MÚSICA

O Mundo veio espreitar o pôr-do-Sol a Porto Covo e Sines

Crónica de um FMM à beira-mar plantado

fotografias: Mário Pires
2017-08-22
O MERCÚRIO foi visitar o Festival Músicas do Mundo e encontrou um programa pautado pela diversidade. O público aderiu em massa a um evento que vai ganhando raízes cada vez mais profundas de ano para ano

Covo, diz o dicionário, é côncavo e fundo. E em Porto Covo, sente-se a profundidade da música na voz de alma acústica de Waldemar Bastos. Ao fim ao cabo, são já 35 anos de palcos para o angolano que se faz acompanhar do violão. E no Largo da Igreja há uma Waldemar de gente e abraços e sorrisos quantos Bastos. Estamos em pleno Festival Música do Mundo e quando Waldemar fecha os olhos, há quem aperte o coração.

 

O Covo é terra de pescadores. E nem de propósito, Bastos vai agora cantando algo como “E lá foi Domingos com sua cana de pesca na mão”. Uma menina assiste encavalitada aos ombros de um homem e diz-lhe: “Não me deixes cair, pai”.

 

Há festa no Marquês, mas sem estátua, sem leão e sem bola. No café com o mesmo nome do largo há um estranho sinal vermelho com letras brancas onde se lê “durante todo o FMM todo o serviço será feito em recipientes descartáveis”.

 

A música, essa, não é descartável, mas há uns poucos turistas que preferem fazer um passeio pela calçada até perto das praias, onde se ouve uma ciganaa encantar uma cliente com um “pode escolher, menina, o turco está por dentro”. No palco, Bastos está eléctrico. “Muxima, ué uê, muxima ué uê, muxima”, canta e todos repetem.

 

Bem, todos, talvez seja exagero. Junto a um ecrã gigante há quem descanse na relva, troque mensagens nos telemóveis, há quem consulte a Internet à procura dos preços de uma pão-de-forma Volkswagen.

 

Um quarto para a meia noite. Sobem ao palco os Mabang, vestidos com o rigor da província chinesa de Guangxai, ali como quem vai para o Vietname. Do Sudoeste da China para o Sudoeste do Alentejo. Gritam “Aí, ouééé” e o público repete. Alguns fazem cara de “isto para mim é chinês”. Olhe que não, olhe que não, é guiliuhua - sabemos disto porque a câmara de Sines nos ofereceu um guia de 76 páginas com detalhes sobre todos os artistas.

 

O vocalista parece um índio com penas na cabeça e ritmo da banda é contagiante. O dialecto é incompreensível, mas muitos brincam já com os refrões que parecem dizer “siga o baile” e “mais um sumol”. Alguns elementos da banda aproveitam os temas onde tocam menos para tirar fotos ao público. Um tema mais calmo e uma mãe aproveita para embalar o bebé.

 

Voltamos a casa e na rádio Sines dois locutores vão dizendo umas banalidades sobre a relação entre Portugal e a China, qualquer coisa entre Macau e a presença de lojas chinesas em Portugal. À hora certa, mudamos para a Renascença para ouvir as notícias do resto do país com Marisa Gonçalves.

 

Um dia depois, o Sol volta a pôr-se em Porto Covo. Na aldeia ecoa já o saxofone e percussão de Basel Rajou Trio. Ficamos na dúvida se são os sons do saxofone do sírio que convidam o Sol a pousar, tal é a suavidade dos sons do Médio Oriente. Matthias Loibner domina com mestria a sanfona. Entre o público há quem domine com mestria a arte de enrolar. E na relva há outro artista (@onlytredo no Instagram) que faz e arranja rastas.

 

Logo depois vem a Orquestra Latinidades. A descrição do guia encaixa como uma luva: “A canção napolitana parece um fado, a milonga é dançada como um forró, a coladera ganha palmas de uma samba de roda”. No meio de tanta alegre e afinada confusão, há lugar para a comédia teatral com uma vocalista espanhola que fala sem parar até que canta fado com sotaque. E também para as desventuras de Cajó, um desgraçado escriturário desempregado, que se vê a braços com a Segurança Social.

 

Da emigração portuguesa têm saído alguns artistas cujo apelido denuncia a sua origem lusa. A Nelly do Canadá tem uma força que ninguém pode parar e é Furtado dos Açores. Guy-Manuel, dos Daft Punk, tem como apelido Homem-Christo e é bisneto do escritor Homem Cristo Filho. O cantor jamaicano Sean Paul é Henriques por parte do avô paterno. E ao FMM Sines veio a inglesa Nessi, descendente de uns Gomes portugueses.

 

Nessi Gomes canta em inglês temas folk com grande dramatismo - a culpa parece ser das origens, pois acredita que a essência do fado deixou aqui a sua marca. Veio mostrar o seu primeiro álbum, “Diamonds and Demons”, literalmente diamantes e demónios.” É o som das ilhas britânicas, como que saído de do nevoeiro, há uma certa melancolia, ficamos sem saber se entramos ou saímos num sonho.

 

O Porto continua Covo. Quem atraca agora são três marinheiras com chapeuzinhos de âncora bordada, The Barberettes ( ????, em coreano)“Stomp your feet, clap your hands”, pedem e o público lá vai gingando entre palmas e pateadas.

 

A Coreia do Sul tem por hábito visitar outros estilos e dar-lhes aquele brilho coreográfico asiático que os europeus acham tão cómico. Quando Psy andava a cavalgar no rico bairro de Gangnam, já o pop se tinha convertido em k-pop, assim mesmo como k de “korean”.

 

The Barberettes revisitam o doo-woop, mas sem pretensões de o transformar em k-doo-woop ou qualquer outro estilo coreano de R&B. Mas o toque coreano está lá. A influência fundadora foi a das Kim Sisters, um trio familiar coreano, duas irmãs e uma prima, que fizeram carreira nos anos 50 e 60, nos Estados Unidos. Outros grupos fazem parte do repertório, como The Andrews Sisters, The Chordettes, and The Ronettes, para além de temas de Bob Marley.

 

Enquanto um vendedor de CD’s coreano grita, divertido, “Venham aqui”, na banca de merchandising do FMM, as três coreanas desdobra-se em sorrisos tirando dezenas de selfies com os festivaleiros. “O ambiente é fantástico, estava muita gente e o público português é muito participativo, ficamos muito agradecidas”, descreve ao MERCÚRIO Sohee Park, uma das vocalistas.

 

A poucos metros, o flautista Fei, dos Mbang, improvisa numa jam com um freak que toca mola-de-beiço. A maior parte dos artistas misturam-se com os fãs, trocam experiências, não se limitam a tocar e ir embora. “Aqui há descontracção, sem conflitos”, diz um fã oferecendo-nos um copo de vinho branco carrascão de uma bag-in-box que estava guardada numa geladeira azul de campismo. “Ainda é cedo, o after-hours é sempre a melhor parte da festa”, diz o nosso interlocutor que desaparece antes que lhe perguntemos o nome.

 

Marcelo Gama, 36 anos, veio de Almada, mas é alentejano. Discutimos a parte mais cómica de alguns concertos. “Esta parte teatral faz parte, quando vamos ver os artistas num festival como este vamos ver um espectáculo, não apenas um concerto”, defende. “Eu venho dançar, outras vezes estar em sossego a curtir a música, mas aqui em Porto Covo é diferente de Sines, cada sítio, cada estilo musical tem o seu público”, revela.

 

Fomos a Sines espreitar a diferença. No Largo Poeta Bocage canta agora uma das estrelas contemporâneas do reggae, Mike Love - não confundir com o artista do mesmo nome, um dos fundadores dos The Beach Boys. O artista é imparável, faz mais de 250 espectáculos por ano e no Verão parece incansável. O início da digressão europeia fez-se em três dias consecutivos em França, depois Sines e depois nove dias consecutivos em França, antes de seguir para Alemanha, Holanda, Reino Unido e Bélgica e voltar para os Estados Unidos onde, revela, vai trabalhar no novo álbum.

 

O músico havaiano debita os chavões do amor, boas vibrações, consciência ambiental, o despertar espiritual nas suas canções. Com a sua guitarra acústica vai defendendo uma música universal e a sua grande envergadura, barbas e cabelos compridos parecem sugerir ser o líder de uma enorme tribo de nómadas de pés descalços que se reuniram para o ouvir. Há quem medite e há quem dance com um tupperware na mão, cheio de triângulos de melancia e coberto com folha de alumínio.

 

Ao microfone do MERCÚRIO o cantor mostra-se maravilhado com o festival: “Sines é um sítio lindo, muito diferente de onde vivo e este festival reúne uma diversidade de propostas musicais de todos os cantos do mundo e ver tanta gente que nos recebe de forma calorosa”. O artista é conhecido por ser um activista ambiental e deixa uma palavra de apoio aos movimentos portugueses que conseguiram adiar a prospecção de petróleo na costa do Alentejo: “Apesar dos avanços tecnológicos nas energias alternativas, as companhias petrolíferas movem influências e muito dinheiro e só por isso é que a poluição ainda existe e, por isso, pelo futuro dos nossos filhos é espantoso saber que os movimentos ecologistas conseguem travar estes gigantes”.

 

Nova mudança de ambiente, agora para espreitar o auditório. A entrada é paga, mas a organização reservou um lugar para o MERCÚRIO. O concerto é duplo. Primeiro vem Makely Ka, de Minas Gerais, Brasil, com a sua música que começa no solo, onde a vida parece não ter fim. “No Brasil tomamos muitos ansiolíticos”, comenta jocoso a propósito da situação política do seu país.

 

Na sua voz há miscigenação da actualidade com o sertão profundo, há rimas trava-língua marteladas (“Tem que caber pra becapar / Tem que caber pra becapar / Tem que caber pra becapar”), há todos uma vida de ser o primeiro de cinco irmãos, mestiço de árabe, negro, índio e português, filho de mãe mineira e pai nordestino, há cantigas rodadas e sacudidas. Tudo é lição de português, de brasileiridade e de História.

 

Depois do intervalo vem Coladera. Ouve-se o violão do cantor e compositor mineiro Vítor Santana. E a viola com fado e flamenco do compositor e guitarrista português João Pires. Mas o sal que tempera esta salada musical que se chamará “Lá Dôtu Lado” é a percussão da morabeza irreverente do cabo-verdiano Miroca Paris.

 

Para o início de madrugada estava guardado uma instalação sonora onde o fluxo da palavra impera. É Saul Williams com a sua poesia electrónica pesada com um enredo dominado por um hacker que grita em jeito revolucionário contra o paradoxo de uma África pobre num mundo cheio de telemóveis brilhantes, com dedos apontados a Trump e Temer.

 

E termina a ciranda pela amostra do FMM, onde os mundos dão novo mundo à música. 

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)