MIRADOIRO

O rio Mira em questão

O “valor” do rio Mira não se esgota nos planos natural, simbólico e turístico


Por:António Quaresma

2017-07-17
Parece-me que esta questão dos acessos ao rio deverá ser tida em devida conta por quem direito, seja a autoridade administrativa, seja a autoridade marítima

O “valor” do rio Mira não se esgota nos planos natural, simbólico e turístico – e já é muito – mas contém ainda uma forte componente relacionada com o dia-a-dia de muitos habitantes. 

 

Ao longo de séculos, as suas margens, ladeadas por propriedades privadas, eram acedidas por caminhos tradicionais, que permitiam à população o contacto com o rio, fosse para actividades ligadas com a extracção de recursos (pesca, marisqueio, etc.), fosse para as comunicações com os “portos” do rio, fosse para chegar aos moinhos de maré.

 

Contudo, quando olhamos para o rio Mira, nos tempos de hoje, por exemplo entre Milfontes e Odemira, o que vemos é a extinção gradual dos acessos públicos ao rio e a multiplicação dos privados; mais, alguns destes fizeram-se à custa daqueles, em processos de legalidade mais do que duvidosa, só levados a cabo, entre outras causas, por “cansaço” dos antigos utilizadores em reivindicar direitos. Caminhos que se cortam, passadiços que se vedam, tudo conduz ao prejuízo público, em benefício de alguns. 

 

Na própria vila de Milfontes, onde normalmente este processo seria mais difícil, observa-se a mesma situação. A construção urbana ao longo da margem do rio tem criado uma barreira praticamente contínua, que impede o acesso visual e físico ao rio Mira, ao mesmo tempo que antigas passagens na margem são apropriadas pelos donos das propriedades confinantes.

 

Um dos antigos acessos da vila ao rio fazia-se pelo vale seu tributário, designado por Barranco do Montinho. Por este se escoavam as águas que corriam dos brejos a norte, fazendo parte de uma tradicional rede de drenagem das águas pluviais, de curso mais ou menos temporário. O sistema de escoamento das águas pluviais por aí originou, mais tarde, a passagem de um dos seus colectores.  Mais a montante, este colector nunca foi ocupado ou vedado por qualquer habitação, e continua aberto e circulável (entre a Rua Brás Pacheco e a Rua Artur Horta).

 

Queixam-se alguns moradores, sobretudo os que se sentem prejudicados no seu normal acesso ao pequeno ancoradouro onde têm os botes, de que actualmente a passagem está fechada, por decisão da proprietária de uma casa próxima, que alega pertencer-lhe o terreno e pretender impedir a intrusão de estranhos na sua casa. Sendo que nenhum destes argumentos pode validar a apropriação de um caminho público, este caso configura mais uma tentativa de restringir antigos direitos da população de aceder ao rio.

 

Parece-me que esta questão dos acessos ao rio deverá ser tida em devida conta por quem direito, seja a autoridade administrativa, seja a autoridade marítima. No fundo, trata-se de bem ordenar o território, princípio que aqui mais se justifica porque estamos em presença de um elemento físico tão importante como é o rio Mira.