A MÁQUINA DO TEMPO

Brito Paes

O Aviador


Por:Artur Efigénio

2017-05-08
Chamaram então a Brito Paes ‘um herói e um santo’, significando isso a sua coragem física e moral, os seus feitos de armas, o seu pioneirismo aventuroso e a sua nobreza de caráter

(…) Seis horas e dois minutos (…) Lentamente, muito lentamente, como se lhe custasse aquele adeus à terra portuguesa, o Pátria começa a rolar na primeira luminosidade pérola da manhã. E ao fim de oitocentos metros de corrida solta-se do terreno macio e húmido, aproando a Oriente, a um sol que não nasceu ainda, mas que das bandas de Espanha, dispara já as suas claridades frouxas, por bombordo, um aguaceiro espesso desaba sobre a serra do Cercal. E pouco depois o ronco do Pátria desaparecia entre as nuvens.” (…).

 

Este é um excerto do livro “De Portugal a Macau”, que relata a descolagem do pequeno avião que no dia 7 de abril de 1924 saiu de Milfontes às primeiras horas da manhã com os Majores Sarmento de Beires, autor do livro e Brito Paes, este, um homem de Colos, para cumprirem a missão de voar de Portugal até Macau, percorrendo 16.380km.

 

“Pátria” chamaram eles ao biplano “Breguet” 16 Bn2 de 300 cv, que já com o Alferes Manuel Gouveia, mecânico de bordo, que se lhes juntaria em Túnis, tentou chegar às paragens do sol nascente. Não chegaria este avião ao destino pois despenhar-se-ia em Jodhpur na Índia, tendo sido substituído por um outro biplano, o “Pátria II”, um “De Havilland D.H.9 de 400 cv”, comprado localmente com a autorização de Lisboa, que percorreu a restante viagem, cumprindo o desígnio desta aventura.

 

Sobrevoaram o istmo de Macau a 20 de junho, tendo passado por locais como Málaga, onde fizeram a primeira paragem, Trípoli, Bengasi, Cairo, Palestina, Síria, Bagdade, Carachi, Calcutá, Banguecoque e por fim terras chinesas onde aterraram, danificando permanentemente o “Pátria II”, sem que o pudessem fazer em Macau devido a más condições atmosféricas, onde chegariam em ambiente festivo a 25 de junho.

 

Brito Paes foi um homem que nasceu em Colos em 15 de junho de 1884. Em 1907, ingressou na Escola do Exército onde terminou o curso de Infantaria em 1910. Em novembro do mesmo ano foi promovido a Alferes. Tirou o “brevet” na Escola de Aviação de Avord, e em 1917 combateu em França na I Guerra Mundial integrado nos Serviços de Aviação do C.E.P.. Notabilizou-se em combate, foi condecorado com a Torre e Espada, Cruz de Guerra e a Legião de Honra Francesa. Em 1920 testou o seu espírito aventureiro com o seu companheiro Sarmento de Beires a bordo do avião “Cavaleiro Negro” na primeira viagem à Madeira só com bússola. Não conseguiram aterrar devido ao forte nevoeiro, mas sobrevoaram a ilha e amararam ao seu largo, tendo sido salvos por um cargueiro Inglês.

 

Em 1923, foi promovido a Major e comandou a Esquadrilha de Bombardeamento e Observação do Grupo de Esquadrilhas de Aviação “República”. Em 1924, com Sarmento de Beires e Manuel Gouveia participa nesta viagem a Macau. Já depois em 1932, foi nomeado Adjunto do Inspetor da Arma de Aeronáutica. No dia 22 de fevereiro de 1934 morre tragicamente, vítima de uma colisão aérea perto de Sintra aos comandos do avião que pilotava.

 

No dia 6 de abril de 1935, o seu corpo foi transladado de Lisboa e foi realizado o funeral em Colos, em cujo cemitério repousa. Nas exéquias esteve presente uma outra glória da aviação portuguesa: Gago Coutinho. Nesse dia, segundo estimativas da época, afluíram a Colos mais de 10.000 pessoas. Chamaram então a Brito Paes “um herói e um santo”, significando isso a sua coragem física e moral, os seus feitos de armas, o seu pioneirismo aventuroso e a sua nobreza de caráter.

 

É de realçar e evocar hoje a odisseia desta viagem, a vontade destes homens, e mais particularmente o legado do Major Brito Paes, por se tratar de um conterrâneo do concelho de Odemira e por ser um exemplo de coragem para todos nós. E, quando se completam por estas alturas primaveris 93 anos desta epopeia que deu um contributo inequívoco para o desenvolvimento da aviação portuguesa e mesmo mundial, importa enaltecer o feito e os seus obreiros que o tempo teima em sorver para a obscuridade e para o esquecimento da História. Resta-nos apelar a todos que contrariemos essa tendência para que não reste apenas pouco mais do que o nome de uma escola em Colos e um discreto monumento erigido na praça junto à barbacã do forte de S. Clemente em Milfontes.