MIRADOIRO

Draga ou não draga!?

Vai dragando, em terra


Por:António Quaresma

2017-06-12
A draga está cá, e de cá não sairá sem dragar! Fé!

O pessoal está à beira de um ataque de nervos. Durante anos a fio os naturais sonharam com a vinda da draga, uma aspiração com mais de cem anos, e agora que, enfim, a draga chegou, ela não draga. À antiga aspiração dos naturais não correspondeu a draga com a aspiração dos areais. Toda a gente se interroga: por que não draga, a draga, como é sua obrigação? Para que queremos nós uma draga que não draga? Pior: os vizinhos de Odemira que no início olhavam, roendo-se de inveja, para Milfontes, por esta ter uma draga, e Odemira não, começam com uns vexatórios dichotes por afinal a draga não dragar.

 

Recorde-se que a draga está sem dragar há, daqui a pouco, um mês. Veio por estrada num camião e foi evacuada perto da ponte, de mansinho, quando toda a gente olhava a barra, esperando ansiosa que a draga entrasse no rio, num preia-mar de águas vivas, navegando embandeirada, ao som trombetas e búzios, para, na baixa-mar seguinte, se lançar em vigorosa dragagem. Chegou desmontada em peças, incógnita, e ninguém percebia; à distância via-se um longo mastro, que muita gente julgou ser um poderoso sugador de areia, e afinal não passava do braço da grua que descarregou e montou a draga, a verdadeira draga.

 

Durante dias no remanso do lar, na convivência do café, no bulício da rua, em todo o lado, a palavra mais pronunciada foi “draga”, cujo som, algo áspero, soava mavioso aos ouvidos de todos. Um amigo meu engasgou-se, pois enquanto pronunciava a terna palavra pretendeu sorver o café: encheu a camisa de nódoas escuras, o que lhe valeu um raspanete da mulher, que só se apaziguou quando soube a verdadeira razão do incidente. E surgiram, na boca de uns engraçadinhos, piadas maliciosas sobre a draga, de condenável gosto, fazendo lembrar um pouco o que aconteceu em 1939, na construção do cais em estacaria de betão armado, com o emprego de um “bate-estacas”, nome a que a população emprestou então tão criativas quanto brejeiras conotações.

 

Houve quem divulgasse ter visto o poético nome da draga: Amália Mota! “O quê, veio de mota!?” exclamou, incrédulo, um distraído, acrescentando “que raio de draga é essa!?” O nome que muitos outros consideraram metafórico, premonitório, pois dragaria “rápida como uma mota de 1.000 cc”, afinal não justificou a premonição. Quedou-se a draga, sem dragar, enquanto de serenidade perdida, o local brama, espumando: “draga, ou não draga?!” 

 

Mas a draga, nada; nada, isto é, flutua, mas nada de dragar. Não é que à draga falte capacidade para dragar, com aquele negro e longo focinho metálico, terminado em broca, até porque o sedimento depositado no leito do Mira é macio e receptivo, mas para dragar têm de lhe ordenar. 

 

Buscam-se razões para o inusitado caso de, havendo draga, a draga não dragar. Que estes, que aqueles; que isto, que aquilo. Um empresário reclama indemnização, porque tendo elaborado uma candidatura a fundos comunitários, para vender, a turistas, areia dragada, em frasquinhos, viu findos os fundos, pois o atraso da draga em dragar inviabilizou uma requerida bênção papal que conferiria aura benta aos sedimentos enfrascados e garantiria fácil venda do produto. É assim, já se exclama, que os criativos empreendedores deste País são tratados!

 

Draga, não draga, a draga vai dragando, em terra, a paciência e a esperança, em lugar dos sedimentos depositados no leito do Mira. Lançamos um apelo à população: que a tardança da draga em dragar não seja motivo para que um negro manto de pessimismo cubra a nossa bela terra. A draga está cá, e de cá não sairá sem dragar! Fé!