MIRADOIRO

Eleições autárquicas em Odemira 2017

Concelho de Odemira. Evolução da votação (n.o de votos expressos) das três principais forças políticas, para a Câmara Municipal, entre 1976 e 2017.


Por:António Quaresma

2017-11-05
Nota do Gráfico: entre 1989 e 1997 e em 2107, a votação do CDS, que concorreu sozinho, somou-se à do PPD/PSD; não se contemplaram as votações da UDP e BE. Fonte: Comissão Nacional de Eleições e CMO.

O texto que se segue contém uma breve, muito breve, reflexão sobre as recentes eleições autárquicas em Odemira. O ponto de partida é o gráfico que apresento ao leitor, em que se mostram os percursos dos partidos e coligações que, desde o início, se movem na competição eleitoral para a Câmara Municipal: coligação do PCP (sucessivamente FEPU, APU e CDU), PS e PPD/PSD, só ou coligado com o CDS, sendo que nas eleições de 2017, estes dois partidos concorreram separados, mas os seus números foram aqui somados. Uma evolução que abrange 40 anos de eleições democráticas. Não se faz referência ao Bloco de Esquerda por ser recente a sua participação e os seus resultados não interferirem no quadro geral.

 

A um ponto de partida, em 1976, com certo equilíbrio entre a FEPU (coligação PCP) e o PS e a vitória curta da primeira, e um modesto resultado do então PPD, seguem-se as eleições de 1979 (os mandatos eram então de três anos), em que ocorre uma dramática variação. A APU (coligação PCP) salta e ultrapassa os 10.000 votos, ficando em maioria absoluta na Câmara; o PPD também avança e ultrapassa o PS; este, por seu lado, afunda-se.

 

À distância, é possível determinar as razões do modo como o PC se impôs, em 1979. Havia uma conjuntura regional favorável, mas, em termos de fortalecimento da influência política no concelho, verificou-se uma razão determinante: a chegada ao concelho de um médico comunista, Justino Santos, que através de uma estreita ligação à população, a que esta não estava habituada, ganhou a sua confiança e admiração. A sua aposta, enquanto presidente do executivo municipal, na organização e apoio de comissões de moradores, em todo o espaço rural, criou uma densa rede, que, no geral, favoreceu a influência do PCP. (*)

 

O declínio eleitoral do PC iniciou-se, porém, nas eleições que se seguiram, sem que, no imediato, isso revertesse em favor das restantes forças partidárias. De facto, só em 1985, o PS principiou a sua imparável escalada, que, 12 anos depois, culminou na tomada da Câmara Municipal. Entretanto, a CDU não mais deixou de descer, em termos de votos alcançados: em 2013, apenas conseguiu eleger dois vereadores, e, em 2017, embora mantendo o número de vereadores, voltou a perder votos.

 

Numa análise pouco fina, esta evolução, independentemente de factores mais ou menos conjunturais, não pode deixar de reflectir a mudança que a sociedade odemirense, no seu conjunto, conheceu, em relação à década de 1970, mudança decerto passível de modificar a estrutura do voto. Desde logo, a perda de população rural, que acompanhou o definhamento da agricultura tradicional. Depois, a natural substituição geracional verificada nestas quatro décadas, num quadro em que a realidade e os horizontes das novas gerações se alteraram substancialmente.

 

Não há, pois, grandes surpresas nestas eleições de 2017, a não ser, talvez, o reforço do PS, relativamente a 2013. Um PS que, com domínio praticamente absoluto, continua a deter larga maioria na Câmara e na Assembleia Municipal; que passa a dominar nas juntas e assembleias das freguesias mais populosas, São Teotónio e Milfontes; e que reganhou São Luís. Contudo, parco lenitivo, a CDU, nas assembleias de freguesia em que venceu (Salvador/Santa Maria, Relíquias, Vale de Santiago e Luzianes), robusteceu um pouco a sua posição.

 

E se, nesta ou naquela freguesia, neste ou naquele órgão, a componente pessoal, isto é, da valia que os eleitores reconhecem nos candidatos, pode ter influenciado votações, a presença do voto “automático” no PS é bem claro, como se vê na Assembleia Municipal. Mas, talvez mais impressionante do que o percurso do PS é a contínua queda da CDU, coligação que, a manter-se a tendência, arrisca a quase irrelevância eleitoral, num futuro não muito longínquo.

 

A ver vamos.

 

(*) Ver António Martins Quaresma & Constantino Piçarra. Odemira: Comissões de Moradores na Revolução de Abril, 2016.

 

 

por António Quaresma