PALAVRA DE PALHAÇO

Ficção ou Realidade?

Continuo a ser Rajim e desejo ser feliz, como tu.


Por:Enano Torres

2017-06-12
Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

Eu sou Rajiv, natural do Nepal, tenho 25 anos, estudante de medicina, sou emigrante ilegal e cheguei a Portugal há 6 meses com um visto falsificado pelo qual paguei 1500 euros. Morava com a minha Mãe e duas irmãs mas decidi vir até Portugal porque o meu tio Abhmar contou-me que tinha trabalho diário nas estufas pois cá o setor agrícola não encontra mão-de-obra suficiente. As pessoas residentes não desejam fazer este tipo de trabalho, mesmo algumas que estejam desempregadas.

 

Fiz mais de 8.000kms até chegar a Odemira. Moro num contentor com mais 17 pessoas. Os quartos são comunitários pelo que não tenho privacidade. Estou algures em São Teotónio, um lugar de 3000 pessoas aproximadamente, e onde a maioria da população atual é estrangeira, com cerca de 3 portugueses para 13 estrangeiros.

 

Trabalho diariamente, entre 10 a 12 horas, numa estufa muito perto da costa, até consigo sentir a brisa do mar. Ganho 2,50 euros cada hora. O patrão é português embora a empresa seja espanhola. O local de trabalho está cheio de plástico e ferro. Dizem que estamos num Parque “Natural”, mas eu pergunto: como podem chamar-lhe natural quando esta cheio de estufas por todas partes? Existem centenas de estufas na costa. As empresas faturam muito dinheiro, exportam os produtos para fora.

 

O Rio Mira prostitui-se, sem querer saber das estufas, mas os políticos gostam. Outro dia apareceu o Primeiro-ministro de Portugal tudo sorridente para conhecer uma outra unidade perto da nossa, com outros senhores de gravata.

 

Gosto de trabalhar aos fins de semana porque o meu chefe paga um bocadinho mais (3 euros/h). Metade do dinheiro que ganho semanalmente, envio para a minha família no Nepal. Não sei quando vou voltar a vê-los, talvez daqui a 4 anos se a vida me correr bem. O que nos mantém em contacto diário são as redes sociais mas nunca é a mesma coisa.

 

Apenas descanso aos domingos á tarde, dia que aproveitamos para comprar a comida para a semana. Lavamos alguma roupa e quando temos algum tempo livre passeio com o meu tio que tem um carro em segunda mão que comprou a um alentejano (assim se chamam as pessoas de cá) e que o usa para ir trabalhar. Uma vez por mês encontramos grande parte da comunidade nepalesa que mora por cá, no Parque das Águas na Boavista dos Pinheiros. Gosto muito desse momento pois faz-me parecer que estou no Nepal. Cantamos, dançamos e deliciamo-nos com comidas tradicionais da nossa cultura.

 

Quando algum colega de trabalho fica doente vão ter comigo porque sabem que sei de medicina e procuro os melhores remédios caseiros.

 

Em abril fomos uma noite às festas de Odemira ver o fogo de artificio e foi curioso ver como se divertem os portugueses. Muita bebedeira e comida de rulote. As meninas iam muito arranjadas e uma delas piscou-me o olho no concerto de um grupo famoso de cá que fazia muito barulho. Eu agradeci com um sorriso e ao acabar o concerto passou por mim agarrou-me a mão e deixou-me um papel com o seu número de telefone.

 

Dois dias depois escrevi uma SMS em Inglês apresentando-me e recebi resposta. Começamos a falar regularmente pelo whatsap. Ela é de uma aldeia vizinha chamada Odeceixe, tem 27 anos e acabou o curso de veterinária. Agora, enquanto não arranja trabalho de veterinária, ajuda a sua mãe no café. Temo-nos visto várias vezes e diz-me que gostou de mim assim que me viu no concerto dos Xutos (era esse o nome do grupo barulhento). Eu também comecei a gostar dela mas ela não quer que a sua família saiba da nossa relação porque sou do Nepal e, ainda por cima, trabalho nas estufas e para os residentes esse não é um trabalho bem visto. Seja como for quando o amor chama à porta não há muros que resistam.

 

Ela esta cada vez mais interessada por saber da minha cultura e eu aprendo português com ela, diz que me vai ajudar para conseguir os papéis legais.

 

Continuo a ser Rajim e desejo ser feliz, como tu.

 

P.S.: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência (ou não...)