EDITORIAL

O Valor intangível da consciência regional

A Passagem


Por:Pedro Pinto Leite

Ilustração: Ema Falcão
2017-11-05
Quando se investem recursos no desenvolvimento coletivo, com o coração despejado da necessidade de reconhecimento, o objetivo deixa de ser de curto prazo

Passagem.

 

a) Outro dia, num dos programas “Prós e Contras”, com o tema “Portugal visto de fora”, numa tentativa de melhor compreender a identidade portuguesa, Fátima Campos Ferreira pedia a um empresário francês, Jacques Bec, designer a residir no Porto há vinte e três anos, que concretizasse, do seu ponto de vista, uma característica positiva e outra negativa acerca dos portugueses.

 

Jacques, sem hesitações, começou por falar na poesia que existe na língua portuguesa, transversal a todas as classes sociais.

 

Como característica positiva destacou a gentileza e o brio pela qualidade do trabalho individual.

 

A referência negativa foi para a demasiada submissão do português à modernidade, sem juízo crítico, isto é, para Jacques o português prefere destruir o património de interesse e de qualidade existente, em nome da modernidade, “esquecendo-se de que, hoje, ser verdadeiramente moderno é viver com o passado”.

 

Referiu a destruição de numerosas casas de valor patrimonial da cidade do Porto que deram lugar a prédios ditos modernos.

 

Como exemplo imediato referiu a demolição da Estação Terminal dos Elétricos do Porto, “um prédio lindíssimo” que fazia parte da história da cidade que desapareceu “estupidamente” para dar lugar à Casa da Música.

 

O Francês não põe em questão a necessidade de um equipamento como a Casa da Música e muito menos a sua qualidade arquitetónica mas refere que haveria, com certeza, outro espaço onde colocá-lo e preservar, desse modo, o edificado existente.

 

Basicamente referiu como grande defeito dos portugueses a destruição de um passado que poderia ser legado às futuras gerações.

 

Há espaço para tudo e não há necessidade de modernizar o que já é belo, quer seja património edificado quer seja património natural.

 

b) Numa conversa de amigos, a propósito das intervenções urbanas e não só, no concelho de Odemira, discutia-se acerca do conceito de identidade regional.

 

A conversa fluiu e os conceitos foram vários mas aqui fica um resumo do que de mais relevante se abordou:

 

A preservação forte da identidade regional proporciona ao ser humano uma extraordinária experiência de gratidão para com todos os seus antecessores.

 

Não há necessidade de sentimentos conservacionistas e saudosistas mas é necessária uma consciência do regional, a sua compreensão e o sentir a experiência do conjunto dos seus valores, sabedoria e cultura específicos.

 

Essa consciência proporciona um sentido estratégico orientador das atividades e do investimento.

 

Quando se investem recursos no desenvolvimento coletivo, com o coração despejado da necessidade de reconhecimento, o objetivo deixa de ser de curto prazo passando as pessoas a ser o propósito e o destino desses investimentos.

 

É possível ser-se alentejano e do mundo inteiro e é possível sonhar e concretizar um conceito de vida diferenciado. Basta soltar a criatividade!

 

O desejável é que, para quem visite uma região, Odemira por exemplo, sinta de forma cada vez mais intensa o seu valor único na simples presença da sua gente. Esse sentir não pode ser interpretado de uma forma “pitoresca”.

 

Quem visite e viva nessa região deverá atribuir-lhe um valor muito para além da sua diferenciação paisagística e cultural. É necessário trabalhar a sua consciência regional, partilhá-la numa rede colaborativa e desenvolver a FRB (Felicidade Regional Bruta) em vez de, simplesmente, se aplicar um orçamento.

 

Em política não é comum considerar-se a consciência regional como um elemento fundamental da sua entidade.

 

por Pedro Pinto Leite