DE QUEM É O OLHAR

Turismo e/ou habitação

Em Vila Nova de Milfontes começa a sentir-se a pressão


Por:Monika Dresing

2017-07-17
Sem a população tradicional, sem o comércio tradicional destinado a responder à procura dos residentes, os sítios perdem o seu carácter único

Uma das características que muito bem definem a nossa era é o turismo, nomeadamente o turismo de massas. Nos séculos passados, viajar unicamente pelo prazer de viajar era um privilégio de apenas alguns, pessoas abastadas e independentes. Hoje em dia, uma grande percentagem da população global goza de tempos livres e de meios suficientes para de vez em quando se deslocar à procura de actividades de lazer, aventuras, natureza selvagem, tranquilidade, conhecimentos, ou seja, um ambiente diferente daquilo que se vive todos os dias. Muitas famílias da classe média costumam fazer várias viagens por ano, passando as férias de verão na praia ou na montanha, fazendo viagens de apenas alguns dias num fim-de-semana prolongado a uma das cidades que estão na moda.

 

Assim nasceu uma procura enorme de alojamento à qual os hotéis, pensões e residenciais tradicionais já não conseguem responder. Simultaneamente nasceu uma nova oportunidade de obter algum rendimento para as pessoas residentes nos destinos turísticos. Os proprietários de casas começaram a alugar as suas casas a turistas, à primeira vista uma opção mais lucrativa do que alugá-las a inquilinos permanentes. Surgiu um mercado pouco regulado, com alguns alojamentos a funcionar de forma legal e outros clandestinos, quer dizer, nestes últimos casos os senhorios, embora exercendo uma actividade comercial, não a declaram às finanças, tornando-se assim em concorrentes desleais dos operadores profissionais.

 

Nas grandes cidades, os agentes dos fundos de investimento vislumbraram logo oportunidades de bons lucros e começaram a comprar edifícios ou até bairros inteiros para transformar as habitações em alojamentos turísticos. Os residentes de certas cidades, tais como Barcelona, Veneza, Berlim, mas também Lisboa e Porto e muitos outros, vêem os centros das suas cidades transformados em zonas de luxo e de festas, em “turistalândia”, onde para eles é quase impossível encontrar uma habitação a um preço “normal”. Em Lisboa, por exemplo, os preços das casas, tanto para compra como para arrendamento, subiram mais de 40% nos últimos três anos (ver p.ex. nuroa.pt). O número de habitantes permanentes nestes centros continua a descer, nalguns sítios de forma dramática, sendo Veneza o pior exemplo. Em 1950 viviam lá 175.000 habitantes, actualmente são 55.000! A pressão financeira que paira sobre os proprietários e os autarcas é enorme. Só ultimamente alguns autarcas em certas cidades, por exemplo em Barcelona e Berlim, começaram a tentar inverter esta situação, começando por limitar o número de autorizações para o alojamento local. Em algumas cidades já são aplicadas multas nos casos de alojamento turístico clandestino, multas estas que podem atingir os 50.000 euros.

 

Outro aspecto a tomar em conta é a alteração do carácter das cidades. Sem a população tradicional, sem o comércio tradicional destinado a responder à procura dos residentes, os sítios perdem o seu carácter único, tornando-se em destinos turísticos iguais a tantos outros onde apenas o plano de fundo e o clima se distinguem. No entanto, o carácter típico que se perde estava quase sempre na origem da procura turística, um círculo vicioso.

 

Olhando para Milfontes, vêem-se também aqui alguns destes aspectos. Pessoas que querem alugar uma habitação de forma permanente têm dificuldades em encontrar uma casa para alugar o ano inteiro a um preço razoável. Alguns senhorios preferem dispor das casas durante o verão para as alugar a turistas. Além disso, são cada vez mais as casas de habitação transformadas em alojamentos locais. Acho importante criar-se um regulamento em relação ao número de autorizações para o alojamento local. Senão, existe o perigo de se perder o equilíbrio entre uma vila dos moradores e uma vila como destino turístico.