TURISMO

MARESIA

A barca da passagem

2017-05-08
Rio Mira vai cheio e o barco anda

Nascida e criada em Vila Nova de Milfontes, Maria da Conceição Gonçalves, a ‘São’ da Barca da Passagem, tem um contacto com o rio Mira desde tenra idade.

 

O seu pai, Manuel Maria Gonçalves (conhecido por Ti Manel) fazia a travessia deste rio desde o início dos anos setenta, primeiro como ajudante do seu antecessor, o Sr. Viola e depois, a partir de 1978, por sua conta e risco.

 

“Eu cheguei a conhecer o Sr. Viola, com quem o meu pai ainda trabalhou”, comenta São, prosseguindo, “o motor da barca dele, a gasóleo, daqueles que fazia tuf-tuf-tuf-tuf, tinha um grande veio e um hélice no fundo, pegava-se à manivela e era precisa uma força desgraçada, uma vez tentei e bati com o braço na cabine do motor”.

 

Logo após a reforma do Sr. Viola, Manuel Maria adquire o ‘Zambujeira’. “Nessa altura ainda se trabalhava o ano inteiro”, informa São. “O meu pai transportava as pessoas, os seus pertences mas também as bicicletas, as motas e os animais, sobretudo na altura da feira de oito de agosto que era aqui na Avenida Marginal”.

 

“Lembro-me, miúda, do meu pai transportar uns animais para a feira e o barco inclinou-se um bocado, com a levada, e a bicharada saltou borda fora e foi aí que eu aprendi que as vacas sabiam nadar (risos) até lá não fazia ideia”, conta São, “a bicharada foi parar à praia e as pessoas corriam atrás deles para os apanhar (risos), nunca me vou esquecer disso”.

 

(Entra no barco um par de amigos alemães mas que falam um português razoável. A conversa continua enquanto os clientes são atendidos por Maia, uma colaboradora de São, e transportados para a outra margem)

 

 

OUTROS TEMPOS

 

São tem pena que não se faça mais aquela feira na ‘Avenida’. “Agora é nas Brunheiras e não tem graça nenhuma”, diz. “As pessoas vinham todas vestidinhas à maneira”, continua. Na altura o acesso ao barco era através de uma prancha. “Eu lembro-me da dificuldade que era para se transportar um carneiro (os chifres da fotografia 3 da página seguinte eram de um carneiro lindíssimo que ia para o talho) mas as pessoas, só para não irem dar a volta por S. Luís e Cercal, vinham para esta aventura”.

 

Noutros tempos a Barca da Passagem era mais usada pela população local. “É engraçado que ainda há gente que diz a Barca da Passagem’, ainda têm a memória de outros tempos”, lembra São e conta que “há um senhor que mora ali do outro lado (a sul), que faz cestos de cana, o Sr. António, (não conheço mais ninguém que ainda os faça) e por vezes ainda me paga com um cesto cheio de figos ou ovos, ele insiste em pagar à ‘moda antiga’”.

 

Também a Sra. Constança, que fazia pão caseiro do outro lado e que tinha o seu próprio bote, “quando estava mais cansada ou doente fazia a travessia comigo e pagava-me com pão”.

 

Para São há coisa que o dinheiro não paga. “Eu cheguei a ter aqui um cesto cheio de coisas e mesmo só tendo cinquenta anos cheguei a ter experiências giras do passado”, e conta que uma vez lhe pagaram com uma galinha viva e que foi “uma história”, com a galinha às voltas no barco. Agora diz que que é vegetariana e que não lhe tragam “esses bichos”. 

 

(Por coincidência, à espera da barca, do outro lado está Toni, “Toni dos Bosques” como São lhe chama, sobrinho do António que faz os cestos. O Vigia, o cão “mais fotografado de Vila Nova de Milfontes”, ladra para Toni. São explica que uma vez o Vigia, ainda cachorro, caiu do barco do Toni e não gostou. “Quando o tirámos da água parecia um rato sem pelo (risos) e, como tem uma memória de elefante, não se esquece de nada e sempre que vê o Toni ‘ralha’ com ele”).

 

 

O SERVIÇO

 

São estudou no colégio Nossa Senhora da Graça e começou por ajudar o pai nos meses de verão “tinha doze anos”.

 

Aos dezanove anos foi trabalhar para o colégio. Primeiro na biblioteca, depois como auxiliar de educação. Há dois anos deixou o trabalho do colégio para se dedicar totalmente ao seu negócio. “Faço uma coisa de que gosto e isso é muito importante para mim, não que não gostasse do trabalho lá mas isto já requer a minha presença o ano todo e, além disso, sou mais independente”.

 

Foi nos anos noventa, quando Manuel Maria se sentiu com “menos força para continuar”, que São comprou o seu primeiro barco. “Comprei uma traineira típica em Sesimbra, o ‘Mira Cor’ e comecei a fazer este trabalho sozinha”, explica.

 

“Na altura fazia só o verão mas depois, sobretudo com a criação da Rota Vicentina, começou a haver maior necessidade de ter este serviço o ano inteiro”.

 

São tem agora mais uma pequena barca comprada a um pescador, a Maresia. “Não tinha o corrimão não tinha os bancos nem a cabine, era um barco de pesca simples que comprei em Sines em 2012 e transformei-o nesta barquita”, informa.

 

O tamanho das barcas da passagem foi ‘encolhendo’ para facilitar a navegação, por causa da areia. “Talvez o desassoreamento mude um pouco mas de qualquer maneira este consome menos, é mais fácil de manobrar e não tenho assim tantos clientes que justifique ter um barco muito maior para a travessia”, clarifica São.

 

O serviço está disponível de fevereiro a novembro. Os meses de dezembro e janeiro são dedicados à manutenção dos barcos e dos cais. “É uma altura do ano que faz muito frio e o pouco movimento turístico não justifica o trabalho”.

 

Todos os anos o cais e os barcos são retocados ou pintados. São quer manter os barcos tradicionais de madeira e já não há muita gente para fazer a manutenção e reparação destes barcos. “Há o Mestre Salvador e talvez o filho queira continuar, mas estamos muito condicionados e isto pode tender a desaparecer”. 

 

“Fora do verão trabalho como um táxi fluvial”, explica, “o preço é um pouco diferente mas as pessoas não têm de ficar à espera”.

 

A partir de quinze de junho o serviço é oferecido com regularidade e com horário das nove da manhã às oito da noite, “mais ou menos”, com travessias a cada meia hora, com uma pequena paragem para almoço. “Os clientes de verão são diferentes e os preços também são mais ‘simpáticos’”, conta.

 

O cais junto a Vila Nova de Milfontes está no lugar onde já o Sr. Viola o tinha. É tradição e comercialmente mais estratégico. Na outra margem está no lugar onde a profundidade é maior. “Na ‘Bica da Areia’ há sempre fundo para lá se chegar”.

 

O verão é mais rotineiro e a qualidade do serviço é maior fora de época balnear porque há mais tempo para as pessoas. “No verão temos mais clientes mas nem por isso os ganhos são maiores porque os preços são mais baixos e é mais cansativo”, diz André, colaborador de São.

 

(Agora é um casal de franceses que entra no barco. Maia atende-os com um francês irrepreensível. O casal agradece. Há uma senhora que se aproxima do cais. São toca um sino enquanto diz: “o meu pai tinha um búzio mas eu tenho este sino para avisar as pessoas”. A senhora não quer embarcar. São inicia mais uma travessia sem interromper a conversa. Chegados ao outro lado ainda é utilizada a prancha ‘à moda antiga’. Nas próximas semanas já será colocado o cais na praia das furnas).

 

 

OS PASSEIOS NO RIO

 

A ‘Maresia’ tem uma oferta de passeios diários que podem ser às 11h00, às 15h00 e às 17h00, “quando há pessoas suficientes”. Os passeios fazem-se com um mínimo de quatro pessoas. Raramente de três. Se forem apenas duas, São tem um barco mais pequeno. Há sempre uma solução.

 

“Os passeios que ofereço na primavera, que já chegaram a demorar uma tarde inteira e que têm alguma procura, são os piqueniques”, diz. São coloca uma mesa e um chapéu-de-sol no centro do barco. Nos aniversários também põe balões. “Fazemos a festa cá dentro e quando é possível encostar num cais às vezes as pessoas saem um bocadinho”.

 

São tem outros barcos que garantem a travessia quando o Maresia faz os passeios.

 

“Normalmente fazemos passeios de uma hora, hora e meia”, explica, “não fazemos maiores porque, sobretudo para os clientes, torna-se muito cansativo”.

 

Durante o passeio é oferecida uma bebida. Se está mais frio, um café, um chá ou um chocolate quente. Se está mais calor, um vinho fresco ou uma água.

 

Os passeios para despedidas de solteira também têm sido muito requisitados. “No ano passado ainda tivemos uns cinco e foram grandes festas”, diz São.

 

Este ano já estão contratadas mais duas. Uma delas partilhada com outro operador marítimo-turístico. “Nós damo-nos todos bem”, afirma, “e o que importa é que as pessoas sejam servidas”, e André reforça que “a ideia é que se trabalhe para toda uma zona e não estar com divergências porque o que interessa é que se crie um lugar bom, apetecível, e que as pessoas venham para cá”.

 

“A mentalidade mais jovem é assim”, remata São.

 

André desafia São para contar alguma história com os clientes mas São tem reservas em contar. “Há coisas que não se contam, é uma questão de ética”.

 

 

A BILHETEIRA

 

A casinha da bilheteira não serve apenas para a venda de bilhetes, serve também de apoio aos turistas que fazem muitas perguntas acerca de alguns serviços da vila. “Perguntam se sabemos de algum quarto para alugar ou de um restaurante mais típico para jantarem... eu tenho ali uma quantidade de cartões dos lugares e entrego às pessoas, aquilo é uma espécie de extensão do Posto de turismo (risos) que penso que agora já esteja aberto o ano todo mas houve alturas que não estava”, diz.

 

Curiosamente, na casinha da bilheteira, São tem uma estante de livros em várias línguas para dar, emprestar ou trocar. “São livros que as pessoas vão deixando e eu ponho ali e as pessoas ficam muito contentes de poderem ter alguma coisa para ler enquanto estão de férias ou vão para a praia, é uma espécie de ‘Cabine de Leitura’ como a que está lá em cima junto ao Posto de Turismo (ver edição do MERCÚRIO de junho de 2016) só que eu já tenho isto há muitos mais anos (risos)”.

 

Os preços variam com as estações do ano e com o tipo de serviço. “Temos preços especiais para grupos, para famílias, para crianças e para jovens e para quem compre um bilhete semanal, por exemplo, e para as escolas também”, diz São.

 

A algumas pessoas locais, São não cobra bilhete. É a sua responsabilidade social. “Faço o jeito, não faço a volta de propósito, dou as boleias quando tenho clientes para levar”.

 

(Aproxima-se um casal e uma criança e São cumprimenta-os amigavelmente. Trata-se de habitantes locais e clientes habituais que vêm ‘matar saudades’ do rio. Entretanto chega também um jovem casal de portugueses que só querem dar ‘uma volta’. São faz um percurso um pouco maior e comenta: “é pena a maré estar a vazar, se não, aproximava-me mais da barra mas não quero correr o risco porque se acontece alguma coisa torna-se mais perigoso”. São tem uma pequena roda de leme de madeira “para as crianças fazerem de conta que são o capitão do barco”, diz enquanto dá instruções à criança de como se faz).

 

 

A RELAÇÃO COM OUTROS SERVIÇOS

 

A maioria das unidades hoteleiras de Vila Nova de Milfontes já começa a perceber que São tem este serviço quase todo o ano. Muitas já informam e sugerem aos seus hospedes fazerem a travessia de barco em vez de irem pela ponte. “Os próprios turistas quando se apercebem que isto existe e não foram informados ficam um pouco dececionados, mas tenho a certeza de que quando não os informam é porque não sabem e, por isso, se calhar tenho de por mais folhetos e passar melhor a informação”.

 

Existe uma estreita colaboração com outros operadores do rio. “Partilhamos muito os clientes quando um de nós tem um grupo maior porque aqui não se justifica ter um barco para vinte ou trinta pessoas, não compensa e os requisitos são muito maiores e no mar não pode haver rivalidades”, informa São, continuando, “a concorrência é saudável e devemos colaborar uns com os outros e os clientes sentem isso e ficam muito mais satisfeitos”.

 

 

O SUPORTE

 

Para além do António, o seu marido, São tem dois jovens a ajudar: Maia e André. 

 

São explica que “estes dois jovens tiraram a carta de marinheiro porque querem estar aqui a trabalhar comigo e sem isso não poderiam fazê-lo e para mim ter dois jovens a trabalhar comigo é estimulante”. “Se ninguém se interessasse por isto era um pouco desmotivante”.

 

Maia é estudante, acabou agora o secundário e vai para a universidade depois de ‘fazer’ o verão com São. Maia fala italiano, francês e inglês “e os clientes ficam todos contentes”, diz São.

 

André tem um sentido crítico, acerca da vida e da sua terra, muito apurado. Também fala inglês. É sobrinho de São e trabalha com ela praticamente todo o ano.

 

“Tenho ainda o apoio do meu marido, o António, que me ajuda muito”, sublinha. António esteve na marinha como mergulhador profissional. Agora está reformado. “Ele tem muita experiência”, diz, “e eu também tenho a minha, que estou cá desde muito nova, no fundo complementamo-nos”.

 

António colabora sobretudo na manutenção dos equipamentos. “Está sempre a ver o que é que está ou não seguro, a rever o motor, tira os cais no inverno e coloca-os no verão...”.

 

António, por sua iniciativa, cuida também dos canteiros das ‘escadinhas da Barbacã’. “E as pessoas reparam nisso e gostam muito da forma como os canteiros estão a ser tratados e como ficam mais bonitos”, diz São.

 

(Chega um cliente espanhol. Sozinho. Mais reservado que os anteriores clientes mas simpático. Viagem só de ida. Chegados à outra margem estavam de regresso o casal de franceses e mais uma senhora que pretende ir para Vila Nova de Milfontes. A prancha ‘à moda antiga’ é mais uma vez utilizada).

 

 

OS CLIENTES

 

São conta que a ‘Maresia’, nome da sua empresa e do barco que faz a maior parte do serviço de travessia do rio Mira, está inscrita no TripAdvisor. Há um autocolante no vidro da cabine a confirmá-lo. “As pessoas gostam e aderem e vão lá escrever a sua experiência e eu agradeço porque gosto de saber a opinião das pessoas, até para melhorar o serviço, se for o caso”.

 

A classificação é de cinco estrelas. ‘Boa alternativa’, ‘Surpreendente’, ‘Belo passeio’, ‘Uma lufada de ar fresco e simpatia’, são alguns dos títulos dos comentários.

 

“Espero que a tendência mantenha o crescimento de clientes”, diz São, otimista. Desde o ano de 2012 que a afluência tem vindo sempre a crescer, sobretudo fora de época, no serviço de táxi fluvial. “E para isso a Rota Vicentina tem sido uma grande ajuda, e também tenho uma relação especial com algumas unidades hoteleiras aqui da vila”.

 

São cumpre todas as normas de segurança exigidas pela lei. A maior parte das pessoas não utilizam os coletes, mesmo aquelas que têm medo de andar de barco, dada a curta distância do percurso e a pouca ondulação. “Quando há crianças mais irrequietas coloco-lhes os coletes para os pais ficarem mais descansados, e eu também”, afirma.

 

No rio há frequentemente algum vento fresco. Sobretudo quando há nortada. “Por vezes, quando regressam da praia, as pessoas parecem panadas pela areia (risos)”, brinca São, “eu tenho sempre uns ‘corta-ventos’ e umas mantas no barco para as pessoas se protegerem”.

 

Na proa do Maresia são colocadas algumas almofadas. Normalmente São não permite que os adultos subam mas aquele lugar faz as delícias das crianças.

 

(Chegados novamente ao cais de Vila Nova de Milfontes os clientes saíram e uma senhora que passou, ao avistar o passadiço em construção, dizia em tom sarcástico e de evidência, “aaah, passou por aqui a POLIS”. É claro que a conversa seguiu o tema).

 

 

A INTERVENÇÃO POLIS

 

A freguesia de Vila Nova de Milfontes está em reabilitação urbana e ribeirinha por parte do Programa Polis Litoral e da Câmara Municipal de Odemira.

 

A Sociedade Polis projetou, entre o Cais e as ‘escadinhas da Barbacã’, um ‘passadiço’ que termina mesmo junto ao ‘cais da São’ sem ter em consideração a atividade existente. São nunca foi contactada. Nem em projeto nem no início da obra. “Eu tentei contactá-los, inicialmente sem sucesso mas, após a minha insistência, consegui reunir para definir a integração do meu cais”.

 

A atividade de São é um serviço público, não só para os turistas mas também para a população local.

 

A construção do passadiço atrapalhou um pouco a atividade da travessia. “Dizem que pode trazer mais clientes, é possível mas, para já, só me trouxe despesa”, diz, “por isso, deveria ser compensada com a ajuda de material para um melhor enquadramento à nova estrutura”. E quanto mais cedo isso vier a acontecer melhor para que tudo fique, dentro dos possíveis, mais harmonioso e para que o serviço da travessia regresse à normalidade.

 

André intervém na conversa num tom mais crítico: “isto é um atentado à natureza, estamos num Parque Natural onde nada se pode fazer e de repente fazem uma coisa destas, aqui!”, e pergunta “como é possível?”. Para André o planeamento foi “mal feito, já tiveram de fazer ajustes, não falaram com ninguém nem tiveram atenção aos pormenores como os degraus e a atividade da minha tia e agora vai ter de ser ela a ajustar o seu cais ao passadiço e a acarretar com essa despesa”.

 

Ambos têm dúvidas se haverá a manutenção necessária. São diz que a sua parte “irá ser mantida, e a casinha da bilheteira, que ‘permitiram’ lá deixar, também e continuará a tratar dos canteiros das ‘escadinhas’, mas o resto... é tudo muito bonito no papel mas esquecem-se da vida prática”, e continua, “as pessoas, quando aqui chegam, ficam mesmo chocadas, ninguém está à espera de ver tudo destruído e um passadiço feito de betão e metal, e depois reclamam e torna-se muito cansativo ouvir tanto protesto”.

 

 

NOTA FINAL

 

“Podemos não ter algo muito sofisticado mas as pessoas gostam muito disto como está e nós queremos é que as pessoas saiam daqui contentes que é o que quero para o meu negócio porque o dinheiro não é tudo”, remata.

 

Pedro Pinto Leite