ENCONTREI EM ODEMIRA

José Granja

Por Sara Serrão

2017-08-22
Este mês encontrei em Odemira José Granja, 36 anos:

“Venho de Lisboa, com uma ligação ao Algarve: o meu pai é de Olhão e a minha mãe da capital; somando as duas partes e dividindo por dois, parece que isso deu Alentejo e estou cá há quase dez anos. Inicialmente fui para Aljezur e embora estivesse no Algarve, todos os meus amigos me diziam: “estás lá para o Alentejo”. Entretanto acabei mesmo por me mudar para o Alentejo, Concelho de Odemira, e trabalho na Rota Vicentina desde a origem do projecto.

 

 

- Qual a sua ligação a este território?

 

Ter vindo para cá foi um acaso; não escolhi esta região, escolhi viver fora da cidade. Creio que na altura poderia ter ido para os Açores ou Trás-os-Montes mas acabei por vir para a Costa Vicentina. Embora não conhecesse nenhum dos três locais, reconhecia o seu potencial como sítios agradáveis para viver e foi aqui que tive uma oportunidade de trabalho. Estabeleci uma grande empatia com esta terra exactamente através desse projecto que abracei, a Rota Vicentina (RV), que me está gravado no ADN; tive o privilégio de participar activamente na fase de desenvolvimento e concepção do projecto, o que me ligou à região de forma visceral. Tenho vindo a conhecer cada vez melhor o território que se estende do litoral para o interior, num total de cinco concelhos, afeiçoando-me, de forma cada vez mais profunda, a todo o Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Não sei quando é que se ganha o estatuto de “ser de cá” mas já me sinto um “filho da terra” (risos).

 

 

- O que tem esta terra de especial?

 

Aqui há qualidade de vida, acho que são os aromas, as paisagens, o ritmo que se consegue reencontrar entre as vidas apressadas que todos nós acabamos por ter. Lembro-me sempre do momento em que se chega cá, abre-se a porta do carro, sente-se o cheiro da esteva no ar e pensa-se “cheguei a casa”. Acho que não se pode explicar este vínculo melhor do que isto, é visceral, como já disse anteriormente. É uma paixão que tento transmitir no dia-a-dia, no meu trabalho, que tem sido alimentada por um conhecimento cada vez maior desta região e das suas pessoas, pelo significado de cuidar de um pedaço de terra e pela oportunidade de aprender a cultura local: sobre o medronho, sobre a matança do porco, sobre a produção de vinho e aguardente. É um privilégio ser convidado para a casa das pessoas, participar nos seus hábitos, usos e costumes, até porque alguém que vem de onde eu vim normalmente não tem acesso a este tipo de experiências. É incrível descobrir tudo isto em idade adulta, saber dar valor a práticas ancestrais e conseguir transmitir esta ligação à terra a mais pessoas como eu.

 

 

- O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

Há vários temas que agitam as consciências de muitos de nós, sobretudo o debate que mistura o turismo com outras realidades económicas da região, sendo que é fundamental trabalhar para manter a autenticidade do território. Há muitas críticas ao dinamismo turístico de Lisboa e Porto por trazer uma certa descaracterização dos destinos, portanto penso que no Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina devemos batalhar para que nunca se perca a nossa identidade, o que passa por valorizar o que temos, conseguindo atribuir-lhe valor turístico sem destruir esse potencial que reside, exactamente, na genuinidade que ainda existe. Gosto de me ver como um veículo transmissor para que pessoas de fora possam contactar com essa autenticidade e a RV está também a trabalhar nisso mesmo, na junção entre o turismo e a verdadeira cultura local, colaborando com entidades e agentes turísticos, económicos e políticos. 

 

 

Outro aspecto fundamental é o equilíbrio entre o desenvolvimento económico e a preservação da natureza, o que tem que ver com eventuais conflitos de interesses, regimes jurídicos justapostos que é preciso articular, uma questão muito complexa que está na ordem do dia, que importa debater e reflectir. A região está cheia de miúdos, que são a geração do futuro, que poderão cá ficar, que irão ter uma opinião, portanto temos que lhes deixar umas óptimas condições para viver e oportunidades interessantes para trabalhar.

 

por Sara Serrão