PALAVRA DE PALHAÇO

Maravilhas do Mundo?

Uma faca de dois gumes


Por:Enano Torres

2017-08-22
Maravilha de verdade seria poder fechar os olhos nos lugares mencionados e ao abri-los tudo tivesse voltado à sua normalidade!

Decorre atualmente um concurso na TV, com chamadas telefónicas de valor acrescentado, para escolher as “7 Maravilhas de Portugal”, na versão “Aldeias”, onde o nosso Concelho de Odemira concorre com Santa Clara-a-Velha e Zambujeira do Mar.

Confesso que não telefonei uma única vez pois sou contra este tipo de concursos. A beleza e as misérias dum lugar não se medem pelo telefone nem pelas reportagens bonitinhas da “caixa tonta”. Pelo contrário medem-se no dia-a-dia perguntando aos residentes (não só no verão). Nem tão pouco fiz alguma coisa para divulgar a votação nas redes sociais pois a última coisa que desejo é que ganhem as nossas aldeias de Odemira, só porque não gostaria de ter uma Costa Alentejana cheia de Turismo massificado como acontece com o nosso vizinho Algarve. Com o Turismo temos que ter cuidado pois é como a Fama, todos a querem mas quando se converte em Grande causa moléstias.

 

Dizem os peritos na matéria que o turismo na nossa Costa (quando digo nossa, é porque sou cidadão desta terra e, além de residir nela oficialmente há quase 15 anos, sinto verdadeiro carinho por este lugar), nos próximos anos, irá ter um aumento gradual do turismo e que daqui a dez anos será ainda maior e em números completamente desproporcionados!

 

Que o Turismo traz dinheiro para nossa zona, é verdade, mas traz também mau estar e rompe com a magia e a calma alentejana pelo que é uma faca de dois gumes a ter em conta e atenção.

 

Os nossos estimados políticos falam publicamente do salto qualitativo que têm efetuado nesta nossa zona, do alto nível de desenvolvimento que nela se vive, do empreendedorismo e emprego como uma realidade, da excelência do Parque Natural, da nossa rica gastronomia, das ressuscitadas campaniças nos jovens, mas escondem por debaixo do tapete a sujidade que nosso concelho tem, o risco iminente dos incêndios, a exploração laboral nas estufas, as vendas das nossas terras para macro empresas estrangeiras, a incerteza de onde e em quê se investem os fundos europeus e nacionais, a falta de senso e juízo na remodelação das nossas vilas e aldeias.

 

Agora vou atirar uma pedra contra o meu próprio telhado mas não gosto de hipocrisias: a nossa Zambujeira do Mar está, infelizmente, horrorosa com as obras que se têm feito. Roubou-se-lhe descaradamente a sua identidade, essência e autenticidade, lavando-lhe a cara com uma contemporaneidade obsoleta que atinge o seu auge quando se passeia pelo centro da aldeia e se encontra em todos os restaurantes uns “aquários” onde se conseguem ver “peixes humanos” a devorar peixes autênticos da nossa costa através de vidros suportados por estruturas cinzentas.

 

Sim, todos os restaurantes são assim, iguaizinhos. Ali pode-se perceber que enganaram os seus proprietários prometendo uma esplanada de graça mas lá se consumou o crime estético da nossa aldeia! Isso sem falar da moderna iluminação, e os inumeráveis paus que colocaram perto da estrada para desafiar a nossa habilidade em esqui aquático antes de ir para a praia de sempre (na qual felizmente os políticos e arquitetos não têm mexido!)

 

IDEM se passa com Milfontes onde se têm metido à bruta múltiplos “bancos”, ou autênticas urnas brancas, sem estética nenhuma e sem qualquer enquadramento em redor da beleza da vila. Têm-se cagado no património histórico e não se preocuparam com a história, respeito e sensibilidade visual do visitante. Veja-se o exemplo da barbacã do ‘castelo’ onde a calçada tem a planta do Forte de S. Clemente de 1604 desenhado no chão agora coberta de caixões brancos quebrando toda a sua beleza. Pessoalmente mete-me raiva, pois dá para ver que quem decidiu colocar aquilo ali nem sequer esteve no lugar do crime!

 

 

A iluminação que nada corresponde à estética da Vila, parece ser Nova mas, assim sendo, era preferível que se tivesse mantido a Vila Velha de Milfontes, pois embora as obras fizessem falta, as opções estéticas e arquitetónicas tanto de uma como de outra ficaram muito aquém do que são as raízes de cada lugar.

 

Os culpados destas “Maravilhosas Cagadas”?

 

Autarquias locais, a tal Polis, arquitetos que decidem sobre um mapa sem ter a ousadia de antes ver, observar e pisar o lugar, políticos com falta de sensibilidade e dinheiro a mais, ou se calhar a culpa é do Benfica... mas o que é óbvio (e a cada noite muitos residentes e turistas comentam-no) é que por vezes antes de mudar as coisas há que pensar mais de duas vezes como vai ficar, respeitando para sempre a idiossincrasia do lugar.

 

Maravilha de verdade seria poder fechar os olhos nos lugares mencionados e ao abri-los tudo tivesse voltado à sua normalidade!

 

PS: agora atirem-me aos leões mas o que sinto não vou ocultar porque amo estes lugares tanto como meu próprio filho.