PALAVRA DE PALHAÇO

Votarem

Sem comunicação nada é possível!


Por:Enano Torres

2017-11-05
Como é que dois políticos não se prestam a comunicar?

A recente atualidade mediática internacional tem colocado a situação na Catalunha no mapa do Mundo, com imagens violentas da Policia Nacional e Guardia Civil Espanhola a impedir o povo de votar. Desde os jovens aos idosos, todos foram tirados à força das escolas onde se encontravam as assembleias de voto. Escolas que, dois dias antes, tinham sido ocupadas pelos pais dos alunos, com uma série de atividades culturais, para tentar que as não fechassem até ao momento das eleições; curiosamente no mesmo dia onde em Portugal também se votava civicamente os nossos novos Presidentes. Na Catalunha uma grande percentagem da população desejava realizar o seu referendo 1-0 para decidir pelo futuro da sua terra.

 

Infelizmente o Governo Central, comandado pelo PP, desde o inicio do processo tem-se negado a abrir alguma porta para um referendo legal, livre e lícito onde o povo tenha o direito democrático de votar, escusando-se sempre na ilegalidade do processo e nas leis arcaicas da Constituição Espanhola; ainda por cima, o facto de termos um Governo de direita, com um Presidente “Tutancamon”, não ajuda muito!

 

Sendo assim, perante a inoperância de ambos os presidentes (Puigdemont e Rajoy), tem-se provocado o que temos visto uma infinidade de vezes nas redes sociais e Tv: uma rutura na cidadania, cada dia maior, com dois bandos confrontados e uma escala de violência que era de evitar e que deixou a Espanha em maus lençóis.

 

Eu não sou independentista nem tão pouco desejo que a Catalunha se separe de lugar algum. Respeito todas as pessoas e as suas formas de pensar, isso sim, mas sem violência nem extremismos.

 

Gosto muito de viajar pelas diferentes Comunidades Autónomas de Espanha. Teoricamente todas elas conformam uma Nação mas cada uma delas tem as suas particularidades: dialetos, gastronomia, cultura... Adoro sentir todas essas diferenças ao vivo, pois fazem-me crescer como pessoa.

 

Para mim, a Espanha é um país “plurinacional” constituído por muitas pequenas “nações”, como um pai que tem muitos filhos e cada um é diferente de todos os outros; os filhos crescem, tornam-se maiores e alguns desejam sair de casa ou discordam do papá. Mas, para isso, existe a comunicação para procurar o melhor entendimento entre pai e filho.

 

Sem comunicação nada é possível!

 

Como é que dois políticos não se prestam a comunicar? Como se pode virar as costas a uma realidade tão clara como a de permitir um referendo consensual e pactuado entre a Generalitat e o Governo Central de Madrid para que haja eleições livres e democráticas assim como fez o Reino Unido com a Escócia, por exemplo.

 

O leitor informado da História pode dizer que não se pode votar contra a lei ou a Constituição. E eu pergunto: e por que é que não se muda a lei para que se consiga dar voz a um povo, que estou convencido que, na sua maioria, nem deseja a independência total da Catalunha, mas ‘apenas’ expressar-se?

 

Em Portugal diz-se que o povo é quem mais ordena. Se não se deixar o povo catalão expressar a sua vontade, o problema vai aumentar assim como a rutura emocional que terá sempre maior peso que a razão!

 

O problema vem de longe, não é de agora, derivado do governo espanhol nunca ter desejado dialogar sobre o assunto independentista.

 

Felizmente tenho amigos catalães, galegos, asturianos, castelhanos, estremenhos, cântabros, e sou um sortudo por isso! Ainda por cima moro em Portugal desde há 20 anos, pelo que me posso considerar Ibérico, embora originariamente tenha nascido no rabo da Espanha, numa preciosa cidade cheia de arte chamada Cádis!

 

Gosto muito mais de juntar do que dividir. Adoro misturas com todas as raças, culturas, formas de pensar, pois assim considero-me um sábio inocente com sede de aprender com outras culturas!

 

Consigo dizer Viva Espanha, também Visca Catalunha, até consigo dizer Visca Espanha e Viva Catalunha conjuntamente e ainda por cima com um sorriso na cara!

 

Adoro juntar um pão com tumaca (original da Catalunha) e se ainda juntar presunto de pata negra da Extremadura com uma sidra asturiana, tenho a refeição feita! Com isto quero dizer que quanto mais juntos estejamos, melhor!

 

Deixem-me misturar com todas as raças e culturas. Viva a diversidade e a multiculturalidade!

 

Acabo com a seguinte reflexão: não somos países, somos o Planeta Terra, somos terráqueos, mas desde pequenos que nos ensinam o orgulho da pátria, da História, das guerras, das bandeiras, do hino nacional, do futebol, um condicionamento que não escolhemos e que nos é imposto; a pátria é uma fronteira artificial.

 

O difícil é deixar a nacionalidade, pois cada um de nós está agarrado ao seu país, seja pela culinária, pelos costumes ou pela religião, porque não reparamos que os países são uma galáxia, são milhões de estrelas, que nós somos cósmicos!

 

Como falar de consciência se temos uma nacionalidade? Se temos um passaporte conforme o lugar onde nascemos? Como nos libertamos da nacionalidade? Tendo a consciência de que somos terrestres, extraterrestres e intraterrestres, pois habitamos no espaço, no interior da matéria e a vida não tem tamanho.

 

Somos um gigante do macrocosmos e um átomo do microcosmos e por aí, algures, habita um planeta chamado mercúrio transformado em jornal, neste agora.

 

por Enano Torres