OPINIÃO PÚBLICA

Educação: a reforma que se impõe


Por:Fernando Almeida

2017-05-08
Quer os ‘velhos do Restelo’ dos nossos dias gostem ou não, o mundo não para

Arrepia-me frequentemente verificar que Portugal tem condições para progredir na via de um desenvolvimento inteligente e sustentável, e que, vá-se lá saber porquê, se mantém longe dos lugares dianteiros do mundo desenvolvido em muitas matérias. Parece que um espírito empedernidamente conservador, associado a um domínio dos velhos sobre os mais jovens (ou dinâmicos e lúcidos elementos da sociedade), leva sempre a melhor, impondo a manutenção daquilo que sempre se fez. Poderá parecer que somos geneticamente assim, mas para mim trata-se apenas de mais um efeito secundário que resulta do facto de termos uma sociedade em que os interesses de pequenos grupos esmagam sistematicamente os interesses coletivos. Na educação também se observa esta característica da nossa sociedade, e por isso reina o medo da mudança entre os mais diversos atores que nesse palco se movem, e assim, mudar alguma coisa é sempre um drama. Mas… 

 

Se alguém se der ao trabalho de parar para pensar sobre o que andamos a fazer nas escolas, perceberá que os alunos abordam de formas distintas o conhecimento que lhes chega do mundo, e o que obtêm na escola, e que frequentemente esses conhecimentos se encontram desconectados entre si. Dito de uma forma simples e com recurso a uma analogia com o mundo da informática, parece que os alunos usam o “disco rígido” para as “memórias” da “vida real” (o que viram, o que ouviram no café ou no rádio, a conversa ao telemóvel ou o vídeo do YouTube, etc., etc.), e um “disco externo” para colocar a informação que lhes chega das aulas. O primeiro, guarda a informação de modo inter-relacionado e perene, como toda a gente faz desde que o Homem anda pela Terra; o segundo é usado como memória a curto prazo, em que a informação é descartável logo após um teste em que possa ter utilidade. A informação que os alunos recebem por esta via não se acumula, e é como quem tenta encher um saco roto: por mais coisas que para lá se deitem, está sempre vazio.

 

É fácil responsabilizar os alunos por esta indiferença face ao conhecimento escolar, culpando os “males” do nosso tempo, como a internet, a televisão, ou o telemóvel, por esta situação, numa atitude de velho inconformado com a imparável mudança dos tempos. Mas, quer os “velhos do Restelo” dos nossos dias gostem ou não, o mundo não para, e nós, ou somos capazes de o acompanhar, ou ficaremos ridiculamente fora do tempo em que vivemos, como quem combate de lança em riste contra moinhos de vento. Certamente quem tem que mudar não são os alunos que desdenham do conhecimento escolar. O que tem que mudar é o próprio sistema de ensino, com métodos e conteúdos mais próximos daquilo que se praticava no século XIX, que daquilo que é necessário para o século XXI.

 

Mas para que serve a escola, afinal? Que escola é esta que obriga os alunos a conhecer personagens de romances de séculos passados, ao mesmo tempo que os critica por escreverem mal? Que escola é esta que obriga os alunos a conhecer as classificações dos capitéis da Grécia antiga, e não lhes diz que aqui, no mesmo chão que hoje pisamos os nossos avós usaram o que pode ter sido a mais antiga escrita alfabética da Europa? Que escola é esta que faz jogar o futuro dos alunos numa prova escrita de duas horas, como se as competências que nos interessam para a vida se resumissem à técnica de responder a testes escritos? É claro que os nossos jovens, que procuram na net os filmes que dão resposta às necessidades e inquietações dos nossos dias, acham que os livros com páginas cinzentas são um anacronismo educativo inacreditável. E na verdade devem ter razão. Eles querem aprender o que nós não queremos ensinar, e falta-lhes a paciência (ou o espírito de sacrifício) para aprender o que sentem ser desinteressante ou mesmo arcaico. E quantas vezes nos surpreendem com conhecimentos que nós próprios não temos…

 

Mas nós, os mais velhos, e especialmente os professores, que muitas vezes encontramos todo o nosso valor e toda a nossa “glória” no conhecer matérias obsoletas abordadas de modo igualmente desadaptado do tempo atual, tentamos resistir. Tentamos acusar os alunos, culpá-los de todos os males e ineficiências do sistema. E os que deveriam ser a vanguarda da mudança, porque difusores do saber, aliam-se às vezes a todas as forças que vivem do imobilismo. Haja a coragem de reconhecer que neste tempo de mudança do mundo tem que haver também mudanças na educação, porque sem elas será difícil um desenvolvimento continuado e sustentável do nosso povo.