OS DEVANEIOS de um Caminhante Solitário

Os quatro elementos

por Karl Moosdorf

2017-11-05
ÁGUA

Nesta pequena série de textos quero falar sobre os antigos elementos básicos na constituição da matéria. Os gregos criaram a primeira definição destes elementos cerca de 600 anos antes de Cristo. Durante os anos seguintes e seguidamente com os Egípcios e os Árabes a ideia destes quatro elementos foi sendo desenvolvida e com os Árabes chega à Europa. Uma vez que estes quatro elementos são fundamentais para a nossa vida gostava de olhar em detalhe para cada um deles.

 

Como tudo no nosso mundo também a água está integrada em ciclos. Mas antes de olhar em detalhe para os ciclos da água, importa referir que a maioria da água existente na terra não é útil para a humanidade, nem para a maioria dos animais e das plantas. A maior porção de água no nosso planeta encontra-se nos oceanos e é salgada.

 

Neste texto quero focar-me na água doce que é a base de toda a vida. Não só é importante para nutrir a humanidade, os animais e as plantas, como faz parte de todos nós. O corpo humano é constituído em grande parte por água. Um bebé é formado por cerca de 93% de água, um adulto tem à volta de 70% e um idoso ainda cerca de 60%. Assim água é o elemento mais importante na nossa vida – e deve ser feita a pergunta:

 

Será que nós tratamos a água com o respeito e com a atenção que esta merece?

 

Uma parte importante do ciclo da água começa no mar onde a água vaporiza e é transportada pelo vento para os continentes. Quando as condições permitem a sua condensação esta cria nuvens e em dado momento cai na terra sob a forma de chuva, neve ou granizo.

 

Se o ar estiver completamente limpo, a chuva será constituída por moléculas de H2O - quer dizer água destilada (sem sais). Mas o ar contém diferentes partículas e assim a água da chuva absorve-as e transporta-as até ao solo. Para servir de água potável, para o consumo humano, a água deve absorver minerais e outras substâncias que são importantes para o equilíbrio do corpo humano – a água torna-se em “água mineral”.

 

Há duas maneiras de absorver estes minerais tão importantes para a vida. A primeira é simples – a água corre na superfície da terra e entra em contacto com o solo, com diferentes tipos de rochas e com outros materiais que encontra no seu caminho. Neste caminho – que desde o seu início nada mais é do que o percurso de regresso ao mar – torna-se em água mineral. Dependendo da região e do tipo de rochas que a água encontra a sua composição mineral varia.

 

Mas só uma parte da água corre na superfície da nossa terra. Outra parte importante infiltra-se na terra e corre no seu interior, às vezes a centenas de metros de profundidade. Nesta viagem a água absorve também minerais e outras substâncias. Mas aí as substâncias podem mudar drasticamente e também as características da água mudam drasticamente. Ferro, sulfatos, sais e outros minerais podem ser absorvidos. Por isso a água das profundidades da Terra – que no nosso dia-a-dia pode ser explorada em furos – é, por vezes, bastante agressiva e nem sempre pode ser utilizada pelo homem. Nem sempre a água subterrânea é adequada para o consumo humano e é também importante perguntar quais as consequências do seu uso. Apesar da água de furo, em muitos casos, poder ser tratada quimicamente há vários efeitos negativos da utilização de furos. Um destes efeitos é a alteração do equilíbrio das pressões em profundidade. Perto de São Teotónio, por exemplo, existem já vários furos com água bem salgada resultantes da sobre exploração da água dos furos. A falta de pressão da água doce permite a entrada de água salgada do oceano. E cada furo que continua a ser explorado aumenta este efeito.Um outro efeito é a perfuração das camadas do solo que permite que água se infiltre em maior profundidade. O nível freático baixa e os poços ficam com menos água. Em Espanha o nível freático já é de tal forma baixo que em grandes zonas do país a agricultura é gravemente prejudicada ou quase impossível. A água que está no interior da terra não é feita para nós, esta água deve concluir o seu ciclo e transportar substâncias que de outra forma não chegariam à superfície.

 

Neste contexto, é importante salientar que apesar de servir para nos nutrir e para a nossa higiene, a água é utilizada também como meio de transporte. A sujidade da nossa roupa e da nossa loiça e mesmo os excrementos da sanita – são partículas que a água vai transportar. Mas para onde? Para a ETAR mais próxima? Isto seria bom, mas na ETAR só uma parte das substâncias pode ser filtrada. O restante fica na água e contamina as ribeiras, os rios e o mar. São cada vez mais os elementos nutritivos (geralmente nitratos e fosfatos) transportados pela água que permitem a eutrofização das águas e provocam a morte de peixes e outros organismos aquáticos por falta de oxigénio na água. Por outro lado, estes elementos nutritivos fazem cada vez mais falta aos nossos solos. Toda esta situação é ainda agravada pela poluição da água causada pela indústria. No final do ciclo, o que chega ao mar já não é água, mas antes uma “solução química” com muitas substâncias que normalmente, nem devem fazer parte da água, nem dos oceanos.

 

Nos últimos anos verifica-se que mais um material é transportado em grandes quantidades para os oceanos: o plástico. Os oceanos estão cheios de plástico. Há pouco tempo foi publicado um estudo, de um grupo de cientistas, que encontrou 38 milhões de peças de plástico numa ilha não habitada. A previsão é que em 20 anos o peso do plástico nos oceanos vai ultrapassar o peso de toda a vida orgânica nos mesmos. A humanidade não pode sobreviver sem oceanos – estamos a cometer suicídio.

 

Resta a pergunta: O que podemos fazer? 

 

Em primeiro lugar temos de poupar água! Mas também é importante mudar o nosso modo de abastecimento. Os furos devem ser ou proibidos ou, pelo menos, selados com contadores. Quem quer utilizar um furo deve pagar, simplesmente porque água é um bem de todos. Para criar mais reservas de água devem ser promovidos todos os esforços na construção de pequenas barragens. A água da chuva deve ficar no continente em vez de correr logo para o mar. Assim pode servir para a rega e para as atividades que não necessitam de água potável. Já existem casas com duas redes de água, uma para água de consumo e a outra para água para rega e sanita. Outra proposta é acabar com a política absurda de que as caleiras nas casas são proibidas – pelo contrário: as casas devem ter caleiras e a água da chuva deve ser armazenada em cisternas, poupando assim água tratada da rede. E, finalmente, temos de manter a nossa água mais limpa, baixando a contaminação com químicos e adubos. A utilização de detergentes biológicos pode ser um dos passos adequados que cada um de nos pode fazer.

 

por Karl Moosdorf