A MÁQUINA DO TEMPO

Chegada da luz elétrica

Hoje em dia, exige-se muito mais.


Por:Artur Efigénio

2017-09-26
Não se compreende como podemos estar satisfeitos e tranquilos com o que temos

Acabo de ler, trazido pela mão do meu sogro, que viveu a situação e contribuiu para que ela acontecesse, um recorte de uma notícia datada de agosto de 1967 na qual se descreve a inauguração da luz elétrica em São Teotónio e Zambujeira. Foi há 50 anos.

 

A esta inauguração, de acordo com a notícia, estiveram presentes uma série de individualidades: “…Secretário de Estado da Indústria, Governador civil de Beja, comandante da PSP, diretor da PIDE, comandante da secção da GNR de Aljustrel,…”. Foi organizado um banquete na Sociedade Recreativa de São Teotónio, onde, às 21h foi inaugurada a luz. Deve ter sido, à época, um verdadeiro acontecimento para até o diretor da PIDE ter cá estado!

 

Este era um tempo de misérias, de privações e de grande afastamento da região do desenvolvimento e do que ele proporcionava. Poucas estradas e poucos automóveis existiam, não havia saneamento básico, a água canalizada era uma miragem, a educação era só para os mais abastados, existia fome, alguns ainda andavam descalços e a taxa de mortalidade infantil era monstruosa.

 

Agora imaginem ou relembrem o que era viver nesse tempo. Sem luz elétrica, sem comunicações, sem água canalizada. Jantar à luz de candeeiros a petróleo, não ter um simples frigorífico, não ter WC, não ter como ir ao médico, não ter televisão. Hoje parece-nos quase surreal e de um tempo longínquo.

 

Mas vendo bem, não há assim tanto tempo que isto aconteceu. Nestes anos, como basicamente até agora, fez-se na região, somente aquilo que era elementar ser feito: dar resposta às necessidades básicas da população. 

 

Hoje em dia, exige-se muito mais. Esta é uma região que continua a viver afastada do grande desenvolvimento económico. Estamos distantes e isolados de tudo. Continuamos a não ter uma via rápida de acesso. Morremos porque estamos longe de um hospital. Não dispomos de um polo industrial que atraia investimentos e os nossos filhos poucas perspetivas têm de emprego qualificado na região.

 

Não se compreende como podemos estar satisfeitos e tranquilos com o que temos. Atualmente só nos podemos comparar com as regiões do interior do país, e só com as menos desenvolvidas, pois muitas já fizeram o trabalho de casa e estão em franca expansão. Somos a única região do litoral português, de Caminha a Vila Real de Santo António com um índice de desenvolvimento económico dos mais baixos do país.

 

Não é só com a agricultura, que agora começa a dar um contributo extraordinário na economia da região, nem é só com o turismo de sol e praia, ancorado em casas rurais, rotas para caminhantes e restaurantes que devemos centrar o desenvolvimento económico de uma região. Temos de ser mais ambiciosos e até visionários. Olhemos para as novas empresas tecnológicas e da Web que, se tiverem condições, podem ser convidadas a sediar-se cá. Criemos as condições práticas para que a indústria se possa cá estabelecer. Ajudemos mais a agricultura moderna. Olhemos para os recursos energéticos renováveis e para a forma de serem aproveitados. Olhemos para as universidades e politécnicos que podem cá estabelecer polos para investigação. Foquemo-nos no turismo de excelência. Olhemos para modalidades desportivas cujas condições naturais e climáticas por cá são excelentes para a sua prática. Desenvolvamos as atividades ligadas à náutica, ao mar, à floresta e ao ar livre. Enfim, olhemos para o que temos e estudemos soluções inovadoras e criativas compatíveis com as restrições ambientais.

 

É isto que se espera que quem hoje tem ou venha a ter responsabilidades na administração e gestão de um território faça a partir de agora. Que crie as condições e o ambiente propício ao desenvolvimento económico, que seja um líder proativo. Que seja principalmente um congregador e um facilitador que abra portas a empresas, à inovação e a novos negócios. Já não são as necessidades básicas da população a prioridade. A prioridade é hoje a fixação de empresas e o seu crescimento económico, motor do desenvolvimento. 

 

Termine-se com as guerrilhas de umbigo, com as lutas partidárias e com as vaidades entre Parque Natural – Empresários - Autarquia – Associações - População. Seria melhor do que encontrarem-se de costas voltadas ou acusarem-se mutuamente pelas incapacidades. Mas são os nossos filhos que daqui a outros 50 anos vão cá estar. Não a inaugurar chegadas da luz elétrica, mas a trabalhar e a usufruir, espero eu, daquilo que quem tem responsabilidades fizer hoje pelo desenvolvimento da região. E com o que temos, pode-se fazer muitíssimo mais!