OPINIÃO PÚBLICA

As mudanças no clima e na vida

É preciso olhar de um modo diferente a gestão da floresta


Por:Fernando Almeida

fotografia: Evan Kirby (em Unsplash)
2017-08-22
As alterações climáticas já deixaram de ser uma teoria discutível, ou um problema que nos pode vir a afetar em momento incerto do futuro

As alterações climáticas já deixaram de ser uma teoria discutível, ou um problema que nos pode vir a afetar em momento incerto do futuro. As alterações climáticas são uma realidade hoje, com milhões de refugiados climáticos pelo mundo, com vastas extensões desertificadas e inabitáveis, com fenómenos meteorológicos extremos a fazer o quotidiano das notícias. Hoje, pensar no futuro é pensar nas mudanças que a natureza vai continuar a sofrer e na forma como cada região, cada comunidade, e cada um de nós se pode e deve preparar para as enfrentar. 

 

Este problema tem ainda assim duas vertentes fundamentais: a primeira é evidentemente a necessidade de alterar comportamentos, no sentido de reduzir ao máximo as emissões de gases de efeito de estufa, como forma de evitar a subida da temperatura do planeta e todas as consequências que ela acarreta; a segunda passa por definir estratégias para lidar com o problema que existe, e seguramente se vai agravar cada vez mais, à escala local.

 

Em relação à inquestionável necessidade de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, apesar das “trampices” que ainda se vão manifestando, a generalidade dos responsáveis políticos mundiais, com a China à cabeça, já reafirmaram a necessidade e o seu interesse em reduzir as emissões de dióxido de carbono. Mas mais que os dirigentes dos países, tem sido também os dirigentes de muitas das grandes empresas a garantir que vão trabalhar no sentido de reduzir os consumos de energia e de procurar um consumo de energia cada vez mais baseado em fontes renováveis. Não será portanto por causa de um qualquer presidente irresponsável e retrógrado que as empresas com visão deixarão de se modernizar e de se tornar mais competitivas. Assim, o sucesso das empresas e a proteção ao ambiente acabam (neste particular das emissões de dióxido de carbono) por ter interesses coincidentes, o que é uma boa notícia.

 

Mas as consequências das alterações climáticas passarão no sul de Portugal, segundo alguns estudos, pela redução da precipitação em especial na primavera (menos quantidade de precipitação e mais irregular em menos dias por ano). Outra alteração, esta já claramente visível, é o aumento de fenómenos climáticos extremos, como vagas de calor, períodos de seca, cheias súbitas, etc.. Ter menos água, num tempo em que o consumo do precioso líquido aumenta constantemente por efeito das mudanças no estilo de vida e na agricultura, é um outro desafio de grande escala, mas que desta vez terá que ser resolvido por nós mesmos, e não por qualquer potência mundial. 

 

Neste quadro temos que repensar muita coisa, desde a construção das habitações, que deverão ser mais sustentáveis do ponto de vista energético, aos consumos de água nas famílias e empresas, aos cuidados na conservação das redes públicas de distribuição de água, à eficácia nos sistemas de rega…

 

Mas há um tema que é absolutamente incontornável quando se fala de falta de água, mas que, embora se fale anualmente durante a época dos incêndios, volta a entrar no esquecimento às primeiras chuvas: falo da floresta que temos, e que tem sido cada vez mais preenchida com vastas plantações de eucaliptos. 

 

O eucalipto é uma espécie que consome quantidades enormes de água, e é o principal fator que impede que a água que cai do céu chegue às nascentes das serras e dos campos onde está plantado. É claro que se esta espécie fosse utilizada em pequenas manchas, o problema seria pouco significativo. Mas entre nós os eucaliptais estendem-se por vezes em áreas contínuas ao longo de quilómetros, e as nascentes e ribeiros secam ou enfraquecem muito fortemente. 

 

Neste tempo de mudanças do clima e do modo de vida das pessoas, é preciso que o território seja ordenado de um modo diferente e finalmente se comece a olhar a gestão da floresta como elemento fundamental do ordenamento do território. Nesta matéria é preciso que por uma vez se coloquem os interesses dos portugueses acima dos interesses de grupos económicos poderosos. Mas pergunto-me: haverá coragem para tocar nos interesses das grandes empresas? Ou tudo ficará na mesma, fingindo que não se percebe que na origem da falta de água e dos fogos incontroláveis está a péssima floresta que temos?