EMPRESAS

Herdade das Moitas

No lugar de Troviscais

2017-07-17
Criação e comercialização de ostra portuguesa

Em 2013 iniciou-se um novo projeto na Sociedade Agrícola Herdade das Moitas, freguesia de S. Luís, com a criação e a comercialização de ostra portuguesa, que até essa data se dedicava à criação de gado bovino. É uma empresa familiar. António Falcão fez de guia ao lugar onde desenvolve a sua atividade. Os tanques de produção ficam junto ao moinho de maré das Moitas, no lugar de Troviscais. O ponto de encontro foi no café da Lídia. António insistiu que ali fosse por considerar não ser qualquer carro que faça o caminho até aos tanques. Uma decisão que se mostrou sensata dado o estado do referido caminho.

 

 

INTRODUÇÃO

 

O cultivo da Ostra-portuguesa em Portugal teve o seu auge nas décadas de 60 e 70 do século passado, sobretudo nos rios Tejo e Sado, chegando a atingir, em 1964, as 9 mil toneladas de produção em todo o país, quase tudo exportado para França. Os franceses chamavam-lhes “Les Portugaises”.

 

Depois disso, devido à poluição desses rios e à conhecida “doença das brânquias”, a Ostra-portuguesa quase se extinguiu naqueles rios.

 

Hoje a produção anual nacional ronda as mil toneladas. A maioria continua a ir para França mas o consumo em Portugal está a aumentar.

 

Os franceses são os maiores consumidores de ostra do mundo. Cerca de 90% do consumo de ostra na Europa é feito em França.

 

“Em Portugal a ostra começa a voltar a estar na moda”, diz António, “em Lisboa, há uns anos atrás, tínhamos dois ou três restaurantes que serviam ostras, agora, há cerca de uns seis anos, temos uns trinta ou quarenta”.

 

 

UM POUCO DE HISTÓRIA LOCAL

 

Nos meados do século passado houve uma tentativa fracassada de criação de ostras junto à praia das furnas, mesmo em frente ao cais de Vila Nova de Milfontes, por um produtor francês. “Um fracasso total porque a ostra é daqui (do rio) e não da foz”, sublinha António.

 

Entretanto na década de 1980 surgiram várias tentativas de obtenção de licenciamento para pisciculturas, mais para montante. Especulava-se que seria uma forma de obter direitos para outros negócios. Tiveram a oposição de algumas pessoas nomeadamente dos biólogos que estudavam o rio. Desconhecem-se os interesses que estavam por detrás e os motivos das licenças não terem sido passadas.

 

António veio para o concelho de Odemira no ano de 2009 para obter as licenças necessárias para a sua produção, acompanhado da Engª Célia “uma engenheira de Peniche a viver em Setúbal” com quem tira todas as dúvidas que tem. “Uma ‘lutadora’ da Ostra-portuguesa e que tem prestado um grande serviço a este país nesta área, mas infelizmente pouco entendido pelas entidades portuguesas”, diz.

 

Na altura não entendiam porque é que nos serviços das entidades oficiais de Lisboa (IPIMAR e DGRM) diziam que no rio Mira não existiam ostras.

 

“Em Vila Nova de Milfontes, alguém me contou que em tempos tinham dado autorização a uns franceses para montarem umas mesas nas furnas mas que não percebiam nada do assunto e que andaram rio acima, com um escafandro, a apanhar ostras e a trazê-las dentro de sacos para a praia”, conta António, “mas como aquele não era o lugar delas, morreram todas, elas pertencem ao rio”.

 

Até cerca de sete quilómetros acima do rio é muito raro encontrar uma ostra. “Existem mas não como aqui”, explica.

 

Depois de vários anos ‘embrulhado’ no processo de licenciamento, António compra os primeiros coletores (apetrecho para a criação de ostras). “Trouxe cá os meus clientes franceses e eles nem queriam acreditar e diziam-me que o que viam não existe em mais lado nenhum do mundo”. “A diferença da quantidade de ostras nos coletores é enorme, enquanto em França há umas dez ostras na parte de baixo de cada coletor, aqui nós temos mais de cem em cada disco”. “Tenho fotografias disso”, conta.

 

 

A OSTRA

 

A ostra é um bivalve hermafrodita que muda de sexo. “Não é o mesmo hermafroditismo do caracol em que um indivíduo tem os dois sexos”, explica António, “a ostra ora é macho ora é fêmea”.

 

Ninguém sabe ao certo o porquê do momento da fecundação. Segundo António tem a ver com a temperatura “mas isso ainda está no segredo dos Deuses”. O facto é que “decidem entre si que ‘hoje é um bom dia para procriar’, soltam os gâmetas e é então que se dá a fecundação, na água, andam por ali ao sabor da maré durante uns dez ou quinze dias e depois, quando encontram uma superfície rígida, seja uma pedra, um fundo de um barco, um pau ou uma outra ostra, colam-se”.

 

Ao fim de um mês e meio a ostra tem cerca de um centímetro, centímetro e meio. É um crescimento relativamente rápido.

 

A maioria da ostra comercializada é de origem japonesa, a ‘Cassostrea gigas’.

 

 

A OSTRA-PORTUGUESA

 

A ostra criada no rio Mira é a Ostra-portuguesa, a Crassostrea angulata, demora cerca de três anos a crescer e a ter um tamanho comercial. “Estamos aqui há quatro anos mas só no ano passado é que tivemos algumas ostras e este ano já tivemos um volume considerável, mas estamos a começar”, explica António.

 

Cada Ostra-portuguesa (as do rio Mira) é vendida a cerca de três euros no mercado Francês.

 

A qualidade da ostra é medida pela proporção do seu peso relativa ao peso da concha, isto é, se o peso da ostra for superior a 15% do peso total é uma ostra de qualidade superior “como é caso das nossas”, esclarece António, “esta ostra tem carne, não é uma pelezinha salgada, é uma ostra de rio não é de mar, não dá sede, não ficamos com a boca cheia de sal”.

 

A salinidade do mar, no atlântico, é cerca de 45g/kg ppm (partes por milhão).

 

A ostra do rio Mira não se reproduz na água do mar. António esclarece que “tem a ver com a salinidade e com a temperatura da água e aqui a salinidade é de cerca de 28g/kg, se chover dois dias seguidos a água fica doce mas existe sempre salinidade no fundo porque a água doce sobe, e esta ostra sobrevive aqui porque simplesmente é daqui, porque aguenta essa falta de sal”.

 

 

A PROCRIAÇÃO

 

A Sociedade Agrícola Herdade das Moitas não tem maternidade própria. As ostras são recolhidas no rio, na altura da fecundação, com a ajuda dos ‘coletores’ que são colocados numas ‘mesas’ nas margens do rio, durante a maré baixa. Com a maré cheia as mesas ficam completamente submersas.

 

“Esta ostra é portuguesa, é nossa, é do rio Mira, não existe em mais lado nenhum”, explica António, “A matéria-prima vem do rio, é a natureza que a fornece e fornece a sua alimentação também”.

 

Este ano António decidiu colocar os coletores um pouco mais cedo. “Normalmente só os colocamos no rio a meio de junho mas, como tem feito bastante calor, as ostras começaram a estar ‘ovadas’ e prestes a reproduzirem-se já em maio e no início de junho começaram a colar-se aos coletores”.

 

No rio Mira tudo se processa de forma natural mas em França provocam a ovulação com diferenças de temperatura, em maternidades.

 

No final do mês de julho António prevê ter todo o equipamento lavado e limpo para colocar tudo novamente no rio porque “elas estão sempre em reprodução mas há alturas em que estão mais férteis e vamos tentar aproveitar isso”.

 

 

O PROCESSO DE TRABALHO

 

A visita aos tanques é diária. António explica que da mesma forma que quando as ostras fecundam parece que combinam umas com as outras, quando querem morrer parece que fazem o mesmo. É preciso uma vigilância constante.

 

As únicas máquinas existentes na Sociedade Agrícola Herdade das Moitas é um gerador e um compressor de água para lavar os coletores e os sacos das ostras. Tudo o resto é manual.

 

A colocação dos coletores e a sua retirada, a separação das ostras dos coletores, a colocação das ostras nos sacos, a colocação dos sacos nos tanques e a sua retirada, a triagem das ostras, todo o processo é feito à mão.

 

António faz questão que assim seja e explica porquê: “Em França existe uma mortalidade muito grande, cerca de 60%, muitos técnicos dizem que essa mortalidade, para além de ficar a dever-se a um herpes vírus, tem a ver também com a mecanização e a intensificação das produções que chegam a ser aos três sacos sobrepostos, uns em cima dos outros e uns a seguir aos outros, sobrelotados e por isso as ostras não têm nada que comer, não têm oxigénio e se uma fica doente, ficam todas e morrem”. “Aqui os sacos são colocados apenas um por linha e com uma distância considerável uns dos outros”.

 

António não coloca de parte a compra de uma máquina no futuro mas para já prefere assim.

 

Todo o material vem de França, exceto as estacas de eucalipto colocadas nos tanques para suportar os sacos.

 

Cada saco de tamanho regular leva cerca de oito quilos de ostras, “mas há quem ponha quinze”. 

 

Os sacos são presos por um cabo. Num dos lados existe um flutuador. Quando a maré vaza os sacos ‘descem’, quando a maré enche os sacos ‘sobem’, e as ostras vão rolando e “assim ficam mais redondas porque se elas ficam muito paradas começam a encostar-se uma às outras e tomam a forma da que está ao lado como as que estão nas pedras do rio”, esclarece António.

 

Quando estão soltas as ostras vão partindo a ‘unha’ e ficam mais altas, com mais carne. São mais comerciais. (António vai mostrando os exemplos de ostras à medida da conversa).

 

Depois de retiradas dos coletores as ostras vão para um saco de malha fina. Depois de dois a três meses, são passadas para uns sacos de malha mais larga.

 

“A nossa vida é triagem, acabamos de tirar de um lado, vamos separar para outro (porque as ostras são como as pessoas, não são todas iguais, há umas que crescem mais que as outras)”.

 

Do outro lado do rio existe uma nova sociedade cujos proprietários são duas empresas estrangeiras e que também se vão dedicar à criação e comercialização da ostra portuguesa e que contará com a estreita colaboração e parceria da Sociedade Agrícola Herdade das Moitas de forma a promover interesses comuns.

 

Na nova sociedade, do outro lado do rio, o processo irá ter alguma mecanização: uma máquina para tirar as ostras dos coletores e uma outra para a triagem.

 

 

A ESTRUTURA DA EMPRESA

 

A estrutura da Sociedade Agrícola Herdade das Moitas na atividade das ostras é pequena. Para além de António trabalham mais três pessoas em permanência.

 

Apesar de haver picos de produção esta atividade não é considerada sazonal.

 

Os coletores são preparados para colocar no rio no fim de abril, início de maio. A meados de junho começam a ser retirados para recolher as ostras para os sacos de produção. “Nessa altura contratamos mais duas pessoas”.

 

António tem boa relação e facilidade de proximidade com as pessoas no geral. Os dezassete anos de lojas de roupa com um total de trinta empregados, deram-lhe também alguma experiência. “Na altura eram equipas muito jovens, aqui é diferente, as pessoas são mais responsáveis, estão atentas seja com o que for”.

 

Neste momento existem quatro tanques. O primeiro foi aberto no verão de 2013, já com as licenças todas. Só no ano seguinte foram abertos os restantes três e as duas reservas de água salgada. Em 2015 a obra estava completa.

 

Cada tanque tem cerca de um hectare. Há sempre um tanque em repouso, para limpeza dos sedimentos. Desta forma António prevê uma produção de 75 toneladas/ano. “E chega! porque quando os tanque estiverem no limite, apesar de termos ali uma caldeira com mais 12 hectares, eu não vou querer mais ostras e mais trabalho”, diz António e explica “ainda por cima com a parceria que temos com os nossos vizinhos da frente vamos produzir mais 100 toneladas o que já é uma perturbação do estilo de vida que eu pretendia quando vim para cá”.

 

“Eu já trabalhei 24 horas por dia durante 17 anos e gostaria de ter um pouco de mais sossego, sobretudo com a papelada”.“Aqui também se trabalha mas é um tipo de trabalho mais saudável e o futuro tem de ser com calma, pois não andamos por cá muito tempo”.

 

 

O CLIENTE

 

António conta que os anos que esteve em Santiago do Cacém foram ‘à luta’ com os papéis, ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), DGRM (Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos), DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária), IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), ARH (Administração da Região Hidrográfica do Alentejo, agora APA - Agência Portuguesa do Ambiente), IFAP (Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas) e CMO (Câmara Municipal de Odemira). “No dia da aprovação deste projeto tivemos aqui doze pessoas a representar estas sete entidades”.

 

Foram precisos quase quatro anos para António conseguir implantar a sua produção. “O que eu tenho aqui é precioso”, afirma.

 

Após quase sessenta e-mails enviados para França, sem resposta, António consegue, com um telefonema apenas, angariar o seu primeiro cliente. “Soube da existência deles após uma reunião em Évora”, lembra, “eles estavam a embarcar no aeroporto de Lisboa mas regressavam dentro de quatro dias e combinámos uma visita ao local”.

 

Nessa altura ainda não existiam tanques, não existiam ostras, nada. As experiências realizadas por António, o irmão e a Engª. Célia eram feitas numa das entradas do rio junto à propriedade. “Tivemos então a visita do responsável pela área agroalimentar, Laurent”, relata, “eu entro dentro de água, tiro umas ostras, ele prova-as e diz-me que são muito boas, depois liga ao patrão, o Thierry, que lhe diz que vem na próxima semana e para eu não vender ostra nenhuma a mais ninguém porque ele compraria todas as que eu produzisse e a bom preço”.

 

Thierry cumpriu. Passado uns dias estava no mesmo local que Laurent. Ainda tentou comprar o terreno onde se encontra a produção mas para António não havia dúvida: nem o terreno nem a sociedade estavam à venda.

 

“Eles são um dos cinco maiores produtores e comercializadores de ostras em França, uma empresa com cento e catorze anos”, informa.

 

Passados uns quinze dias era o pai de Thierry, um francês que chegou a comer Ostra-portuguesa do Tejo, quem o visitava. Os primeiros coletores já estavam no rio e António recebe algumas dicas de como deve proceder para ter melhores resultados. “Eles ficaram ‘malucos’ quando tirei os coletores do rio e os coloquei em cima do barco que ficou tapado só com as que caíram e depois no cais a mesma coisa”, recorda António, “entretanto enviaram-me 500 coletores, sacos e um barco e uma advogada para discutirmos os termos do negócio”.

 

 

A NATUREZA E OS OUTROS

 

António tem uma ligação forte com a natureza em geral mas em especial com as aves. A variedade de pássaros da zona impressiona-o. “De há uns três anos para cá ando ‘maluco’ com as aves, há um tartaranhão-ruivo-dos-pauis, uma ave de rapina, a criar do lado de lá e um casal de águias pesqueiras que ultimamente não tenho visto”, diz.

 

Junto aos tanques há uma pequena horta e um espaço para duas mesas para receber as visitas. “A maioria é estrangeira, uns vêm de barco e outros de carro, tudo organizado por um operador turístico da zona, há também os caminhantes da Rota Vicentina mas esses param pouco, querem é caminhar”.

 

António abre umas ostras, prepara o vinho e abre uma melancia “e eles vão daqui com a alma cheia”.

 

Esta é uma atividade que não polui, antes pelo contrário. As ostras são bivalves e como tal filtram a água.

 

António teve de fazer um plano de monitorização trimestral (“que sai caro”) da flora na envolvente dos tanques. “O que se passa é que depois das obras isto ficou limpo de ervas nos muros que foram feitos com terra que tirámos do fundo, houve aqui alguma alteração mas está tudo a recuperar muito bem”, informa.

 

 

ANTÓNIO FALCÃO

 

Casado e pai de três filhos, António fez 27 cadeiras de gestão de empresas mas não completou o curso. O seu primeiro trabalho foi numa empresa de topografia, “andava no campo, trabalhava a controlar as equipas e a gerir as necessidades dos clientes”, conta.Entretanto aceitou o desafiou de entrar numa sociedade de comercialização de roupa da Levis Strauss, na zona de Lisboa. “Isso já depois de ter começado aqui o projeto das vacas com o meu irmão”, explica, “umas oitenta vacas de carne”.Neste momento têm cerca de duzentas cabeças. O projeto teve início nos anos 90 quando António e o irmão ainda estudavam.No negócio da roupa, António abriu três lojas e mais uma outra multimarcas. Entretanto António comprou as quotas dos sócios.Foram dezassete anos daquela atividade. “Agradeço ao Sócrates por ter provocado a crise que me pôs a andar do negócio da roupa”, diz com ironia.Ainda com as lojas abertas António esteve em Moçambique a montar uma empresa de produtos de higiene que “ainda hoje funciona mas com outros donos”, diz, “a vida lá é muito dura e a minha família tinha ficado em Lisboa”.António conta que conseguiu conciliar tudo e em 2009 fez as malas e foi para Santiago do Cacém onde tinha uma casa de família. Na altura foi difícil convencer os seus três filhos e a sua mulher a sair de Lisboa. Sabia que precisava de fazer alguma coisa, mudar de vida. Não sabe porque pensou no projeto das ostras. O seu pai, em tempos, já tinha tentado um projeto para criação de peixe mas que foi rejeitado pela existência de viveiros “do outro lado do rio”, talvez tenha sido por isso.O avô de António foi nascido e criado em Odemira, vivia na Herdade da Ataboeira perto do Castelão. “O meu bisavô era de cá, o meu avô era engenheiro agrónomo e tinha aqui esta propriedade”, conta António, “a família da minha avó é de Santiago do Cacém”.O avô de António tinha uma “grande agrária” com vacas de leite, e de carne, uma grande seara, “tudo feito com juntas de bois”, e nas várzeas junto ao rio semeava arroz. Neste momento o pai de António tem 78 anos. Estudou arquitetura e fez toda a sua vida em Lisboa. Todos os seus cinco filhos nasceram lá.

 

 

por Pedro Pinto Leite