EDITORIAL

Ilusionismo

Os truques dos políticos nas campanhas autárquicas


Por:Pedro Pinto Leite

Ilustração: Ema Falcão
2017-07-17
Excluindo o “folclore” (literalmente ou em sentido figurado), este executivo camarário vai ter algum trabalho a tentar “convencer” os munícipes de que fez alguma coisa estrutural

Estão a aproximar-se as eleições autárquicas. As pré-campanhas e as “campanhas disfarçadas” já andam por aí. As varinhas mágicas estão em riste.

 

Para quem está no poder tudo se torna mais fácil. A campanha é permanente. Em cada ato realizado está a intenção de impressionar o munícipe na tentativa de conquistar o seu futuro voto.

 

Agora, ao fim de quase quatro anos, está na altura dos atuais executivos, câmara e juntas de freguesia, começarem a auto glorificarem-se e trazerem à memória os seus “grandes” feitos durante aquele tempo.

 

Mas apenas aqueles feitos que, segundo os seus critérios, tenham corrido bem, porque os que que correram menos bem ou mesmo os que correram mal, tudo farão para que passem despercebidos ou até esquecidos.

 

Com orçamentos extremamente reduzidos as juntas de freguesia, se não tiveram capacidade de efetivar candidaturas a outras fontes de financiamento, pouco puderam fazer.

 

Mas a Câmara Municipal de Odemira, com um orçamento camarário de cerca de trinta milhões anuais, alguma coisa deve ter feito por aí. Espera-se.

 

No entanto, excluindo o “folclore” (literalmente ou em sentido figurado), este executivo camarário vai ter algum trabalho a tentar “convencer” os munícipes de que fez alguma coisa estrutural, alguma coisa com consequências no longo prazo, alguma coisa que tenha influência positiva no futuro da vida das pessoas. Mas alguma coisa da autoria e autonomia do executivo porque muitas das coisas que se fazem no concelho são da iniciativa privada, até mesmo algum do “folclore”. A apropriação de feitos é um dos truques dos políticos.

 

Ainda vamos assistir o executivo camarário vangloriar-se de obras das quais, quando lhe convém, diz não ter responsabilidade como é o caso das obras do programa POLIS. E eventualmente executivos de algumas juntas de freguesia também.

 

São vários os meios usados para iludir os munícipes especialmente durante as campanhas.

 

Para prometer sem compromisso, por exemplo, tiram-se da cartola palavras como “pugnar”, “interceder junto das entidades”, “desenvolver esforços” ou “apostar”. Se eventualmente se cumprir, tudo bem. Se não, não foi promessa de concretização, foi apenas promessa de tentativa de convencer alguém ou alguma entidade que concretizasse.

 

É também frequente imputarem-se os mesmo “grandes” feitos, como que por magia, simultaneamente à Câmara Municipal e à Junta de Freguesia (se for da mesma cor política, claro), daí, durante as campanhas ser muito usada a frase “em articulação com o município”. Efetivamente, as freguesias pouco podem fazer.

 

A falta de informação entre o município e as freguesias é flagrante. Os presidentes de junta, a maior parte das vezes, nem são avisados de grande parte das intervenções na sua própria freguesia. Quando dão por ela já o estaleiro está montado (literalmente ou em sentido figurado).

 

Outro truque é o silêncio de quem está no executivo. Não responder às perguntas dos jornalistas acerca da sua gestão já é normal mas é também importante não dar muito nas vistas durante os últimos meses antes das eleições para não ter de falar das asneiras que se andou a fazer até lá. Convém.

 

A vitimização e a atribuição a terceiros das falhas cometidas tem também sido uma das características deste executivo camarário de Odemira. Isso também irá certamente ser usado em campanha: “a obra x não correu bem porque o empreiteiro não cumpriu”; “o projeto y ficou assim porque o projetista impôs”; “a promessa z não foi cumprida porque o governo não deu verba”; “o dinheiro gasto a mais na intervenção h não é dinheiro da câmara” (como não fossem sempre os mesmos a pagar); “o concelho é muito grande e tudo é muito difícil”; “há por aí gente a escrever mal de nós, de nós imagine-se”... tudo uma injustiça!

 

A técnica do “bode expiatório” tem sido muito usada quando alguma coisa não corre como esperado. A Sociedade Polis, por exemplo, tem sido um alvo fácil. O Presidente da Câmara Municipal de Odemira esquece-se com facilidade de que também ele faz parte daquela sociedade e descarta-se atribuindo-lhe “culpas”.

 

A única coisa que este executivo não tem feito muito é atribuir culpas ao anterior executivo mas já se assistiu, em assembleia municipal recente, por exemplo, atribuir-se algumas falhas ao ex vice-presidente que partiu para outras lides. Isso foi notório no caso do canil municipal.

 

Aquilo que os munícipes gostariam que acontecesse neste prelúdio eleitoral é uma campanha sem ilusionismos em que cada candidato faça o seu trabalho de forma séria, que apresente ideias concretas, promessas concretas, estratégias que melhorem as condições de vida de cada um, que tragam um futuro mais estruturado, que façam coisas e não as “pugnem” ou “intercedam” para que alguém as faça por eles porque de ideias avulsas está o concelho cheio. E, já agora, quem ganhar que concretize, que cumpra, porque o contrário já se conhece.