DE QUEM É O OLHAR

Corrupção e o seu parentesco

É importante ficarmos atentos


Por:Monika Dresing

2017-09-26
A corrupção em todas as suas vertentes não existe apenas ao nível nacional ou global, tende surgir em todo o lado, no distrito, no concelho, na freguesia

Nos últimos dez/quinze anos entraram nas conversas do dia-a-dia nomes e palavras às vezes curiosas, por exemplo “Face Oculta”, “Portucale”, Operação Furacão”, “Monte Branco”, “Operação Labirinto”, “Operação Marquês”, e assim por diante. Lembram-se? Trata-se de processos jurídicos extremamente complexos nos quais existem várias das seguintes suspeitas: corrupção activa e/ou passiva, branqueamento de capitais, tráfico de influências, abuso de poder, falsificação de documentos, fuga ao fisco e muito mais. 

 

O denominador comum de todos estes processos, ou melhor os denominadores comuns, são as enormes quantias de dinheiro que estão em jogo, até milhares de milhões de euros, bem como a quase impossibilidade de comprovar quaisquer actos ilícitos. Os sistemas existentes para ocultar os caminhos do dinheiro são cada vez mais sofisticados, usam-se paraísos fiscais, escritórios fictícios offshore e testas-de-ferro que por uma fatia do bolo enorme estão disponíveis para fazer quaisquer afirmações.

 

Durante a minha actividade profissional, como tradutora, tive a oportunidade de acompanhar de perto uma parte dum outro grande processo mediático, o processo dos submarinos. Apercebi-me logo das enormes dificuldades que os investigadores enfrentam quando tentam desvendar o que realmente aconteceu. É como um puzzle de 10.000 peças em que as peças decisivas estão escondidas.

 

Regra geral em todos estes megaprocessos, de uma ou outra forma estão sempre envolvidas pessoas da esfera política, promovendo leis que favorecem certas pessoas, abrindo excepções, falsificando concursos, aceitando luvas, etc. E isto tem duas consequências devastadoras para a própria democracia. Por um lado é o nosso dinheiro que eventualmente seja “investido” em manobras sujas e/ou que perdemos por causa das decisões tomadas. E como se viu, podem ser montantes incríveis. Só o dinheiro que o Estado, ou seja, todos nós pagámos pelos bancos falidos em consequência de actos ilícitos (BPN, BES …) ultrapassa vários milhares de milhões de euros, dinheiro que falta no orçamento do estado. Por outro lado, pior ainda, é a nossa vontade política e democrática expressa nas eleições que é traída e vendida para que alguns obtenham grandes lucros. É o fim da democracia. Já ouvi alguém dizer que em certas situações, noutros países em que a corrupção é ainda mais comum, devia ceder-se à pressão pagando luvas quando, por exemplo, está em causa a perda de postos de trabalho. Na minha opinião é uma atitude totalmente errada. O que se devia fazer é tornar pública qualquer tentativa de actos ilícitos deste tipo porque cada cedência é como a pequena fissura que no fim leva ao desmoronamento da barragem, neste caso a própria democracia.

 

Claro que a corrupção em todas as suas vertentes não existe apenas ao nível nacional ou global, tende surgir em todo o lado, no distrito, no concelho, na freguesia. Os valores em causa podem ser mais pequenos, mas o perigo para a democracia não diminui. É importante ficarmos atentos.

 

Para se ficar com uma ideia do problema da corrupção e de todas as suas implicações vale a pena ler um livro que foi publicado em Maio deste ano: “O Juiz” de Inês David Bastos e Raquel Lito, sobre a vida do juiz Carlos Alexandre que como juiz no Tribunal Central de Instrução Criminal tem a seu cargo grande parte dos megaprocessos mediáticos. Uma vida difícil.