OPINIÃO PÚBLICA

O brexit e nós mesmos

Pensem nisso


Por:Fernando Almeida

Michal Parzuchowski - Unsplash
2017-09-26
Quando não apoiamos as pessoas mais capazes por qualquer destes motivos, e no seu lugar colocamos alguém menos capaz, estamos a dar vantagem a essa pessoa, mas a prejudicar todo o nosso povo

Parece que desde sempre os dirigentes mais lúcidos e inteligentes dos povos tentaram cativar para as suas cortes os estrangeiros, sabendo que outras formas de ver, outros saberes, outros pensamentos, são fator de enriquecimento e progresso. É uma atitude sábia essa, de juntar saberes provenientes de locais diversos, sem medo que o que vem de fora ensine o autóctone, e procurando mesmo nessa aprendizagem formas de crescimento e progresso económico, social e cultural. Há um dito alentejano que de algum modo consagra esta ideia enquanto conhecimento coletivo. Diz-se por aqui que “todos juntos é que sabemos tudo”. Raramente os dirigentes, mesmo que velhos e sábios, conseguem ser mais sábios que os povos velhos e sábios, e o nosso povo, possuidor de cultura milenar acumulou saberes notáveis que às vezes valeria a pena respeitar mais: “todos juntos…”

 

Os ingleses atuais, não sendo já o império de outros tempos, não perderam ainda a sua capacidade de compreender o mundo e dele tirar partido, pelo que não é de esperar que venham a criar dificuldades à vida dos estrangeiros que por lá se destacam pelas suas boas qualidades. De resto, como se sabe, têm promovido incansavelmente a sua cultura, atraído às suas universidades estrangeiros provenientes de todos os cantos do mundo, na esperança que os melhores por lá fiquem e contribuam para o engrandecimento e sucesso do país. E é assim que pensam.

 

Por exemplo, para resolver o seu problema do Lloyds (banco que estava na falência em 2008 e que teve que ser intervencionado pelo governo britânico), perceberam que a melhor opção era entregar a sua direção a um estrangeiro, no caso ao português António Horta-Osório. A aposta mostrou-se sábia, e passados poucos anos o banco voltou a ser reprivatizado com grossos lucros para o estado e com uma situação estável e sólida. Pensemos um pouco: será que entre os 65 milhões de habitantes do Reino Unido não haveria mais ninguém capaz de dirigir um banco? É claro que havia, mas o critério fundamental não foi ser ou não ser britânico, mas antes a capacidade de resolver um problema e de produzir um benefício para a comunidade. 

 

Tomemos outro exemplo: não haverá nenhum treinador de futebol entre os mesmos 65 milhões, de forma que tenham que vir buscar o nosso José Mourinho? Mais uma vez o critério não é ser ou não ser “súbdito de sua majestade”, mas antes a competência e a capacidade de obter bons resultados. Não importa se é católico, protestante ou muçulmano (como se sabe o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, é filho de imigrantes paquistaneses) ou se tem ou não qualquer outra religião. O critério é a sua capacidade de trazer mais-valias à comunidade, e não a de atribuir um qualquer cargo ou benefício a alguém por pertencer a qualquer tipo de clã. 

 

Os ingleses, como já demonstraram ser inteligentes e saber que para eles é vantajoso contar com o contributo dos melhores estrangeiros que os procuram, por certo não vão aproveitar o “brexit” para expulsar muitos dos seus melhores cérebros, nem sequer os mais competentes trabalhadores estrangeiros que por lá fazem vida. Sabem bem que todos eles são peças fundamentais para o sucesso e prosperidade do país e que a sua falta constituiria um problema insolúvel para largos setores do estado e da sociedade. Por isso não temam que o estado britânico persiga os vossos amigos emigrados no Reino Unido, se eles são cidadãos integrados e importantes para a comunidade. O mesmo já não se poderá dizer sobre a atitude dos 65 milhões de nacionais daquele país porque, como é natural, há gente de todos os tipos e para todos os gostos…

 

Também temos entre nós cada vez mais estrangeiros, uns como turistas, como se sabe Portugal está na moda (ou finalmente descobriram que esta é realmente uma grande terra com um grande povo?), outros que nos procuram para viver e por cá criar raízes. Quando falo em estrangeiros agora, não me refiro apenas aos que nasceram em outros países, mas também aos que vieram de outras regiões do nosso país, e que são às vezes também tratados como estrangeiros. Todos eles constituem, como qualquer pessoa saberá, uma grande mais-valia para o nosso desenvolvimento e progresso, e temos que os aproveitar o melhor possível, aprendendo com eles e apoiando as suas iniciativas que venham a contribuir para um melhor futuro dos filhos de todos nós.

 

Agora pensem comigo, não vá eu estar a fazer alguma confusão: se em vez do nosso Horta-Osório, tivesse sido nomeado um inglês incapaz para dirigir o Lloyds, havia um inglês a ganhar, mas perderiam os outros 65 milhões, não vos parece? Também por aqui os critérios que levam a acarinhar qualquer iniciativa não podem passar pela terra de origem, pela cor da pele, pela religião, pelo partido político, pelo apelido de família… Quando não apoiamos as pessoas mais capazes por qualquer destes motivos, e no seu lugar colocamos alguém menos capaz, estamos a dar vantagem a essa pessoa, mas a prejudicar todo o nosso povo. Pensem nisso.