A MÁQUINA DO TEMPO

Portugal e o futuro

Grandes incógnitas


Por:Artur Efigénio

2017-11-05
Encontramo-nos muito dependentes dos partidos políticos tomados por gente oportunista e sem valores

Os livros podem ter a capacidade, a força e o poder de mudar uma sociedade e até um país. O livro de que vos gostaria de falar é o livro – Portugal e o futuro - do General António de Spínola, publicado em 22 de fevereiro de 1974.

 

É um livro que, nos conturbados anos do fim do regime ditatorial, levou à destituição do seu autor, assim como de Costa Gomes, dos cargos de Vice-Chefe e Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas respetivamente, depois de estes, na sequência de pressões relativas ao conteúdo do livro, terem recusado estar presentes numa cerimónia de apoio explícito ao regime, onde estavam todas as individualidades do decrépito Estado - a célebre Brigada do Reumático.

 

Spínola, que tinha combatido nas colónias e tinha sido governador da Guiné, propunha neste livro uma solução diferente para o futuro de Portugal daquela que estava a ser seguida na gestão das províncias ultramarinas. Escrevia que a Guerra do Ultramar, que se arrastava desde 1961, não se conseguia vencer pela via militar. Só através de uma negociação Portugal poderia pôr fim à guerra e continuar a ter algum papel e influência nestes territórios, pondo fim ao crescente desagrado e acusações da comunidade internacional, principalmente no seio da ONU.

 

Como é que propunha fazê-lo? Criando aquilo a que chamava uma vasta Comunidade Lusíada. Um Estado plurinacional com nações-membro. E quais os caminhos a percorrer? O primeiro – Reconhecimento do direito dos povos Africanos à autodeterminação, com uma crescente autonomia progressiva; o segundo – O Estado deixar de considerar intocável o recurso à consulta popular; o último – Transparência completa de todo este processo, quer internamente, quer aos olhos da comunidade internacional.

 

Esta foi a afronta feita ao regime encabeçado por Marcelo Caetano. Como era possível? Portugal, um país com um território do tamanho da Europa (como a propaganda queria fazer querer), e com oitocentos anos de história, nunca iria rebaixar-se e negociar as suas colónias! Nunca! Defendamos a Pátria até ao último homem, como Salazar já havia mandado dizer, uns anos antes, aos pouquíssimos militares que tinham ficado a defender a Índia portuguesa.

 

Este foi o erro histórico. Uma verdadeira oportunidade desperdiçada, tanto de homens que ainda viriam a morrer nas matas africanas a defender a utopia do regime português, como do próprio futuro da República Portuguesa.

 

Com este conceito estratégico proposto por Spínola, poderíamos ter hoje uma espécie de Commonwealth, como a Inglaterra fez com as suas ex-colónias, mantendo inclusivamente ainda a Rainha Isabel II como Chefe de Estado. Portugal teria conseguido assim manter algum poder e afirmação nessas nações, tendo-as poupado às longas guerras civis que se seguiriam, e que ainda hoje, como no caso de Moçambique e Guiné, não estão completamente resolvidas, ou ainda poupado esses povos às oligarquias como a da família dos Santos em Angola. 

 

O General Spínola era um verdadeiro líder, com uma apurada visão estratégica e com um carisma excecional. Conheci-o pessoalmente na Academia Militar, e mesmo já com muitos anos e sem o seu uniforme camuflado, luvas pretas, pingalim e monóculo no olho, era um referencial de valores e ideais, continuando, ainda hoje a ser um ícone para aqueles, que, como eu, se dedicam ao estudo da ciência política e da liderança.

 

Não sou um saudosista ao trazer este tema, até porque pela idade não vivi no contexto colonial. Mas considero que, não fosse esse erro político, Portugal poderia hoje estar muito melhor. Agora, vivemos uma outra realidade que nos dificulta o progresso. Encontramo-nos muito dependentes dos partidos políticos tomados por gente oportunista e sem valores. O país está muito partidarizado, o que impede os necessários consensos nacionais em matérias estruturantes. Continuamos a desperdiçar oportunidades por falta de uma visão conjunta e de um rumo estratégico suprapartidário para Portugal. Devemos apostar tudo na União Europeia? Devemos centrar-nos nas opções atlânticas? Devemos apostar na entrada dos Chineses em tudo o que é energia? Serão os Franceses e Alemães com as suas reformas “tax-free” em Portugal uma boa solução? Continuarão a ser os Ingleses nossos aliados mesmo depois do Brexit? Serão os Angolanos que devem deter os nossos bancos? Ou os espanhóis, a braços com as suas nações secessionistas?

 

Tudo isto são as grandes incógnitas e os grandes debates que a nossa sociedade e país também deveria fazer, num qualquer intervalinho dos fait-divers que marcam constantemente a atualidade portuguesa. Mas, afinal, quem quer saber disto? Portugal vai ao mundial, caramba!

 

por Artur Efigénio