DE QUEM É O OLHAR

A democracia nas nossas mãos

A vida política e democrática tem muitas vertentes


Por:Monika Dresing

fotografia: Monika_rawpixel_Unsplash
2017-11-05
Temos sempre a possibilidade de nos associar uns aos outros, de lutar por um objectivo concreto fora do sistema político , com fantasia, espírito de acção e alegria

Já noutras alturas escrevi sobre a importância dos movimentos cívicos, das iniciativas de cidadania, dos grupos de acção. Qualquer que seja a denominação, na maior parte das vezes trata-se de movimentos em que se reúnem pessoas com a vontade de defender um interesse concreto comum. Na nossa região, um exemplo recente tem sido a luta contra a prospecção e exploração de petróleo.

 

Por regra, estes movimentos são apartidários, quer dizer, não são representantes ou a porta-voz dum partido político, mas sim uma associação de pessoas com um objectivo concreto, pessoas que possam ter opiniões ideológicas totalmente diferentes. Assim podem nascer iniciativas fortes que abrangem uma grande parte da população.

 

Na Alemanha, este tipo de movimentos começou a ter peso no princípio da década de setenta. Já antes tinha havido grandes manifestações: pela paz, contra as armas nucleares, contra o estado de emergência, contra a guerra do Vietname, isto é, manifestações com temáticas gerais. Nos anos setenta, no entanto, nasceu uma nova qualidade de movimentos, movimentos que tinham um objectivo concreto ligado a um local concreto. Naquela altura, o governo (os governos de vários estados federais) e as companhias fornecedores de energia planearam a construção de muitas centrais nucleares. A energia nuclear foi “vendida” às populações como energia limpa, barata, inesgotável, portanto, a solução ideal para o futuro.

 

Já naquela altura havia pessoas, cientistas e não só, que tentavam chamar a atenção para o lado escuro da “energia limpa”, para o perigo das radiações em caso de acidentes e para o problema do lixo radioactivo que iria “sobreviver” durante milhares de anos. Com estas pessoas nasceu o primeiro grande movimento contra as centrais nucleares, em concreto, contra o plano de se construir uma central nuclear em Wyhl, perto da Floresta Negra, numa zona onde se produz vinho de excelente qualidade. Neste movimento e nas iniciativas seguintes contra outras centrais nucleares participaram pessoas de todas as camadas sociais: estudantes, agricultores, cientistas, trabalhadores, professores, reformados, domésticas… Em todo o lado tornou-se conhecido e presente o símbolo “Atomkraft? Nein danke” (Energia nuclear? Não obrigado) que pouco antes tinha sido esboçado na Dinamarca. Os políticos e as empresas de electricidade esforçaram-se por convencer as populações dos seus planos – às vezes com manobras ridículas, p.ex. desligando a electricidade durante um importante jogo de futebol para mostrar a escassez da energia – tudo em vão, o movimento ficou cada vez mais forte. No fim, os custos da energia nuclear, tanto em dinheiro pelas medidas adicionais de segurança como em perda de votos nas eleições, subiram de tal forma que os projectos para a construção de novas centrais nucleares foram cancelados.

 

Destes movimentos cívicos nasceu depois o partido “Os Verdes” que a partir dos anos oitenta entrou quase sempre nos parlamentos alemães, sendo actualmente o partido mais votado no estado de Baden-Württemberg, estado onde se situa Wyhl. Quando se olha para o histórico deste partido, nota-se logo que a força e o entusiasmo, que a população mostrou durante a luta contra a energia nuclear, foi desaparecendo com a transformação do movimento num partido e a sua entrada na esfera política “séria”. Hoje em dia, este partido não se distingue muito dos outros, com as vaidades dos dirigentes, a luta pelo poder, as decisões e compromissos pouco éticos. O Primeiro-ministro verde de Baden-Württemberg é hoje um dos maiores defensores dos carros com motor de combustão (neste estado encontra-se a fábrica Mercedes, será que isto tem alguma influência na opinião dele?).

 

Conclusão? A vida política e democrática tem muitas vertentes. Existem partidos, eleições, parlamentos, assembleias, governos, todo um sistema estabelecido e importante que de vez em quando podemos influenciar pelo nosso voto. Mas há mais, igualmente ou ainda mais importante. Temos sempre a possibilidade de nos associar uns aos outros, de lutar por um objectivo concreto fora do sistema político, com fantasia, espírito de acção e alegria.

 

por Monika Dresing