HOMENAGEM

Joaquim Maurício da Conceição Rosa

Uma cepa que já não existe

fotografia gentilmente cedida por Cristina Teles, filha de Joaquim Maurício
2017-11-05
O “Grande Presidente” 1933 - 2017

Conheci Joaquim Maurício da Conceição Rosa em 1998. Nessa altura era ele o “Grande Presidente”, como alguns de nós lhe chamávamos (pela sua estatura física e também empenho), do Vale de Santiago.

 

Eu tinha começado a trabalhar no Município de Odemira e quis tomar conhecimento do território pela mão dos presidentes de junta de então. Joaquim Maurício mostrou-me com orgulho o território da sua freguesia, falou-me da sua história, do seu património e das suas gentes. Desde aí ganhou o meu enorme respeito e foi crescendo entre nós uma relação que se tornaria de amizade.

 

Era profundo conhecedor da história local, nomeadamente dos tempos da 1ª Republica, período durante o qual em Vale de Santiago aconteceram greves e rebeliões (1918), e foi protagonista, ele próprio, da história recente do Vale pós - 25 de Abril.

 

Nascido em 1933, Joaquim Maurício estava na Alemanha quando se deu o 25 de Abril e voltou imediatamente ao Vale de Santiago para fazer parte da história da sua terra, para participar no sonho da construção de uma nova sociedade em liberdade e democracia. 

 

Participou em acções da Reforma Agrária e, logo em 1976, fez parte da Comissão de Moradores do Vale de Santiago e foi um dos membros da Junta de Freguesia, da qual viria a ser presidente de 1985 a 2001. O “Grande Presidente” trabalhou com dedicação e entusiasmo pelo desenvolvimento da sua terra e pela melhoria das condições de vida das populações.

 

Em 2016, no âmbito das comemorações dos 40 anos do Poder Local, Joaquim Maurício foi homenageado pelo Município de Odemira pela sua contribuição relevante para a construção e consolidação do poder local democrático.

 

O seu orgulho na sua terra levava-o a fazer miniaturas de elementos da vida rural: alfaias agrícolas, carros de tracção animal, animais… Como artesão, que também gostava de ser, fez parte desde o primeiro momento da CACO – Associação de Artesãos do Concelho de Odemira, entidade que sempre ajudou dentro das suas possibilidades tendo até, no fim da sua vida, decidido oferecer parte do seu espólio a esta associação.

 

Joaquim Maurício guardou, durante décadas, uma peça que veio a entregar ao Município de Odemira em 1999, conhecida como a porta do Vale de Santiago.

 

Esta porta de um celeiro de trigo, que foi assaltado pela população do Vale nas revoltas de 1917, é hoje um símbolo do poder e da fome, das lutas dos camponeses e até de um momento em que este concelho participou na história nacional pois este episódio terá estado no cerne da posterior morte do Presidente Sidónio Pais em Lisboa. Joaquim Maurício sabia do poder simbólico desta porta, guardou-a e entregou-a ao Município com o propósito de que viesse a integrar o futuro Museu Municipal.

 

Joaquim Maurício ambicionava a existência de um museu para este território. Ele tinha a noção exacta da importância da memória na sociedade e, como homem orgulhoso das suas raízes e com olhos postos no futuro, estava disposto a participar. Foi um homem sempre disponível para trabalhar pelo bem público, pondo as necessidades das populações em primeiro plano.

 

Uma cepa que já não existe. Humilde para trabalhar, orgulhoso das suas raízes e das suas convicções. Um homem de princípios que deixa saudade a todos quantos o conheceram.

 

Aprendi muito com ele. Jamais esquecerei o seu empenho e dedicação, a sua seriedade. Sabia que era escutado e aproveitava para defender os ideais em que acreditava – um homem íntegro, um grande homem, o Grande Presidente Maurício.

 

Até sempre.

 

por Ana Tendeiro