ENCONTREI EM ODEMIRA

A sensação de pertença

Por Sara Serrão

2017-11-05
Este mês encontrei em Odemira Bruno Cabecinha, 43 anos, advogado

- Qual a sua ligação a este território?

A minha família é de cá, de Vila Nova de Milfontes, pelo menos há quatro ou cinco gerações. O meu bisavô saiu daqui para combater na Primeira Guerra Mundial e voltou, magrinho e desgraçado. O meu pai nasceu cá, ao pé da Igreja, e o meu tio em Odemira. Eu só não estou cá desde pequeno porque a minha mãe não me deixou porque vinha de férias e queria sempre ficar; todos os Verões era a mesma lengalenga, eu a chorar ao telefone: “Mãe! Quero cá ficar!”. Portanto levei a minha vida a pensar quando poderia viver aqui e finalmente aconteceu, estou cá há seis anos. No início foi difícil para a minha mulher, a Sofia, porque eu tinha aqui todos os meus amigos e família e ela não tinha ninguém, mas entretanto já se enturmou, assim como a nossa filha de 12 anos que também está bem na escola e até a nossa filha pequenina já nasceu cá. Tem sido maravilhoso.

 

- O que tem esta terra de especial?

São tantas coisas. Podia cair naqueles lugares comuns sobre o rio ou a praia que são espectaculares, a água é limpa, a comida é boa, o ar é puro, mas para mim é uma questão de família, de me sentir ligado às pessoas. Claro que é toda a envolvência, viver rodeado de natureza, sair de casa e único trânsito que se apanha é de uma ovelhas a passar; isso é tudo óptimo mas também existe noutros sítios, o que tenho aqui é uma sensação de pertença, de andar na rua e falar a toda a gente, é isso que sempre tive com esta terra.

 

- O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

Acho que temos que ter muito cuidado com o rumo que a região está a tomar. O turismo, por exemplo, é tudo muito bonito mas conhecemos outros lugares no país em que também houve um boom turístico, as pessoas deslumbraram-se no mau sentido, perderam o rumo e deixaram que o seu destino se descaracterizasse. Aquilo que os turistas hoje procuram é o turismo de natureza e, se não tivermos cuidado em manter o que temos, qualquer dia já não existe. Espero que aqueles grandes condomínios à beira do rio Mira de que se ouve falar há trinta anos não avancem, são coisas com uma dimensão que não interessa nem tem lugar aqui na região. Não é esse o caminho, devemos preservar a identidade que sempre tivemos. Há cerca de vinte anos, a “explosão” da construção civil ia dando cabo disto e vimos várias vilas da região ficarem descaracterizadas. Hoje em dia não só há outra forma de olhar para as coisas como parece já não haver alguma corrupção que houve em tempos. Foram feitas coisas que não são bonitas, aliás, Vila Nova de Milfontes, especificamente, tem crescido incorporando zonas e aldeias com construção ilegal que aparenta estar completamente fora de controlo e fiscalização e aí espero que seja feita alguma coisa brevemente. A questão do desenvolvimento agrícola é outra preocupação: no outro dia a associação desse sector dizia-me que queria apostar na comunicação, uma vez que a agricultura intensiva tem uma imagem negativa, e, de facto, têm um grande trabalho a fazer nesse campo porque embora me afirmem que a única poluição é visual, confesso que não sei se é e, mesmo que seja, é escandalosa. Acredito que tem que se controlar o fenómeno doutra forma, precisamos de investimento, sim, mas esse investimento em particular só contrata mão-de-obra de fora; e mesmo que digam que esses trabalhadores contribuem para a economia local, acho que o contributo é irrisório. Por outro lado, também a situação do caravanismo está absolutamente descontrolada e tem que ser regulamentada com muita urgência porque os caravanistas não deixam cá um tostão, degradam a paisagem, ocupam indevidamente os estacionamentos das praias, deixam lixo de todo o género por todo o lado: praias, parques de estacionamento, estradas, bermas, já para não falar dos locais ocupados por esses veículos, que cheiram mal porque as águas sujas das caravanas são despejadas para o chão enquanto circulam! Esses viajantes, que até vêm do centro e norte da Europa, onde são muito cumpridores, pensam que aqui não há regras e só não estacionam na areia da praia porque não conseguem lá chegar! Nós que vivemos cá, pagamos cá os nossos impostos, melhoramos a região para acolhermos toda a gente, temos depois aqui esses caravanistas que degradam tudo o que tentamos a muito custo preservar. Acho que os autarcas locais têm que tomar providências com muita urgência, independentemente da lei que está a ser preparada há tanto tempo. Não é justo, não é tolerável e chegou ao limite. A própria Rota Vicentina já faz alertas para o cuidado a ter com o lixo e mesmo assim há caminhantes da Rota Vicentina que deixam para trás os seus detritos. Finalmente, gostava que não se quisesse fazer desta região uma “meca” do surf, tipo Ericeira, Peniche ou Sagres, com centenas de pessoas transportadas em autocarros, largadas com pranchas por todo o lado; é uma pretensão bacoca, este território não tem sequer infra-estruturas para receber tanta gente. Não permitam o descontrolo em nome de interesses gananciosos, nem no turismo nem na agricultura e floresta, promovam a protecção da natureza e da identidade local. O encanto da região de Odemira é a sua tranquilidade, não a estraguem.

 

#encontreiemodemira

 

“Encontrei em Odemira...” é uma rubrica do Mercúrio, (humildemente) inspirada no blogue “Humans of New York”, que pretendia na sua origem ser um “catálogo” exaustivo dos habitantes de Nova Iorque, com pequenos apontamentos das suas vidas, e que acabou por se tornar um projecto vibrante, abrangendo dezenas de países, com milhões de seguidores nas redes sociais e inúmeras causas filantrópicas. À nossa escala, esta nova secção tem o objectivo único de mostrar aos leitores a diversidade humana que habita hoje em Odemira, entre autóctones que sempre aqui viveram, forasteiros que escolheram este território para viver e até mesmo aqueles que vieram aqui parar quase ao acaso. A cada mês vamos encontrar habitantes de Odemira e colocar-lhes três questões:

- Qual a sua ligação a este território?

- O que tem esta terra de especial?

- O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

por Sara Serrão