MIRADOIRO

Zambujeira do Mar, em 1931 - Gente digna

A Foot in Portugal


Por:António Quaresma

fotografia: Ferreira Aboim
2017-08-22
Uma curiosidade acerca da Zambujeira do Mar, contada por um viajante inglês, John Gibbons

Pense-se o que se pensar sobre os concursos “7 maravilhas”, em especial o discutível valor dos programas televisivos que lhe estão associados, a verdade é que o concelho de Odemira tem andado na berra. Sem mais apreciações, vou, a propósito, contar uma curiosidade acerca da Zambujeira do Mar, contada por um viajante inglês, John Gibbons, que por aqui passou em princípios da longínqua década de 1930, no seu livro A Foot in Portugal.

 

Vindo do Algarve, depois de uma vagarosa viagem de burro, de carroça e a pé, que as más estradas não permitiam outra coisa, ele chegou a São Teotónio, onde a sua estada suscitou a curiosidade de toda a gente. Dois dos habitantes, depois de uma conversa em francês rudimentar, a única língua estrangeira que em Portugal geralmente se usava para se falar com estrangeiros, acabaram, mesmo, por convidá-lo para um “pequeno passeio recreativo”. 

 

Então, numa carroça, puxada por dois possantes cavalos de trabalho, sobre a qual haviam colocado cadeiras de cozinha, o grupo, com o inglês no lugar de “honra”, ao lado do condutor, dirigiu-se para o destino surpresa, através de um caminho, inicialmente muito mau, inclusive com troncos de árvores atravessadas no trilho, a que se seguiu uma zona aberta, em geral arenosa, numa espécie de corta-mato, com a vegetação espontânea da charneca pela barriga dos cavalos. Chegados ao fim do trajecto, que percorreram em cerca de duas horas, os excursionistas encontraram-se na praia da Zambujeira, que os anfitriões queriam, orgulhosos, mostrar ao exótico visitante. 

 

Na verdade, a primeira impressão do inglês foi de desinteresse, diante de um lugarejo de humildes habitações, sobre uma alta arriba xistosa e estéril defronte do Atlântico. Notou que os habitantes se dedicavam sobretudo à pesca, em pequenos barcos quando mar permitia, com grandes canas e compridas linhas do alto dos rochedos quando não.

 

Bem depressa, porém, a sua desilusão deu lugar a um sentimento de agrado pela hospitalidade dos habitantes, que, mal o carro parou, o rodearam e convidaram os recém-chegados para comerem e beberem, com mostras de grande deferência para com os visitantes, especialmente para com o estrangeiro. O inglês não refere a presença de banhistas: estava-se provavelmente na “época baixa”, talvez no Outono adiantado, porque o viajante viu no caminho para Odemira um camponês a lavrar com o seu arado um terreno húmido, embora o tempo estivesse soalheiro.

 

John Gibbons elogiou os naturais da Zambujeira, que apesar da pobreza, se mostraram ofendidos quando ele quis pagar a bebida e a comida, fazendo comparação entre a nobreza da atitude desta gente e a fama, propagada pela literatura de viagens, de que Portugal, como todos os países latinos, era um país de grosseiros pedinchões. Quando ele, em retribuição, ofereceu uma laranja a uma criança, pareceu a toda a gente uma magnífica oferta, pois estes “mimos” não eram ali frequentes. No regresso, já anoitecia, mas o condutor do carro conduziu a viatura no meio da escuridão, sem hesitações, apesar de, ocasionalmente, os animais chocarem com os arbustos. Ao deixar São Teotónio, o viajante inglês levou uma amável recordação da sua permanência na aldeia.