PALAVRA DE PALHAÇO

A chave da simplicidade

Enxergar o belo das pequenas coisas


Por:Enano Torres

2017-07-17
Sinto que quando procuro a simplicidade das coisas, do lugar, das pessoas é quando encontro momentos de libertação pessoal e coletiva

Escrevo este artigo em casa de uma família rural romena que acabei de conhecer num pequeno lugar chamado Pestera, situado no Parque Nacional Piatra Craiului, em Brasov.

 

A noite aproximava-se e precisávamos de um lugar para dormir para 2 pessoas no meio do nada.

 

A nossa comunicação com esta família tem sido essencialmente não verbal, pois eles só falam romeno e mesmo que nós consigamos falar Inglês, Alemão, Espanhol ou Português pouco serve. Foi através da linguagem universal, da necessidade de encontrar dormida e da facilidade que tenho de fazer mímica e de fazer alguns “gags” com utensílios rurais que havia à volta, que consegui mostrar-lhes que sou um palhaço viajante. Acredito que é mais importante a linguagem corporal e expressiva que as próprias palavras.

 

Após provocar o riso e assombro das 10 pessoas desta família, eles aceitaram de bom grado oferecer-nos um quarto para dormir. Com isto não quero dizer que para conseguir alojamento é preciso ser palhaço mas de facto ajuda muito pois, sem dúvida nenhuma, a distância mais curta entre as pessoas é o riso.

 

Poderíamos ter ficado numa pensão ali perto mas a pureza de conviver com uma família típica da zona atraiu-nos mais. Era uma zona rodeada de grandes árvores, montanhas, muito verde e animais felizes, com ar de vida saudável.

 

Normalmente quando viajo pelo mundo (este país é o 44º que visito) é para realizar espetáculos para centenas de pessoas, pelo que de seguida o que me apetece é um bom refúgio, isolamento, silêncio, tranquilidade e comida caseira, evitando o barulho das urbes.

 

Sou do tipo de pessoa que é feliz olhando uma árvore, um cavalo ou uma simples formiga que cruza o meu caminho.

 

A família disponibilizou um humilde quarto e atenciosamente ofereceram-nos um cesto com morangos naturais da sua horta.

 

Sinto que quando procuro a simplicidade das coisas, do lugar, das pessoas é quando encontro momentos de libertação pessoal e coletiva e é com esta libertação que a vida se enfeita sem precisar de viver com os excessos. Enxergar o belo das pequenas coisas, respirar ar puro, sentir que existem momentos onde o tempo parou.

 

Felizmente, quando viajo, é para também oferecer simplicidade aos outros. Sinto o palhaço como um canal simples de comunicação, sem pensar muito, com foco em sentir e agir no momento.

 

O facto de estar na Roménia tem origem num convite para participar num dos maiores festivais do mundo, em Sibiu, onde existem em dez dias cerca de 500 espetáculos, todos cheios de gente.

 

Eu apresentei 6 vezes o meu espetáculo “Amore”, onde recrio a personagem de Cupido. Felizmente tenho tido muito boa aceitação do público e crítica da imprensa, com direito a publicação no jornal nacional romeno “Tribuna”, que serve de pretexto para contactar a minha mãezinha lá em Espanha, que sempre fica orgulhosa com estes factos de seu filhote.

 

Quem não se lembra da sua mãe quando tem uma notícia boa para contar?

 

E falando de mães, nesta família romena onde estou, a Mama Daniela é quem no dia a seguir nos mostra, com muito carinho, os seus animais, a horta e a forma tão peculiar de secar a palha para a chegada do inverno. Fala-nos na sua língua nativa como se conseguíssemos entender. De facto mesmo sem entender nada é um prazer ouvi-la com a sua sonoridade doce. Sabe bem conhecer formas de vida diferentes e de um meio diferente de onde se reside. Guardo todos os detalhes para depois contar a meus caros vizinhos alentejanos.

 

Convidam-nos a ficar mais uma noite, no entanto decidimos continuar a viagem pelo belíssimo Parque Natural à procura das surpresas inesperadas que nos dá a vida. Na despedida desta família existe uma energia amorosa com beijos e abraços a mostrar-nos que temos uma casa, de braços abertos, para quando for preciso. Curioso é que em apenas um dia sintamos a transformação duma família desconhecida ontem para uma família muito chegada hoje, em apenas horas.

 

Cumprimentos aqui da Roménia para os leitores do mercúrio, desse país que só se sabe como é bom quando se está fora. O resto são estereótipos quase sempre errados, assim como a maioria dos países que achamos conhecer sem os ter visitado.