DE QUEM É O OLHAR

Competição e mais competição

E mais competição


Por:Monika Dresing

imagem: Braden Collum
2017-05-08
“A necessidade de ser ‘importante’, de ser visto, de ser reconhecido leva muitas vezes a reacções agressivas, sem compreensão pelas necessidades do outro"

Olhando em redor, desde os grupos mais íntimos até ao nível mais alto da sociedade, não me parece que existe uma só área que não seja sujeita ao regime de competição. Começa já nos infantários com os jogos onde há vencedores e vencidos. Depois nas escolas, com os seus sistemas de avaliação onde uns saem melhores do que os outros, facto que muitas vezes influencia a auto-estima bem como o reconhecimento recebido dos colegas e professores. E tudo isto continua na vida profissional onde parece que ninguém consegue imaginar modelos de trabalho sem competição e concorrência.

 

E as outras áreas, as artes plásticas, a música, a literatura, o desporto, a política, as várias formas de passatempos? Também aqui existem mil e uma formas de competição. Há concursos para tudo e qualquer coisa, os programas televisivos estão cheios disso. Há sítios no mundo – não sei se também em Portugal – onde há concursos de beleza para meninas de três ou quatro anos! Assim, é difícil não ingerir o sistema de competição já com o leite materno.

 

No entanto, há algumas perguntas sobre as quais vale a pena pensar:

 

• O sistema de competições é parte integral da vida humana por natureza ou é promovido consciente e inconscientemente, tendo um significado especial na nossa sociedade capitalista?

 

• Quais são as consequências para o indivíduo? A obrigação de competir leva a certas necessidades emocionais que podem influenciar as atitudes e actos das pessoas?

 

• A competição leva a resultados “melhores”, ou seja, que tipo de mundo/vida queremos ter?

 

É difícil, senão impossível, responder inequivocamente a estas perguntas, ficando aqui apenas algumas ideias. 

 

Sabemos que na maior parte das sociedades actuais e passadas, senão em todas, tem havido sempre competições desportivas, de forças, de habilidades – competições maioritariamente masculinas que também se podem observar em alguns animais. Parece existir uma vontade natural de se comparar aos outros. No entanto, não vejo nenhuma sociedade histórica em que a competição fosse tão determinante em todos os aspectos da vida como é a situação na nossa sociedade actual. E como seres humanos, animais aculturados, temos sempre a possibilidade de controlar e/ou alterar a nossa parte animal.

 

Parece-me que a obrigação de competir, de tentar sempre ser melhor do que os outros pode levar a necessidades emocionais não satisfeitas, nomeadamente nas pessoas que não conseguem ser os vencedores, necessidades estas que podem ter uma influência negativa para a vida social. A necessidade de ser “importante”, de ser visto, de ser reconhecido leva muitas vezes a reacções agressivas, sem compreensão pelas necessidades do outro. Na vida quotidiana isto pode ser apenas triste, na vida política pode ter consequências nefastas: Trump contra Kim Jong-un pode levar a uma guerra nuclear.

 

Alguma vez foi comprovado que é necessário haver competições para se obterem resultados excelentes? Tenho muitas dúvidas. Para mim, a melhor vida seria uma vida calma e serena, com empatia e solidariedade, onde as pessoas se ajudam umas às outras e onde as críticas são sempre construtivas. Não interessa termos o melhor (inserir qualquer coisa), interessa, sim, gozarmos do que temos. Como disse Bertold Brecht:

 

NÃO SE DEVERIA SER DEMASIADO CRÍTICO

 

Não se deveria ser demasiado crítico.

Entre o Sim e o Não

A diferença não é tão grande.

Escrever em papel branco

É uma coisa boa, também

Dormir e jantar.

A água fresca na pele, o vento,

A roupa agradável,

O abecedário,

A evacuação!

Falar da corda em casa do enforcado

Não se faz.

E na sujidade,

Entre a argila e o esmeril,

Encontrar uma diferença nítida

Não fica bem.

Pois,

Quem do céu estrelado

Faz ideia,

Este

Poderia bem calar a boca.