes”.

 

“Por outro lado, como os interesses agrícolas e turísticos são muito fortes, a zona de protecção é muito limitada e não permite que se protejam outras zonas mais afastadas, para onde a planta poderia expandir-se se tivesse condições para tal, aumentando os seus números e diminuindo a probabilidade de se extinguir brevemente”, defende.

 

Para a preservação é preciso dinheiro. “Para melhorar as chances de sobrevivência, teria de se investir em acções directas de colonização, criando novas populações noutras zonas da costa com habitats compatíveis ou ainda gestão direccionada do habitat actual, criando, por exemplo, clareiras colonizáveis em zonas de ligação entre as populações já existentes.

 

Ricardo Vilhena (não usa AO)