EDITORIAL

O imprescindível “como”

A vida é condicionada por uma série infinita de “quês”


Por:Pedro Pinto Leite

2017-12-11
Há “quês” inevitáveis e que se abraçam. Mas há também muitos “quês” que são apenas ideias vazias, realidades virtuais, instantâneos voláteis

Vive-se hoje uma vida de fácil acesso, baseada em coisas mas, cada vez mais, também de se vive uma vida baseada em ideias. Uma vida de o “quê” que não questiona o “como”. Há “quês” maiores e mais pequenos: a alimentação, o trabalho, as relações e os sentimentos, a educação, a formação, a liderança, a criatividade, a cultura, a produção e o consumo, a vida social, a espiritualidade, o lazer, a saúde, a política, os conceitos e os preconceitos, as modas, os vícios e as regras, os limites e o perigo, as regiões, as vilas, as casas... 

 

A vida é condicionada por uma série infinita de “quês” criados por cada um, individualmente, criados por um conjunto de pessoas ou “impingidos” por outros ou pelas instituições. Há “quês” inevitáveis e que se abraçam. Mas há também muitos “quês” que são apenas ideias vazias, realidades virtuais, instantâneos voláteis.

 

E é aqui que se encontra a relevância do “como”. O “como” pode ser uma resposta rápida ou uma solução simples mas também um percurso lento e complexo. Mas ambas obrigam questionar, refletir, relacionar.

 

Repare-se nos textos desta edição:

 

Monika Dresing questiona a ideia de que hoje não se “pode” comer quase nada sob pena de que se se comer quase tudo poder ser considerado um ato criminoso porque se está a contribuir para a desgraça de si mesmo, das pessoas, dos animais, dos solos, da água, do planeta. Porque uma ideia frequentemente repetida pode frequentemente ser acreditada, mesmo que falsa.

 

Enano questiona a felicidade centrada no consumismo.

 

Karl Moosdorf questiona a política sustentável no concelho de Odemira.

 

Fernando Almeida questiona a forma “imposta” no relacionamento do Parque Natural com a população ou com as atividades económicas locais.

 

Artur Efigénio questiona a celebração dos cem anos da revolução soviética.

 

De facto não importa “o quê” desde que se saiba “como”.

 

Não são as batatas fritas que fazem mal à saúde mas sim a frequência com que são comidas.

 

Não é ter um telemóvel de última geração que fará alguém feliz mas sim a forma como cada um se relaciona com os outros.

 

Não é rotulando de “eficiente” o concelho de Odemira que este passa a ser um concelho sustentável mas sim colocar em prática políticas de produção de energia “limpa”, por exemplo.

 

Não é a agricultura que destrói o Parque Natural mas sim as más práticas agrícolas - ou de outras atividades económicas como o turismo. Respeito, consciência, equilíbrio e sustentabilidade não prejudicam a convivência entre agricultura e Parque Natural.

 

Não são as mudanças de regime em nome das classes trabalhadoras que mudam os paradigmas sociais mas sim a aplicação de regimes verdadeiramente democráticos.

 

Também na política há demasiados “quês” sem conteúdo. Ideias que são “vendidas” como solução mas que não contemplam o caminho e, muitas vezes, nem a chegada.

 

Estar-se rodeado de “quês” que contribuam para uma felicidade coletiva implica encontrar um ponto comum, já agora desinteressado, que não deixe dúvidas sobre o caminho a seguir.

 

É necessário fazer a seleção dos “quês”. Separar o trigo do joio de forma lúcida na perspetiva de que as pessoas procuram a paz, o amor e o equilíbrio emocional.

 

Mas para isso é preciso a coragem de enfrentar a mudança que leva à libertação do enredo que teima em permanecer ativo.

 

Não há como fugir aos “quês” mas há sempre a escolha de “como” fazer o caminho.

 

por Pedro Pinto Leite