OPINIÃO PÚBLICA

Mais uma vez, o fogo

Um tema recorrente


Por:Fernando Almeida

Fotografia: Bjorn-Tore-Okland
2017-07-17
Se até um filho pode ser retirado aos pais se estes não o tratarem devidamente, por que motivo não se expropria a terra que está abandonada ou mal tratada?

É infelizmente um tema recorrente, ano após ano, num infindável rosário de lamentos face às consequências dos fogos florestais. Este ano, para lá dos habituais prejuízos materiais de muitas centenas de milhões de euros, houve perdas humanas como não havia memória. Mais uma vez, é tema de abordagem obrigatória pelo que de dramático constitui para todos nós. E mais uma vez, a revolta soma-se à indignação, e aponta-se o dedo acusador a quem tem por missão prevenir e evitar os incêndios florestais e na prática, nada resolve. Convirá relembrar que os incêndios florestais, que para nós parecem ser uma fatalidade “natural”, são algo de absolutamente extraordinário em outros locais da Europa. Note-se por exemplo que em 2016 a área ardida em Portugal foi superior à área ardida nos restantes países membros da União Europeia! 

 

Como sempre procuram-se responsáveis, e vão-se apontado culpados: foi o calor; foram os bombeiros; foram os acessos; foi a orografia; foi a ministra; foi a proteção civil… à boa maneira portuguesa a culpa morrerá solteira ou arranjaremos um qualquer bode expiatório para parecer que algo se fez, enquanto tudo efetivamente fica na mesma. É assim desde que me lembro, e já não sou propriamente jovem…

 

Vou também eu, repetir aquilo que já disse e venho repetindo nos últimos trinta anos, e que como eu, muitos outros têm dito. Digo-o sabendo que o efeito que tem sobre os decisores políticos que geralmente andam a reboque dos interesses das grandes empresas é quase nulo, mas faço-o por um dever de consciência e para manter o contraponto aos jornalistas medíocres que se deleitam na procura obstinada e cega de “culpados”.

 

Arriscando-me assim a cair na vulgaridade das afirmações repetidas nas últimas dezenas de anos, tenho que chamar a atenção para o facto de a Terra, o planeta em que vivemos, não dever ser olhado como se de um somatório de negócios se tratasse. Para quem não tenha pensado nisso, a Terra não é um produto que possamos comprar ou vender como um qualquer bem menor. A Terra, e cada fração da sua superfície, é um espaço onde nós vivemos, mas onde as regras básicas da natureza têm que ser respeitadas. A nossa noção de “propriedade” no caso da superfície do planeta, não tem (nem pode ter) um valor absoluto; eu sou “dono” de um pedaço do planeta enquanto usufrutuário dessa superfície, mas com o dever de o respeitar e de lhe manter as características biofísicas saudáveis e naturais. Explicando melhor o conceito, vejamos alguns exemplos: eu, lá porque digo que sou “dono” de um pedaço de solo, não posso construir lá o que me apeteça sem autorização, não posso poluir a água que por lá passe, não posso matar os animais que lá vivem, e também não posso plantar as árvores que quero, só porque digo que aquela terra é minha. Há normas precisamente porque vivemos em sociedade e os interesses de diversos grupos são por vezes conflituantes.

 

A política é em boa medida a gestão desses conflitos. Quando se deixaram as fábricas do Tejo poluir o rio sem critério favoreceram-se os industriais, acabou-se com o modo de vida dos salineiros, pescadores, mariscadores, etc. … Quando se deixa plantar eucaliptos e pinheiros bravos sem critério, em mancha contínua de quilómetros, e nem sequer se exige uma gestão cuidada dos povoamentos, está-se também a beneficiar alguns, mas a prejudicar muitos outros.

 

Há empresas com lucros de centenas de milhões de euros, mas há dezenas de pessoas que morrem queimadas, há centenas que perdem tudo, há os gastos de dezenas de milhões de euros com combate a incêndios, há perdas de riqueza incalculáveis… e há, milhões de toneladas de solo que se vão perder, milhões de metros cúbicos de água que já não se vão infiltrar nos próximos invernos, há a redução da produtividade biológica do país por muitos e muitos anos, há perdas de fauna e flora… E tudo isto para favorecer alguns?

 

Se até um filho pode ser retirado aos pais se estes não o tratarem devidamente, por que motivo não se expropria a terra que está abandonada ou mal tratada? Como se pode permitir que haja terras abandonadas ao mato e a bastios impenetráveis de pinheiro, eucalipto ou acácia? Não se compreende que há responsabilidade desses proprietários no alastrar incontrolável de incêndios? Que eles são em boa medida quem impede os demais proprietários de investir numa floresta bem ordenada e de qualidade? Não se percebe que a floresta que temos também é determinante para a qualidade do solo que temos, para a natureza que temos, para a água que temos?

 

Quebrem-se os tabus associados à propriedade fundiária, dando a terra a quem a cuide ou assumindo o próprio estado essa responsabilidade. E regule-se de vez a plantação de espécies que ardem descontroladamente. Haja, por uma vez, a coragem de governar bem, fazendo o que tem que ser feito, mesmo que isso tenha custos eleitorais.