A MÁQUINA DO TEMPO

A Batalha de Ourique

878 anos passados


Por:Artur Efigénio

2017-07-17
A melhor forma de justificar a independência do reino de Portugal era estabelecer uma ligação direta ao plano divino

No dia 25 deste mês de julho, passam 878 anos sobre uma das batalhas que mais controvérsia trouxe à História de Portugal, quer no plano religioso, quer no plano político/militar. E ela diz-nos muito, a nós, habitantes desta região do Alentejo, pois vários factos apontam que foi aqui em Ourique que ela se travou, mas há quem a reivindique para outras paragens.

 

A Batalha de Ourique reveste-se de particular importância, pois o dia 25 de julho de 1139 marca a data em que o jovem príncipe Afonso Henriques autoproclama-se e é aclamado Rei de Portugal, tendo o título REX PORTUGALLENSIS passado, após isso, a constar da sua chancelaria. Por outro lado, marca também a primeira grande ofensiva de Afonso sobre os mouros em territórios sarracenos do então denominado Gharb (Algarve).

 

Esta operação militar da altura, um Fossado, mais não era que o aproveitamento das boas condições climatéricas que a primavera e o verão proporcionavam para tropas ligeiras e flexíveis (principalmente Cavalaria) marcharem profundamente sobre território inimigo, com a finalidade de porem à prova os meios, composição e pontos fracos do seu oponente. Hoje chamar-se-ia um Reconhecimento em força. Nesse dia, de acordo com alguns, escassos e talvez exagerados registos, este Fossado opôs o primeiro Rei a uma coligação de cinco Reis mouros comandados por Esmar «Rege sarracenorum nomine Esmar», governador de Córdova, Granada e de todo o al-Andaluz. Este facto deu origem à lenda, segundo a qual, as Quinas das armas de Portugal aludem aos cinco reis derrotados na batalha, como também o disse Camões, «cinco escudos azuis esclarecidos, em sinal destes cinco reis vencidos».

 

O confronto deu-se no dia de São Tiago, o mata-mouros, patrono da reconquista cristã, facto que originará a lenda do Milagre de Ourique, segundo a qual, Jesus Cristo apareceu a D. Afonso Henriques na véspera da batalha para lhe dar ânimo e prometer a vitória, consagrando-o como líder merecedor e colocando Portugal, desde o seu início, como nação amparado pela vontade de Deus.

 

Compreender-se-á e contrapor-se-á, como fez Alexandre Herculano, que este ponto consubstancia a enorme religiosidade que se vivia à época, que se prolongaria por toda a Idade Média e que à luz dessa mesma conceção, a melhor forma de justificar a independência do reino de Portugal era estabelecer uma ligação direta ao plano divino e, concretamente, a um milagre.

 

Por outro lado, já será mais difícil compreender a controvérsia em torno do local onde se deu a batalha. Os textos coevos referem um sítio chamado Ourique (Aulic, Oric ou Ouric). Poderia ter acontecido noutro local, junto a Leiria ou próximo do Cartaxo como alguns alvitram, mas com um só único argumento de sustentação: que Ourique no Baixo-Alentejo era demasiado longe e profundo no território inimigo. Ora esse argumento, algo subjetivo, carece de rigor e conhecimento da capacidade de projeção e progressão de uma força militar, que mesmo à época, para efeito de uma operação com estas características, por certo dispunha de uma grande manobrabilidade para obter os efeitos desejados, relembrando aqui, que eram: estabelecer o contacto, reconhecer, desestabilizar a região e, mais importante ainda, afirmar uma liderança.

 

Num dia sem nebulosidade, em qualquer ponto alto na linha do Tejo, consegue-se, à vista desarmada, avistar as serras de Monchique e do Caldeirão, no Algarve, confirmando que esta distância não é assim tão grande. Se for traçada uma linha entre Santarém e Ourique - linha geral de progressão das forças de Afonso - estas regiões distam cerca de 200 Km, sempre a direito, por terreno quase sempre plano e sem obstáculos de maior, permitindo que um homem apeado, mesmo equipado e carregado a percorra em cerca de quatro dias. Ora, talvez até tenham demorado um pouco mais, mas de uma forma simples, poderá ser rebatível esse argumento, segundo o qual era impossível devido à grande distância.

 

O Príncipe Afonso Henriques necessitava de uma vitória inequívoca, que incitasse os seus à reconquista cristã e legitimasse a sua liderança como Rei de Portugal. Isso só poderia acontecer com um ato corajoso, destemido e de grande alcance material e psicológico. Que melhor motivo poderia ele escolher senão confrontar o líder infiel de todo o al-Andaluz que por cá se encontrava?

 

Por motivos táticos ou contingenciais o local aprazado pelo destino terá em Ourique, no local de São Pedro das Cabeças. Um bom local a visitar para tentar entender as condições físicas da batalha.