OPINIÃO PÚBLICA

A água do nosso futuro

No que toca à água sabemos que iremos ter cada vez menos


Por:Fernando Almeida

fotografia: Luís Tosta - Unsplash
2017-11-05
temos enquanto comunidade que eliminar os grandes consumidores dispensáveis e os desperdícios nos sistemas de transporte e distribuição

Como nos últimos anos, a primavera veio seca e ventosa. Mas este ano foi ainda pior que os anteriores: os milhos de sequeiro em muitos casos não chegaram a dar mais que folha, e se a nossa sobrevivência dependesse deles como no tempo dos nossos pais e avós, muita gente ia passar mal. Mas não foi só o milho de sequeiro. As outras culturas tradicionais, ou foram regadas para compensar a falta de chuva e os persistentes ventos que tudo secam, ou sentiram uma significativa baixa de produção. O povo diz com razão, que “o tempo está mudado”.

 

Os mais arredados destas coisas da terra que continuam a ver as prateleiras dos supermercados bem abastecidas de tudo o que faz falta na mesa, talvez nem se cheguem a aperceber destas mudanças. Como alguns dizem, chuva é “mau tempo”, e o sol agrada quer se esteja de férias quer se trabalhe. Mas para quem vive da agricultura, a água é o sangue da terra. Sem ela as culturas enfraquecem, as árvores definham e morrem, os animais desaparecem, e o Homem, mais cedo ou mais tarde segue o mesmo caminho. As culturas tradicionais dependiam diretamente da chuva, mas a agricultura regada moderna, embora indiretamente, não depende menos: sem chuva não há água nos poços, nos furos e nas barragens, e logo, não há rega. 

 

As alterações climáticas não só vieram mais cedo que o esperado, como têm chegado em episódios de cada vez maior brutalidade. Se nos temos livrado das tempestades mais violentas que assolam outras regiões, não conseguimos evitar a redução da precipitação, as variações no seu ritmo anual, o aumento dos ventos, dos dias de maior calor… O que podemos fazer quanto a isso é apenas reduzir os consumos com implicações no aquecimento global, mas isso corresponde a uma pequena parte da solução. É um trabalho que só terá sucesso pleno se levado a sério pela maioria da população mundial. E nesta matéria alguns povos, e principalmente alguns dos seus dirigentes, parecem que andam muito distraídos.

 

Se não podemos evitar o problema, que depende mais dos comportamentos de outros que de nós mesmos, podemos pelo menos preparar a região para se proteger das suas consequências.

 

No que toca à água sabemos que iremos ter cada vez menos, o que nos obrigará a ter cada vez mais cuidado no que respeita à proteção da sua quantidade e da sua qualidade. Para além das mudanças nos comportamentos individuais nas coisas mais pequenas do nosso quotidiano, temos enquanto comunidade que eliminar os grandes consumidores dispensáveis e os desperdícios nos sistemas de transporte e distribuição.

 

Às vezes uma enorme percentagem da água retirada da natureza (seja de barragens, seja de furos) acaba por se perder em redes de transporte e distribuição de grande ineficácia, velhas e mal concebidas. 

 

Estamos habituados em Portugal a que os diversos poderes não antevejam os problemas e tomem medidas que os evitem. Em vez disso o normal é que só “depois da casa roubada é que se colocam as trancas nas portas”: falta geralmente um planeamento prudente e preventivo, capaz de evitar os problemas em vez de os remediar tardiamente. Nesta matéria da água e do seu futuro, todo o conhecimento que a ciência nos pode fornecer indica que vamos ter cada vez menos precipitação, maior temperatura, e maior intensidade e frequência dos ventos. Ao mesmo tempo sabemos que os consumos urbanos e agrícolas terão tendência a aumentar, o que vai inevitavelmente, a prazo, criar situações de rotura. 

 

Assim, não parece difícil de perceber que teremos que ter muito mais cuidado com a água, tanto no que se refere à sua qualidade como no que toca à quantidade disponível. E em qualquer dos casos, se a inteligência e o bom senso se sobrepuserem às vistas curtas dos interesses egoístas imediatos, há um mundo de mudanças a fazer. Muitas coisas pequenas, como aproveitar a água do lavatório para o autoclismo, como se faz usualmente no Japão, tratar as águas residuais de tal forma que possam ser usadas em rega de jardins, como se faz em Israel, alterar os hábitos de consumo, como se faz um pouco por todo o lado onde a falta de água se coloca…

 

Se é verdade que as pequenas mudanças que cada um de nós pode fazer no seu quotidiano, todas juntas, têm peso, não é menos verdade que terá que haver algumas intervenções onde se verificam os grandes desperdícios. Em primeiro lugar há que perceber que não dispomos água bastante para nos podermos dar ao luxo de com ela produzir madeira para pasta de papel. Que se gaste água a produzir na agricultura aceita-se, porque ela é um setor absolutamente vital e estratégico. Mas que se gaste a água que será um bem cada vez mais escasso e precioso a produzir madeira para pasta de papel… Por outro lado as perdas nos sistemas de transporte e distribuição da água, que às vezes correspondem a uma percentagem elevadíssima do total da água captada e tratada, terão obrigatoriamente que ser reduzidas. Como se sentirão as populações se as torneiras se secarem? Como se sentirão os agricultores se virem as culturas a mirrar na canícula sem possibilidade de as regar?

 

O nosso povo, que é bem sábio, diz que homem prevenido vale por dois. É melhor que quem tem responsabilidade nestas matérias se vá prevenindo.

 

por Fernando Almeida