EXTRAMIRA

Ronald Sigmann (58 anos)

por Peter Schreiber

2017-08-22
Carpinteiro, nascido na Alemanha, vive em Milfontes há quase 30 anos

Foi uma nuvem que fez fugir o Ronald para Portugal. Uma nuvem vinda de leste que não se conseguia ver, nem sentir, nem cheirar. Mas que mesmo assim causou um grande susto em toda a Europa. Foi a catástrofe nuclear de Tchernobil, em abril de 1986, que causou medo em Ronald. Nas proximidades da sua cidade natal, no norte de Baden, as três centrais nucleares eram uma realidade. Iria acontecer a mesma coisa como na Ucrânia? “Estava farto. Só queria ir-me embora”, diz Ronald.

 

Foi assim, que o profissional de engenharia mecânica, que até àquela altura tinha trabalhado principalmente no restauro de velhas quintas, se pôs a caminho de Portugal. Tinha 28 anos e não falava nem uma palavra de português. A sua escolha de Milfontes foi um acaso e teve na base uma ideia. Será possível passear de barco no rio Mira, com turistas? A ideia era tentadora, a realização difícil. Não tinha barco, nem autorização, nem conhecimento da língua portuguesa, nem mesmo carta de marinheiro.

 

Mesmo assim, Ronald decidiu arrancar. Em Aveiro, encontrou um Moliceiro com 14 metros de comprimento, a Capitania de Sines concedeu-lhe uma autorização temporária e a língua portuguesa aprendeu com os pescadores no Mira. “As pessoas trataram-me com confiança e franqueza. Só por eu ser alemão. E tentei não frustrar esta confiança”.

 

O negócio com os turistas começou bem. Ronald foi o primeiro a organizar passeios de barco regulares no rio Mira. Mas depois vieram outros que também queriam ganhar dinheiro com esta ideia. O volume do negócio desceu, a competição tornou-se mais aguda, e em 1992, Ronald vendeu o seu Moliceiro.

 

Nunca teve falta de novas ideias. Durante três anos, em parceria com um construtor civil, explorou o bar Café Turco, em Milfontes. Organizou passeios de bicicleta Mountainbike para grupos de turistas da Suíça. Tinha cerca de 100 bicicletas de aluguer. “Os turistas gostaram”, diz Ronald. “Os portugueses não estavam habituados a este tipo de bicicletas. Preferiam andar de moto”.

 

O projeto seguinte foi uma exploração de avestruzes. Chamava-se “Três Marias” e era suposto ser um grande negócio. A carne, a pele, as penas – tudo pode ser vendido com lucro, como disse o seu parceiro suíço. A certa altura tinham quase 1000 animais, faziam até hambúrgueres de carne dos avestruzes. No entanto, o cálculo não bateu certo. Por vezes, os compradores ficavam sem pagar durante um ano inteiro. Na altura em que Ronald se dirigiu finalmente ao tribunal, já não havia nada a fazer para receber o que era devido pelos clientes. “Foi um negócio de merda”, diz Ronald. “Os criadores mentiram em relação à margem de lucro. Nós os dois trabalhámos 365 dias por ano, sem um dia de folga. Não valeu a pena”. Ronald recuperou da perda. “There´s no success like failure, and failure is no success at all”, diz Bob Dylan numa canção.

 

Hoje em dia, Ronald faz outra vez aquilo que fazia quando saiu da Alemanha. Trabalha como carpinteiro. E fá-lo, mesmo estando gravemente incapacitado em consequência dum acidente de moto na juventude. “Na Alemanha sou considerado incapacitado a 100 por cento, em Portugal apenas a 90 por cento. Cá dão apenas 100 por cento quando estás morto”, ri-se.

 

Ronald não quer voltar para a Alemanha. “Gosto de Milfontes. Conheço as pessoas e as pessoas conhecem-me. Agora acontece o oposto do que acontecia quando aqui cheguei em 1986, os restaurantes e as tascas estão abertos também durante o inverno”. Vai continuar a trabalhar enquanto puder. Os seus pais na Alemanha têm agora mais de oitenta anos e ainda continuam a trabalhar no seu salão de cabeleireiro. Também Ronald trabalhou toda a vida como trabalhador independente. “E isto vai ficar assim”, diz, andando como um cowboy, com as pernas abertas, pelas ruas de Milfontes. Um cowboy com chapéu de palha.

 

por Peter Schreiber