EDITORIAL

Relativizar a experiência política

Aproximam-se as autárquicas


Por:Pedro Pinto Leite

2017-08-22
20 anos à frente de uma Câmara Municipal é muito tempo. As pessoas sabem o que o tempo faz a quem está no poder. Basicamente ganham-se vícios e perde-se o juízo crítico e a vergonha.

Com o aproximar das eleições autárquicas as pessoas têm vindo a falar, cada vez mais, acerca do desgaste do atual executivo cujo partido (PS) está há vinte anos à frente da Câmara Municipal de Odemira. É muito tempo. As pessoas sabem o que o tempo faz a quem está no poder. Basicamente ganham-se vícios e perde-se o juízo crítico e a vergonha.

 

Também se tem ouvido falar da falta de oposição nos últimos anos quer na Câmara Municipal quer na Assembleia Municipal de Odemira. Na generalidade, e independentemente de isso ser verdade ou não, a imagem passada pelos líderes concelhios na oposição foi de pouca atividade política, de pouco escrutínio, alguma condescendência e mesmo conivência para com o executivo camarário.

 

Normalmente estes dois temas vêm acompanhados de outros argumentos como a falta de experiência política de alguns dos opositores candidatos aos órgãos das autarquias sobretudo à Câmara Municipal, o facto de serem muito novos.

 

O Dr. Justino Santos, primeiro Presidente da Câmara de Odemira após o 25 de Abril, quando foi eleito tinha trinta e cinco anos  e não tinha qualquer experiência política.

 

A começar em Trump, passando por Putin e acabando num qualquer presidente de junta de freguesia português, as pessoas dizem mal dos políticos (quase sempre com razão): “são todos iguais”, “anda tudo ao mesmo”, “estão lá só para encher os bolsos”, “são carreiristas da política que nunca trabalharam no setor privado”...

 

Há algo nisto tudo que não bate certo. Se por um lado não se quer políticos dentro do sistema do carreirismo partidário e/ou autárquico que só defendem os seus próprios interesses, por outro diz-se que quem não teve essa experiência pode não servir.

 

Afinal que tipo de experiência é que as pessoas procuram num candidato? Experiência em prometer e não cumprir? Experiência em abandonar o cargo para concorrer a outros tachos? Experiência em saber falar bem em público e na falta de comprometimento das suas palavras? Experiência em controlar uma rede de compadrios nos cargos chave das instituições? Experiência na falta de responsabilidade política e mesmo civil dos seus atos? Experiência em corromper e ser corrompido? Experiência em mentir? Experiência em gastar mal os dinheiros públicos? Experiência em servir-se em vez de servir a comunidade? Experiência no controlo dos financiamentos do município? Experiência na ameaça e retaliação a quem se “atreve” a opor-se ao sistema instituído ou a defender ou expressar as suas próprias ideias? Experiência no envio de SMS intimidatórios às quatro da madrugada?

 

Não!

 

Não se pode procurar num político a experiência nestas coisas. Até porque um político que vem de dentro do tal “sistema” não tem moral para mudar o que quer que seja do sistema que ajudou a criar. E quando os telhados de vidro são muitos, a perpetuação desse sistema que tanto se critica é mais garantida com políticos “experientes”.

 

Nesse caso é preferível um político ainda “verde” mas com vontade de mudar e de servir do que um candidato “maduro”.

 

Um candidato “maduro”, cansado e impedido de se recandidatar nas eleições seguintes já não terá nada a perder e não terá o mesmo élan (entusiasmo criador).

 

Um candidato “verde” irá querer provar de que é capaz, irá querer inovar, irá querer conquistar o seu eleitorado para as eleições seguintes.

 

Erros todos cometem. Quem anda à chuva molha-se. Mas são preferíveis alguns erros cometidos por alguma falta de experiência política do que outro tipo de erros (alguns premeditados e para benefício próprio) cometidos por demasiado controlo do sistema político, exatamente aqueles erros de que os políticos “experientes” são acusados de cometer.

 

A condescendência e até mesmo a conivência para com os políticos de que se fala não são da responsabilidade única da oposição partidária. A responsabilidade é de cada um e isso reflete-se nas urnas. É no voto que se pode fazer a diferença. É a totalidade dos votos que pode provocar a mudança.

 

A mudança é normalmente muito aclamada mas arrisca-se pouco na sua concretização. Evita-se reclamar por medo de retaliação, mas no voto não há esse perigo porque é secreto.

 

As pessoas sabem que têm o poder de concretizar a mudança que tanto desejam. É irem às urnas, em massa, e correrem o “risco”.