EMPRESAS

AMIGO PLANTAS

Plantas suculentas

2017-08-22
O MERCÚRIO foi visitar a Amigo Plantas de Portugal, uma empresa que se dedica ao cultivo de plantas suculentas, no lugar de Cavaleiro, freguesia de S. Teotónio

A propriedade, os Arneirinhos, tem 20 hectares dos quais 3,5 são estufas. A alameda central está ladeada de Palmeiras cujo proprietário fez questão de protegê-las contra o escaravelho vermelho que tem dizimado este tipo de plantas no nosso país. O proprietário e empresário Gerard Van Langen, um holandês descontraído, fez as ‘honras da casa’, acompanhado de sua mulher, Miranda, e da gerente local, Teresa.

 

 

O NASCIMENTO DA AMIGO PLANTAS

 

Gerard Van Langen nasceu no ano de 1960, na Holanda, numa pequena aldeia de cerca de 700 pessoas, Heerhugowaard. O seu pai tinha uma estufa onde plantava tomate e pepino.

 

Depois de se formar na Escola Superior de Horticultura, aos 23 anos de idade, Gerard foi prestar o serviço militar obrigatório.

 

Devido à morte prematura do seu pai, em vez de seguir o percurso que tinha imaginado para si, Gerard foi tratar da estufa da sua família. “Uma estufa muito pequena”, refere.

 

Numa das várias feiras que frequentava para vender os seus produtos, conheceu Miranda Schaap. Casaram-se e tiveram três filhos: Rob, Rick e Nicole. Os três trabalham com os pais. “De sua livre vontade, que não queremos aqui ninguém contrariado”, remata Miranda.

 

O negócio hortícola cresceu e a estufa também.

 

Perto dos 40 anos de idade Gerard descobriu o mercado do tomate e tornou-se um especialista de sucesso daquele fruto. “Mas era muito aborrecido”, comenta. Gerard queria cultivar outra coisa.

 

Desde os 8 anos de idade que o seu hobby é plantar catos e suculentas. Ainda hoje mantém uma pequena coleção privada dessa plantas.

 

O gosto por esse hobby era tão forte que Gerard resolveu torná-lo negócio. Há 17 anos trocou o tomate pelas suculentas. O banco ‘fechou-lhe’ a porta. Mas isso não o demoveu, antes pelo contrário. “Queriam que eu continuasse com o tomate mas eu não gosto que me digam o que fazer”, argumenta. Ele e Miranda estavam determinados a começar tudo de novo. Apesar das dificuldade, os trabalhadores confiavam no patrão. Ninguém se despediu. Gerard não tinha como investir em plantas novas. Todo o seu dinheiro ia para os ordenados ao fim do mês.

 

Passados 17 anos, a Amigo Plantas tem 130 trabalhadores nas suas plantações de suculentas, em 8 lugares diferentes na Holanda, e produz mais de 450.000 suculentas por semana. São mais de 1.000 os seus clientes, desde os mais pequenos até aos maiores como o Aldi, Lidl, Carrefour, Tesco e Ikea.

 

 

A CHEGADA A PORTUGAL

 

A maternidade, para as estacas das suculentas, situa-se no Quénia. Gerard tem uma parceria com um antigo colega da universidade. “Ele está feliz e eu também”, diz. Durante 12 anos, as estacas iam diretamente de África para a Holanda.

 

“Tudo estava a correr bem mas faltava-nos o clima”, explica Gerard, “é que as suculentas gostam de sol e o inverno holandês começa no fim de setembro e vai até abril ou maio”, remata.

 

Gerard procurou na internet um bom lugar para cultivar suculentas durante aqueles meses. Pesquisou e visitou alguns lugares na Grécia, em Itália e em Espanha. Mas, no verão, as noites nestes países não são suficientemente frescas. “Quando a temperatura é muito elevada dia e noite isso não é muito bom para as suculentas”, diz.

 

Portugal foi o destino eleito. Gerard e Miranda tinham várias fotografias, retiradas do Google Earth, de lugares a visitar. “A verdade é que até tinha uma imagem exatamente do lugar onde estamos agora”, revela, “mal sabíamos nós...”. Visitaram vários lugares mas foi no Cavaleiro, perto do oceano, com noites frescas, que encontraram aquilo que consideraram ser “o sítio ideal”. Isso foi há 8 anos.

 

Gerard tinha uma lista de vários pontos que achava serem essenciais para se instalar: a quantidade de luz solar, a temperatura durante o inverno, a facilidade logística, a possibilidade de contratar pessoas, etc. ... “mas no primeiro lugar dessa lista estava a questão se íamos para um lugar onde gostássemos de estar porque, se fossemos para um lugar apenas pelo negócio, não queríamos ir porque temos de nos sentir vivos, ter amigos, fazer parte da comunidade e trabalhar com um sorriso na cara.”, e Miranda acrescenta “agora, quando vimos para cá sentimo-nos em casa porque o sentimento é bom, as pessoas são boas e gostamos muito de toda a zona”.

 

 

A AMIGO PLANTAS

 

Na altura Gerard e Miranda não conheciam os donos da propriedade, muito menos a difícil situação financeira em que se encontrava a sua empresa. Fizeram uma visita ao local e arrendaram os primeiros túneis. Ficaram com quatro dos trabalhadores da empresa locadora. O casal instalou-se em Portugal e os seis fizeram todo o trabalho inicial. “À noite estávamos estourados”, conta. Nesse tempo conheceram melhor o ‘ambiente’ local. Conheceram pessoas e fizeram amigos. Foram-se apercebendo-se da situação da empresa que estava instalada nos Arneirinhos. “Há 4 anos atrás fiz uma oferta para a comprar e assim foi”, relata.

 

A partir daí a Amigo Plantas começou a crescer e a modernizar-se.

 

Aquilo que a empresa faz pode fazê-lo numa área relativamente pequena e não usa o solo porque as plantas são colocadas em placas de circuito fechado. “Porque usamos alta tecnologia conseguimos ter uma densidade considerável de plantas por cada metro quadrado, usamos muito pouca água e as suculentas raramente precisam de fertilizantes e pesticidas químicos”, explica Gerard.

 

A propriedade tem 20 hectares e, neste momento, são usados apenas 3,5 hectares de estufas.

 

“Aquilo que mais nos ajudou no nosso negócio na Holanda, o nosso maior sucesso, foi termos vindo para Portugal”, confessa.

 

A partir de outubro a luz solar na Holanda é consideravelmente mais fraca e as plantas param o seu crescimento, adormecem, hibernam. “Mas porque temos o processo de crescimento em Portugal, temos sempre produto para vender durante todo o inverno Holandês” diz Gerard.

 

Neste momento o volume de negócios na Holanda é de cerca de 16 milhões de euros. “Mas em Portugal é um pouco diferente”, clarifica Gerard, “as empresas são diferentes, a Holandesa tem sede na Holanda e a Portuguesa tem sede em Portugal (Odemira), mas nós somos as mesmas pessoas”.

 

O que a empresa Holandesa faz é comprar uma prestação de serviços à empresa Portuguesa. O material vem do Quénia para Portugal, as plantas são aqui colocadas em tabuleiros, ganham raízes e forma e só depois partem para a Holanda. É lá que crescem e é a partir de lá que vão para o mercado.

 

A Amigo Plantas só tem um cliente e tem um volume de negócios de cerca de dois milhões de euros anuais. É uma empresa portuguesa. Gerard informa que todo o material necessário para a sua produção em Portugal é comprado em Portugal: “a turfa, os fertilizantes, o material de rega e de estufas, as reparações, as viaturas, os serviços necessários ao nosso funcionamento, tudo o que for preciso e também pagamos aqui os salários, a segurança social e os impostos”.

 

Semanalmente a Amigo Plantas envia três a quatro camiões TIR, totalmente cheios para a Holanda.

 

 

OS TRABALHADORES

 

Gerard passa a maior parte do seu tempo na Holanda e precisa de ter uma relação de confiança com todos os seus trabalhadores e empresas com quem trabalha. “Eu trato o menos possível das coisas e por isso tenho de confiar neles e eles em mim e isso funciona”.

 

Todos os sistemas de irrigação da Amigo Plantas foram feitos por um jovem do cavaleiro. Gerard explicou-lhe o que queria e o jovem executou. “E bem! e agora tem muito orgulho naquilo que fez”.

 

Toda a contabilidade, processamento de salários e análise financeira é realizada num gabinete de contabilidade e gestão local onde, mais uma vez, Gerard deposita toda a sua confiança.

 

A recuperação da sua casa foi entregue a um construtor local com quem conversou acerca dos trabalhos a fazer. Gerard mostrou-se completamente satisfeito.

 

Neste momento a empresa tem 40 trabalhadores, 38 dos quais portugueses. Os antigos trabalhadores da empresa anterior foram todos ‘recuperados’. “Uma das prioridades de contratar alguém era a de já terem trabalhado aqui na propriedade”, esclarece Teresa.

 

Segundo Gerard os trabalhadores ganham acima da média, são respeitados e têm trabalho garantido o ano inteiro. A sua forma de trabalhar é a de promover as competências de cada um. “Todas as pessoas têm as suas competências e quanto mais responsabilidade lhes damos mais orgulho e brio têm no trabalho que fazem”, sublinha.

 

Teresa Traquina, que acompanha esta visita, é a gerente da Amigo Plantas. “Ela é o espelho de todo o pessoal”, afirma Gerard, “Teresa é a pessoa mais importante que tenho aqui e todas as pessoas a respeitam porque ela as trata bem”. “Quando a contratei disse-lhe que a queria como gerente mas, acima de tudo, tinha de ser minha amiga (risos) e agora somos bons amigos”, remata.

 

Essa é a maneira de Gerard trabalhar. “É preciso dar trabalho às pessoas mas é necessário envolver a comunidade no negócio e quando fazemos dessa maneira as pessoas vão ter orgulho em dizer que trabalham na Amigo Plantas”, acredita.

 

 

AS PLANTAS

 

 

Gerard começou na Holanda com 3 hectares. Quando veio a Portugal já lá tinha 17 hectares. Aqui tem mais 3,5 hectares de estufas.

 

Há cerca de 10 anos começou a cruzar plantas e a criar novas espécies. “Para se fazer uma nova variedade perdem-se muitas tentativas”, revela, “é preciso que essa nova planta seja a melhor e por isso testamo-la na Holanda e testamo-la aqui para obter uma planta adaptada e resistente e com valor comercial”.

 

A Amigo Plantas produz essencialmente plantas para interior mas também produz algumas plantas para exterior: jardins, terraços e varandas. 

 

“Normalmente quando uma pessoa compra suculentas sente-se bem sucedida com as suas plantas porque as suculentas não precisam de muitos cuidados, não precisam de muita água e as pessoas não as perdem tão facilmente e isso fá-las felizes”, explica Teresa.

 

Se for bem tratada uma suculenta pode chegar aos 25, 30 anos de idade. De cada planta adulta podem-se desdobrar várias plantas mais jovens.

 

Nos últimos dois anos as suculentas entraram na moda na Europa ocidental mas também estão a ganhar importância na América do Norte e noutros lugares do mundo. “Especialmente as novas variedades, é um mercado que está a crescer”, diz Gerard.

 

As plantas vêm para Portugal para ganhar raízes. Aqui recolhem a energia da luz solar e quando são mudadas para um vaso têm maior hipótese de serem bem sucedidas.

 

“O que eu costumo dizer aos meus clientes é que, antes de as vendermos, enviamos todas as nossas plantas de férias para Portugal (risos) e que cá elas ficam cheias de energia e sem stress e de regresso à Holanda vão crescer muito melhor”, conta Gerard.

 

Neste momento a Amigo Plantas produz cerca de 80 variedades diferentes. “Mas estão a caminho mais de 200 novas variedades”, revela Gerard, “estamos a criar novas espécies neste momento e aguardamos plantas muito bonitas de cores e formas diferentes”.

 

 

A TECNOLOGIA

 

A propriedade fica situada no Perímetro de Rega do Mira. O sistema de rega é computorizado. A utilização de água é mínima. Foi dada formação a algumas pessoas para programar o sistema operativo. Quando é preciso água em algum sector, programa-se a rega e esta é feita durante a noite. “Porque regamos durante a noite, e pouco porque este tipo de plantas não requer muita água, não sofremos tanto o fenómeno da evaporação”, explica Teresa.

 

Todas as janelas das estufas têm sensores ligados ao sistema informático. Quando começa a chover ou está mais vento o sistema manda fechar as janelas. Quando sobe demasiado a temperatura no interior, manda-as abrir. “A perceção e a previsão meteorológica ajudam muito a programar o sistema para que tudo funcione da melhor forma”, esclarece Gerard. “Mas também é muito importante falar com as plantas, sabendo interpretá-las elas dizem-nos o que fazer”, conclui Teresa.

 

Através do sistema informático, Gerard consegue saber exatamente o que se passa em Portugal quando está na Holanda, e Teresa, em casa, pode controlar as estufas, mesmo ao fim de semana. “Cada variedade necessita de um clima diferente e por isso temos sempre de estar atentos”, diz.

 

 

OS PRODUTOS, O MERCADO E OS CLIENTES

 

“Se fizermos as contas podemos facilmente chegar aos 12.000 artigos diferentes que possamos vender porque uma planta pode ter variadíssimas apresentações”, informa Gerard.

 

Quando se tem uma produção em grande escala é preciso vender em grande escala e por isso Gerard tem um departamento de vendas com 6 pessoas “dedicadas” para garantir que o seu produto encontra um lugar no mercado.

 

Os clientes da Amigo Plantas são todos retalhistas. A empresa não vende ao cliente final.

 

Para além das personalizações à medida do cliente, todas as ideias, o design dos produtos, do ‘packing’ e do catálogo, tudo é realizado na Amigo Plantas.

 

“As possibilidade são imensas: vasos de cerâmica, barro ou madeira nas mais variadas cores”, explica Gerard, “podemos inclusivamente pintar as plantas”.

 

A Amigo Plantas desenvolveu uma tinta especial, feita à base de água e também uma máquina especial para a pintura. Foi um processo de cerca de 4 anos.

 

A tinta mantém a planta viva e uma planta pintada pode durar tanto quanto as outras. “Temos grandes canteiros de suculentas pintadas na Disney World, em Paris”, conta Miranda mostrando uma fotografia, prosseguindo, “no Natal podemos pintar as suculentas de dourado ou prateado ou qualquer outra cor e as plantas, coloridas ou não, também servem para arranjos fora do vaso, sem raízes, bouquets por exemplo, porque as suculentas podem durar até 6 meses sem raiz, com facilidade”.

 

Segundo Gerard a grande maioria das ideias partem de si e de Miranda depois, com a ajuda do seu pessoal e com o apoio técnico concretizam-nas. “Estou sempre a pensar o que fazer com as plantas mesmo contra as possíveis dificuldades”, diz entusiasmado, “por exemplo: porque é que não fazemos uma planta que brilha no escuro? e fizemo-la e resultou”.

 

A preparação da produção é realizada mais ou menos com um ano de antecedência. “A nossa produção é feita por encomenda”. “Neste momento já sabemos o que temos de ter pronto para a Páscoa de 2018”, diz Teresa.

 

Uma parte das encomenda é realizada em feiras internacionais, por toda a Europa, onde a Amigo Plantas se faz representar.

 

Para Gerard o futuro é ir continuando a trabalhar e a crescer com o mercado de uma forma sustentável. “Queremos desenvolver e melhorar a forma e o espaço onde produzimos as nossas plantas”. “O mercado cresceu e nós também fomos crescendo mas fomos introduzindo algo diferente e quando estamos a estimular as pessoas e os nossos clientes a fazerem novas coisas com as nossas plantas estamos também a estimular o mercado”.

 

 

PARALELAMENTE...

 

Gerard gosta de ajudar as pessoas de uma forma um pouco particular.

 

Uma das duas pessoas não portuguesas que trabalha na Amigo Plantas é um jovem senegalense vítima de tráfico humano. “Foi trazido para Portugal por alguém ligado ao futebol que traz miúdos para jogarem e que depois o abandonou”, diz Teresa. A sua história chegou a Gerard que o acolheu. “Temos-lhe dado alguma estabilidade e ele está a fazer a sua vida aqui, ajudamo-lo em tudo, agora estamos a pagar-lhe a carta de condução”.

 

Na Holanda a empresa renovou a cantina e todos os materiais decorativos de construção, como os ladrilhos, foram de Portugal. “Nessa sala está um painel de azulejos com 5 metros de comprido e um metro e meio de altura encomendado a uma artista de Vila Nova de Milfontes”, conta Teresa, “um outro artista está a fazer um ensaio para uma outra sala”.

 

Parte do trabalho de colar autocolantes é feito por um grupo de pessoas deficientes. “Para além da ocupação isso é também uma forma de socialização e de integração dessas pessoas na comunidade”, diz Miranda.

 

“Há 3 anos demos trabalho ao irmão de uma das nossas trabalhadoras portuguesas na Holanda”, informa Gerard, “ele tem uma deficiência mental e veio de Portugal para trabalhar connosco”.

 

Neste momento a Amigo Plantas apoia a equipa de bilhar do cavaleiro.

 

As pessoas são “remuneradas acima da média” e às vezes são-lhes dados bónus mas não são distribuídos lucros. “Estamos sempre a investir na empresa”, diz Gerard, “somos ricos no papel mas pobres na caixa” (risos).

 

Gerard não quer incorrer em injustiças e revela que o seu pessoal está sempre a surpreendê-lo com ofertas de variadíssimas coisas, hortícolas sobretudo. “Ainda na Páscoa passada fui surpreendido com um jantar de grupo oferecido por eles”.

 

 

O GALARDÃO

 

Na Holanda, todos os anos são distinguidos vários empresários pelo seu empreendedorismo e Gerard foi galardoado com o “Agrarisch Ondernemer - 2017” (Empresário Agrícola – 2017). “Não fui o primeiro, fui o segundo, mas esse reconhecimento já é muito bom”, conta, “somos muitos a fazer muita coisa e neste momento muita gente está a dizer que somos os melhores naquilo que fazemos”.

 

 

E O CÃO?

 

O cão apareceu perdido na propriedade e começou, também ele, a seguir Gerard. Fosse ele para onde fosse, o cão ia atrás. Gerard adotou-o.

 

por Pedro Pinto Leite