MINAS

Só falta assinar o contrato para procurar minérios em Odemira

Cobre, zinco e ouro na mira das sondagens

2017-08-22
A Özdogu Portugal quer procurar metais pesados e preciosos com a ajuda de mão-de-obra local e promete causar o mínimo impacto ambiental possível

Uma empresa portuguesa, subsidiária da turca Özdogu, está à espera de assinar contrato por cinco anos para a exploração de minérios numa área designada por Cercal e que inclui uma grande parte do concelho de Sines, uma pequena região em Santiago do Cacém e tem a sua maior expressão no concelho de Odemira, incluindo São Luís e a sede do concelho. O pedido foi publicado em Diário da República em meados de Abril e já passaram os 30 dias de consulta pública, faltando apenas a autorização formal da Direcção Geral de Geologia.

 

“Vamos procurar cobre, zinco, fundamentalmente, mas poderá haver depósitos de ouro interessantes, estamos à espera da aprovação da Direcção-Geral de Geologia”, revela ao MERCÚRIO Luís Martins, geólogo com trinta anos de experiência no sector mineiro e director-geral da Özdogu Portugal, subsidiária portuguesa da empresa turca fundada em 2016 e com sede em Sintra. No pedido constam ainda o chumbo e prata.

 

A técnica de prospecção consiste em ler os resultados de levantamentos anteriores, fazer sondagens mecânicas e enviar amostras para análise em laboratório. A área a explorar é grande, mas o objectivo é reduzir a uma pequena parte. “Se encontramos resultados positivos, vamos reduzindo a área de procura”, explica Luís Martins.

 

O geólogo foi contactado pelos turcos que viram interesse em explorar a área. A Özdogu tem, desde 2010, uma mina a céu aberto em Balikesir que está em plena produção. “A empresa turca vê Portugal como um país com estabilidade legislativa, sem conflitos armados e com grande potencial mineiro, pelo que decidiu apostar nesta área”, conta o geólogo. 

 

Na calha está o desenvolvimento de dois a três projectos para a procura e tratamento de metais pesados e precisos e transformá-los em mina até 2021. Questionado sobre a possibilidade de criação de emprego no concelho de Odemira com este empreendimento, o responsável respondeu que “ainda é prematuro falar em números”. Mas deixa uma promessa: “Na altura de contratar, faremos um esforço por recrutar localmente, pois uma das nossas preocupações é sermos aceites pelas comunidades locais”. 

 

Outra das preocupações é com o ambiente. “O encerramento de minas e os trabalhos de prospecção exigem hoje cuidados decorrentes de exigências legais que antigamente não existiam”, explica a mesma fonte. “Hoje em dia, em qualquer trincheira que revele resultados desinteressantes, o solo é reposto, tudo é feito para que o impacto seja mínimo, embora saibamos que qualquer actividade tem impacto”, esclarece. 

 

Luís Martins lembra que a existência de fósseis ou achados arqueológicos é alvo de comunicação às autoridades. “Quando é feita alguma descoberta ou achado arqueológico chamamos alguém, como geólogo sei da importância que as rochas têm para a História da Humanidade”, alerta.

 

Quanto aos minérios, o especialista lecciona: “O cobre é muito comum nos cabos para distribuição de electricidade e o interesse no ouro vai para além da procura da joalharia, pois é um bom condutor de electricidade, sendo usado por placas electrónicas dos computadores. E os consumos dos metais estão a aumentar no mercado global”. “Estamos empenhados em que as mais-valias fiquem na região, caso alguma operação mineira vá em frente”, finaliza.

 

 

Minas históricas em São Luís

 

A zona a pesquisar faz parte da Faixa Piritosa Ibérica, onde ocorrem tipicamente mineralizações de sulfuretos maciços. “Pouca gente sabe mas o Cercal parte da mesma província mineira de Aljustrel e Neves Corvo”, adianta Luís Martins.

 

A região é conhecida por explorações históricas de ferro e manganês, com destaque para as da Serra da Mina e Rosalgar. São conhecidas antigas explorações de bário, como por exemplo na Toca do Minho e de chumbo, zinco e cobre (Torgal).

 

Na agenda do “Era uma Vez em Odemira”, um projecto que dá a conhecer o concelho a crianças e famílias, é referida a existência de minas em São Luís, mais concretamente na Courela de Manuel Mancos, onde se retirava ferro e manganês.

 

De acordo com a informação disponibilizada, nesta zona existem vários poços e uma galeria. A mina foi explorada no tempo dos árabes, quando São Luís era um dos principais centros mineiros do país. A região era governada por quem vivia no Cerro do Castelo, perto do Castelão, numa fortificação chamada Targhala - daqui vem o nome da Ribeira do Torgal. A mina foi explorada nos finais do século XIX, em plena Revolução Industrial, com recurso às primeiras máquinas a vapor vistas em São Luís.

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)