EMPRESAS

CAMPOSOL - Onde nascem os relvados dos campeões

FC Barcelona vai utilizar relva produzida em Odemira

2017-07-17
Camp Nou com relva alentejana na próxima época

Peter Knight é o administrador executivo da Camposol, uma das principais empresas agrícolas do concelho de Odemira. Apesar de ser conhecida pela relva, esta é uma ínfima parte do negócio. A empresa concentra grande parte da sua produção nos hortícolas como a cenoura, a abóbora ou a salsa de raíz. Tem atualmente uma área de produção de 650 hectares e emprega, entre portugueses e estrangeiros, cerca de 170 pessoas

 

 

Clima temperado, água em abundância e solos férteis foram os fatores que atraíram Peter Knight para o Litoral Alentejano em 1992. Em conjunto com agricultor Peter Waring, Knight fundou a Camposol com o objetivo de produzir hortícolas para o mercado do Reino Unido durante os meses de inverno. Os dois britânicos começaram por cultivar, essencialmente, batatas, beterrabas e cenouras, mas rapidamente perceberam que Portugal lhes dava as condições perfeitas para abastecer o mercado inglês durante todo o ano.

 

Formado em biologia, agronomia e economia, Peter Knight chegou a Odemira em 1983 para estudar a produção de alfaces. Encantado com o Alentejo voltou mais tarde para investir numa zona que considera “um paraíso para viver”

 

Ao longo dos anos, a empresa diversificou a suas culturas e alargou as áreas de produção e exportação. Peter Knight, atual administrador executivo da Camposol, justificou esta decisão com o aumento da concorrência no mercado britânico e a melhoria das técnicas de armazenamento, fatores que dificultaram a capacidade competitiva de um produto importado. “Com a entrada das cadeias de supermercados alemãs em Inglaterra, sentimos necessidade de procurar outros mercados”, acrescentou o CEO da empresa.

 

Espanha, França, Inglaterra, Suécia e Noruega são os principais destinos dos produtos Camposol, que exporta anualmente cerca de 70% da sua produção

 

Em 1996, a Camposol começou a ensaiar a produção de relva, cultivando cerca de quatro hectares na Herdade dos Nascedios, em Vila Nova de Milfontes. “Com os atrasos nas obras de jardinagem da EXPO’98 foi necessário importar toneladas de tapetes de relva de Bordéus”, conta Peter Knight, que afirma ter sido esse o ponto de partida para a produção de relvados em larga escala. Reconhecida a utilidade do produto, o mercado expandiu-se rapidamente e hoje a venda de tapetes de relva Camposol representa cerca de 20% da faturação da empresa.

 

A Camposol produz atualmente dois tipos de relvado baseados em misturas de espécies com características e finalidades distintas: a mistura Tall Frescue produz uma relva mais densa e é indicada para jardins e áreas públicas com pouca manutenção e a mistura Sport, ex-líbris em campos de futebol, é indicada para espaços desportivos por ser mais resistente ao pisoteio e arrancamento. Este relvado de raízes alentejanas é o único a ser reconhecido a nível mundial pela certificação da Global GAP e é exportado para toda a Europa.

 

Para o empresário britânico, as areias da costa alentejana são ideais para a produção de relva, permitindo que esta cresça com raízes fortes

 

 

Espaços desportivos como campos de golfe e de futebol são os principais destinos dos tapetes de relva Camposol. Em Portugal, a empresa já cobriu de verde os campos do Futebol Clube do Porto, do Sporting Clube de Portugal e do Sport Lisboa e Benfica. Do Sevilha ao Lyon, passando pelo Dusseldorf, várias são as equipas que por toda a Europa pisam os relvados criados no coração da Costa Vicentina. O Real Madrid, atual campeão espanhol, também utilizou a relva produzida em Odemira para colocar novos tapetes em quatro dos seus campos de futebol, incluindo o Estádio Santiago Barnabéu. A mais recente encomenda foi do Barcelona FC, que irá colocar relvados portugueses no Camp Nou, estádio principal do clube. “Estamos contentes por saber que a nossa relva tem qualidade para o Messi”, disse Peter Knight.

 

Graças à rotação de culturas, a Camposol produz, para além da relva, hortícolas como cenouras, abóboras, nabos, batata-doce, rabanete, aipo e salsa de raíz

 

Apesar de ser conhecida pela relva, esta é uma ínfima parte do negócio da Camposol. A empresa dedica-se também à cultura de hortícolas como cenoura, abóbora, nabo, batata-doce, rabanete, aipo e salsa de raíz. Este setor do negócio conta com 550 hectares de terra cultivada e representa cerca de 80% do volume de vendas anual.

 

O boom de grandes explorações agrícolas em pleno Parque Natural do Sudoeste não é indiferente a Peter Knight. Em Portugal há mais de 25 anos, acredita que o fenómeno é bom para a região a nível económico mas pode ser mais planeado. “Esta situação mudou mais nos últimos três anos, do que nos primeiros trinta”, ironiza o administrador executivo de uma das mais antigas empresas agrícolas da Costa Vicentina, realçando que “é normal a resistência à mudança”.

 

Em pleno verão, a Camposol emprega, entre portugueses e estrangeiros, quase duas centenas de funcionários, mas o empresário britânico confessou ter vontade de contratar mais pessoas, apesar das dificuldades em encontrar jovens para trabalhar no campo. Como muitos produtores agrícolas da região, Peter Knight encontra na mão-de-obra tailandesa e ucraniana a resposta para a carência de recursos humanos. Questionado sobre as condições em que se encontram estes trabalhadores, Knight adiantou que “quando a empresa recebe grupos de estrangeiros garante tudo, desde o transporte, ao alojamento e até mesmo a comida. É melhor para eles e para nós porque sabemos que estão bem”.

 

“Espero que a Camposol continue a crescer, sempre a produzir com qualidade e sem esquecer o mais importante: a família que trabalha aqui connosco” 

 

por Beatriz Silvestre