OPINIÃO PÚBLICA

Nós e o nosso passado

A nossa História anda mal contada


Por:Fernando Almeida

2017-06-12
Tanto as convicções mais nacionalistas, como as mais internacionalistas e mesmo as ditas de inspiração materialista, mantiveram entre nós um estranho comportamento face a algumas épocas do nosso passado

Sabe-se que a educação escolar tem às vezes mais de ideológico que de científico, e isto tanto se aplica ao que se aprende como à forma como se aprende. À massificação da produção industrial dos inícios do século XX, correspondeu uma massificação da educação, também ela do tipo “industrial”. Se as peças saem da fábrica todas iguais, supostamente o mais perfeitas possível, sem os erros do artesanato, também da escola passaram a sair alunos com a mesma formação, todos eles tendencialmente iguais, e supostamente quase perfeitos. Os que não atingiam o desejado nível de perfeição, porque diferentes do modelo desejado, são “refugados”, como qualquer peça fabril com defeito…

 

Esta ideologia fabril massificadora tem sido aplicada à forma como se ensina, mas essa mesma ideologia não ficou ausente das escolhas sobre o que se ensina, e nenhuma área do conhecimento se pode gabar de ter ficado ao abrigo da influência que a ideologia dominante impõe. Foram assim há cem anos atrás os determinismos, tentando dar justificação “científica” ao colonialismo dos séculos XIX e XX, como tem sido o criacionismo, ensinado como verdade ou falsidade conforme os locais e as épocas. Até as escolhas das leituras, em disciplinas ligadas à língua, evidenciam o mesmo fenómeno. O poder usa a escola, o mais que pode, como forma de difundir a sua forma de pensar, de exaltar o que lhe interessa, e de omitir aquilo que lhe desagrada.

 

Entre nós, uma mesma cultura latinista e católica tem formatado os intelectuais de modo tão profundo, que trespassa as gerações e as ideologias que sucessivamente vão sendo dominantes.

 


Tanto as convicções mais nacionalistas, como as mais internacionalistas e mesmo as ditas de inspiração materialista, mantiveram entre nós um estranho comportamento face a algumas épocas do nosso passado. Foi assim com o período de dominação islâmica, do qual nunca nos ensinaram absolutamente nada: nem a sua poesia, nem a filosofia ou ciência, nem o modo de vida… Mas mais estranho ainda tem sido o facto de nos esconderem o nosso passado no período pré-romano, do qual apenas são referidos de passagem alguns mitos difundidos pelos próprios romanos.

 

E estranha-se este comportamento, tanto mais que o povo que por aqui viveu nesses tempos remotos já tinha escrita vários séculos antes da chegada dos romanos, no que terá sido pioneiro na Europa, quanto muito acompanhado pela mais antiga escrita grega. Poderá perguntar-se com razão, por que motivo temos escondido do conhecimento comum, em particular na escola, um facto que seria usado por qualquer outro povo como bandeira levantada com orgulho entre o conjunto das nações. A resposta está, como não poderia deixar de ser, na ideologia. Neste caso a ideologia que formata os nossos intelectuais e académicos, herdada dos tempos em que as letras eram apanágio exclusivo da igreja católica e de seus discípulos que usavam o domínio do latim como fator diferenciador e de prestígio. Essa corrente, por se sentir herdeira do próprio império romano, sempre tentou enaltecê-lo, e denegrir os seus inimigos, no caso, os nossos antepassados conquistados por Roma.

 

Mais uma vez será lícito questionar: por que motivo se tem escondido a existência dessa escrita cuja antiguidade é um facto cientificamente inquestionável? E a resposta continua a estar na ideologia: como poderiam os historiadores tradicionais, que insistem na tese latinista que a “romanização” foi um ato de civilização de bárbaros pastores abrutalhados e sem lei, explicar que esses “bárbaros pastores abrutalhados e sem lei” afinal já tinham escrita quando a cidade de Roma estava apenas a nascer? Teria que se aceitar que certamente esses nossos antepassados não eram nenhuns “selvagens” como sempre nos disseram, e que a dita “romanização” foi afinal uma sequência de atos brutais que tentaram esmagar e destruir a própria essência do povo que dominaram. Tanto o tentaram os romanos em tempos do império, como o continuaram a tentar os seus herdeiros na qualidade de elites intelectuais depois da sua queda.

 

Por isso a nossa História anda mal contada, criando grandes “buracos negros” sobre os quais pouco se investiga e ainda menos se divulga. Seria bom corrigir esse erro, tanto para repor a verdade histórica cientificamente conhecida, como para que nós portugueses, e em especial os alentejanos, possamos encontrar no passado mais um motivo de orgulho face aos que nos têm tentado diminuir.