A MÁQUINA DO TEMPO

O português

“Queres fiado... toma!”


Por:Artur Efigénio

Ilustração de Raphael Bordallo Pinheiro
2017-06-12
Agora temos um novo sujeito que passou a ser cidadão europeu, urbano, cibernauta, e até, porque não, um pouco metrossexual

Cara redonda e patusca, barba sem bigode, um tanto ou quanto anafado, camisa clara aberta e mangas arregaçadas, calças e colete escuro, um chapéu amarrotado. Já reconheceu? … Eu ajudo … a fazer um manguito!... Sim … esse mesmo! – O Zé Povinho!

 

Criatura genial, de seu criador - Rafael Augusto Bordalo Pinheiro. Veio ao mundo no dia 12 de Junho de 1875 na publicação do n.º 5 da revista de sátira política Lanterna Mágica. Neste número é então representado o recém-criado Zé-Povinho a ser abordado pelo ministro da fazenda para o peditório a favor do Santo António, retratando Fontes Pereira de Melo, então chefe do governo, com o Rei D. Luís a seu colo. Enquadrava-se assim, há 142 anos, a época dos Santos Populares, que também por este mês de junho se festejam um pouco por todo o país.

 

Havendo quem diga ter havido inspiração no resignado Sancho Pança, fiel amigo de D. Quixote, também o Zé-Povinho nos surge como metáfora antropológica de grande eficácia anti-revolucionária, conformista e descrente, representando, não a racionalidade, mas a natureza incerta e indomável de uma figura iconográfica. Uma recriação dos “parvos” de Gil Vicente, ou dos bobos e loucos, também estes, entidades desprezadas mas intemporais em qualquer representação. 

 

No entanto o que particulariza a personagem icónica de Bordalo Pinheiro é a sua absoluta e singular atualidade. Não visível na indumentária ou na própria figura boçal, balofa e rural, mas no idealismo representativo que contém a caracterização total de um povo, que suporta, que é enganado, que resiste, mas que também é errático e até preguiçoso.

 

Quem não se lembra desta figura imortalizada pela louça das Caldas, essa grande fábrica que gerou outros ícones bem típicos do coletivo popular português (falo-vos do Galo de Barcelos!), e que, onde quer que fosse, nas prateleiras das tabernas ou nas vendas de aldeia, era sempre presença assídua, objeto de culto e veneração, consubstanciando a devoção ébria subjacente aos vapores do vinho lá servido em “copos de três”. 

 

Em corpo inteiro ou mais vulgarmente em rotundo busto, que podia enformar canecas e caixas decorativas, esse Zé Povinho errático e familiar reunia uma espécie de benévola imagem de transgressão, quase sempre ligada ao manguito obsceno e à proclamação retórica de frases do taberneiro sobre a sua clientela.

 

Mas será que o povo português do séc XXI ainda estará a ser bem retratado nesta estereotipada e icónica figura de 1875? 

 

No que toca ao idealismo e sentimento representativo, talvez. Já que o tipo acintoso, descomprometido, marialva e oprimido pelo poder se mantém. Mas agora temos um novo sujeito que passou a ser cidadão europeu, urbano, cibernauta, e até, porque não, um pouco metrossexual. Como poderíamos então agora representá-lo graficamente?

 

Talvez uma mistura estilizada do “Zé Manel” taxista da Maria Rueff com um adepto de futebol do tipo do Barbas do Benfica ou algo mais modernaço, com brinco, penteado e vestimenta de futebolista bem-sucedido, tatuagem numa perna ou braço e morador num subúrbio de uma grande cidade. Ou ainda, um típico habitué da esplanada a comer uns caracóis e bebendo umas “mines” pelo gargalo, cruzado com o Rouxinol Faducho, mas de calça descaída no rabo, “cap” e barba crescida, tal como a moda agora impõe. Tudo isto, condimentado com a típica e intemporal maledicência e acutilância crítica, agora verberada vernaculamente no facebook com recurso a um Iphone topo de gama comprado a prestações. 

 

Coloquem agora este atualizado ícone numa prateleira, já não nos comércios de aldeia e tabernas, mas num McDonald´s ou Pizza-hut de um qualquer centro comercial, e publiquem-no, não na revista Lanterna Mágica mas no Youtube ou Instragram, para que todos o conheçam e façam likes. É este o novo Zé-Povinho! O nosso restaurado português típico no seu habitat natural. E talvez, também aí, prostrado nessa prateleira ou como brinde de um happy-meal, de sorriso maroto tal como fazia o seu bisavô, ele se vire para si, gesticulando um expressivo manguito, e diga: “Queres fiado... toma!”