MIRADOIRO

Amália, Inês, Calhau e Surripas

Partiram, mas ficaram


Por:António Quaresma

2017-09-26
"Sugiro que Amália e seus companheiros fiquem também lembrados em artérias do mais selecto bairro de Milfontes, cujos moradores, com razão, recentemente recusaram nomes menos ilustres"

Terminou, no meio de êxtase geral, a obra de dragagem de um pedaço do estuário do rio Mira e a competente deposição de areia na margem, realizando-se assim um sonho centenário da população milfontense. A obra foi acompanhada, pari passu, pelos olhos de circunstantes locais, entre estes alguns dos mais brilhantes cérebros de Milfontes, cujos eruditos comentários deixavam boquiabertos os de menor argúcia.

 

Neste arrumar de botas, isto é, de equipamento, não é possível deixar de exaltar o quarteto marinheiro – Amália Mota, Inês Mota, Calhau e Surripas – que deambulou, azafamado, durante estes dias de glória e algum cheiro a gasóleo, na área terminal do estuário do rio Mira, deixando um rio mais “limpo” e uma nova, extensa e edénica praia, deixando, enfim, um povo contente.

 

Amália, mais concentrada, com os pés assentes na terra, isto é, na areia, sorvia avidamente, com o seu longo e negro beiço, o macio sedimento, umas vezes mais claro, outras mais escuro; chegou a mastigar uma ponta de xisto, que súbita e surpreendentemente se intrometeu. Ninguém diria que era a mesma que, por um extenso e serpenteante tubo, regurgitava o sedimento sobre as margens esqueléticas, em jorros líquidos e fulgurantes, vigiados, de perto, por atentas e vorazes gaivotas.

 

Já Inês, muito mais mexida, buliçosa, ia à frente, voltava atrás, rodeava Amália, encostava-se a ela, agarrava-lhe na manga, segredava-lhe mensagens, talvez os antigos mistérios do Mira. Não me admiraria se, entre estes, estivesse o da Moura Encantada. Inês era a sombra de Amália, que, sem a sua presença diligente, se quedaria, pressentimos, em absoluta inacção.

 

Calhau era um caso à parte. De pequena estatura e perfil rude, não era dotado do complexo tecnológico dos anteriores. É que Calhau era um ser generalista: vigiava, fazia recados, transportava equipas, de colete e capacete amarelos, lançava-se em veloz perseguição de imprudentes intrusos. Dir-se-ia que parecia de ferro se, malgrado o nome, não fosse efectivamente de ferro. O tá-tá-tá mecânico e ritmado do seu pouco rotativo motor a fuel anunciava-o ao longe e alegrava as manhãs serenas e límpidas do estuário, trazendo à memória antigos sons do rio. Confesso que, dos quatro, era o meu preferido. 

 

Deixei o Surribas para o fim, talvez porque, entre todos, era o mais discreto, chegando ao ponto de, em Milfontes, ninguém, sequer, ter reparado na sua existência. Injustiça, porque Surribas, ainda que não escavasse, tinha a capacidade de expor os segredos do fundo do rio, que os seus tripulantes, dobrados e concentrados, perscrutavam através de um visor. 

 

Pois Amália (Mota), Inês (Mota), Calhau e Surribas partiram. Partiram, mas ficaram. Quer dizer, ficaram no coração das gentes. Nesta altura em que os nomes das ruas conhecem renovação, sugiro que Amália e seus companheiros fiquem também lembrados em artérias do mais selecto bairro de Milfontes, cujos moradores, com razão, recentemente recusaram nomes menos ilustres.