A MÁQUINA DO TEMPO

D. Sebastião esperado em Odemira

visita efetuada em 1573


Por:Artur Efigénio

2017-08-22
Entregava-se assim, por falta de descendência, o reino de Portugal às mãos dos Filipes de Espanha

Não…! Não se trata de nenhum anúncio partidário alusivo às eleições autárquica de outubro que, por estes quentes dias, se começam já a fazer sentir, indicando que numa das tão características manhãs de nevoeiro de Odemira, o salvador aparecerá.

 

O que aqui se trata é, efetivamente, a visita que o Rei D. Sebastião, na altura com dezanove anos, efetuou em janeiro de 1573 a Odemira, tendo aqui ficado e pernoitado de dia 15 a 18 de janeiro desse ano.

 

Esta passagem real por Odemira ocorreu aquando de um périplo que o monarca empreendeu pelo Alentejo e Algarve, de 2 de janeiro a 14 de fevereiro “…à fronteira com o mundo muçulmano…”, integrada num novo rumo e estratégia política de regresso à opção marroquina como alternativa aos “fumos da Índia” já em declínio, com partida e chegada a Évora, relatada pelo cronista João Cascão na obra “Relação da Jornada de El-Rei D. Sebastião quando partiu de Évora”.

 

Revela-se pois um texto precioso, tanto de análise historiográfica, como etnográfica, onde é relatado com extremo pormenor as principais passagens da jornada. Aí, no que toca à nossa região, fica-se a saber também algumas curiosidades como, por exemplo, que o Rei saiu de Colos, onde habitava nessa altura um negro de nome “Jalolo”, com muitos conhecimentos antigos, que tinha 132 anos e que seria dos primeiros a ter chegado ao reino.

 

Fica-se a saber ainda que a estrada de 4 léguas entre Colos e Odemira era muito ruim (estará agora melhor?) e que foi à entrada de Odemira que“… houve mais uma folia que foi a melhor que quantos houve em todos estes lugares.”. Sinal de que já aí Odemira era dada à festa.

 

Durante a tarde da sua chegada a Odemira, o jovem Rei foi ver o rio (por pouco tempo, pois começou a chover). E ao serão, após cear, “…esteve um pouco com marmanjos…” e ouviu música. Provavelmente gostaria de estar com marmanjos, pois já na sua chegada, duas belas raparigas de Odemira “…muito bonitas, bem vestidas e concertadas, e bem toucadas, faziam-se raiva uma à outra e também faziam remoelas a El-Rei…”, disputando a atenção de Sebastião, sem que o autor relatasse alguma reação do monarca! Uma coisa é certa, existia um contraste entre as mulheres daqui e as do Algarve, pois, de acordo com o cronista, as de Lagos eram “… todas muito feias, sem haver uma a que se possa pôr outro nome.”.

 

Na sexta-feira, dia 16, o rei ouviu missa logo pela manhã no Mosteiro de S. Francisco (hoje, Igreja de Santa Maria) e partiu pela manhã para uma montaria aos porcos, passando o rio Mira, (“…de maré vazia passa-se a vau, e é doce, de maré cheia salgado, por causa da maré que chega acima.”), numa barca, onde cabiam cinco bestas puxada por cordas presas à margem. 

 

Durante a estadia, El-Rei faria ainda, no dia seguinte, mais outra montaria. Esta, muito detalhada no texto. Desta vez em batéis ao longo do rio e ribeira do Torgal, (“… local aonde chamam o Trogal…”), relatando-se aí uma desavença de caça com o seu Alferes-Mor por causa de um porco. Nessa noite, houve tempo para assistir a um “… Auto de uns castelhanos que aqui vieram ter…”, tendo ainda dado de comer a um doido - Pedro Dias (todas as terras têm um!... pelo menos!), que tinha saído do Hospital e também assistia, mas que imitava tudo o que se dizia e fazia, incomodando a peça.

 

Partiria no dia 18 de janeiro de 1573, Domingo, às 8 da manhã, em direção a Odeceixe “…desviando-se da estrada para ver o mar…”, “… tendo-o gabado muito…”. Entrava então, agora, em terras do Algarve, onde seria recebido com grande pompa em Lagos, continuando o cronista a descrever a restante viagem.

 

D. Sebastião foi um Rei com um fervor religioso exacerbado. Tinha sido criado no culto do heroísmo militar e do carácter quase divino da pessoa real. Tinha a convicção que Portugal seria o salvador da cristandade ameaçada, e ele o instrumento dessa salvação na luta contra os inimigos da fé. Isso consubstanciar-se-ia tragicamente em 1578 quando embarcou para o norte de África com cerca de dezassete mil homens ao encontro do rei de Marrocos, dando-se o malogro de Alcácer Quibir. Metade das suas tropas morreriam, a outra metade seria aprisionada, tendo o próprio Rei sido dado como desaparecido. Entregava-se assim, por falta de descendência, o reino de Portugal às mãos dos Filipes de Espanha que nos governariam por 60 anos, ficando o povo a aguardar pela chegada do “Desejado”. Provavelmente em Odemira, dado o nevoeiro que ocorre nas frias manhãs de inverno!

 

por Artur Efigénio