DE QUEM É O OLHAR

Alimentação - uma abordagem em dois capítulos

CAPÍTULO I


Por:Monika Dresing

2017-12-11
Não há escassez de alimentos, tudo o que o nosso corpo precisa temos à disposição

Na Alemanha, os anos 50 e 60 do século passado, anos da minha infância e juventude, estavam marcados por um melhoramento significativo das condições de vida após os anos miseráveis em consequência da Segunda Guerra Mundial. O desemprego era quase nulo, as pessoas ganhavam algum dinheiro e o mercado, além de oferecer os produtos básicos, alargou cada vez mais o leque da oferta. Era comum o desejo de fazer esquecer os anos da fome, portanto, comer muito e bem (com manteiga e natas …) tornou-se quase uma obsessão. Comia-se de tudo, não havia limitações além do gosto pessoal. Consequentemente surgiu um problema de saúde – muitas pessoas ficaram obesas. Demorou bastante tempo até que finalmente se estabeleceu um certo equilíbrio acompanhado pela primeira vaga das “modas de alimentação”: em todo o lado surgiram as dietas de emagrecimento. 

 

A partir dos anos 70 e sob a influência de estratégias de comercialização de certos produtores de alimentos e com maravilhosas imagens de publicidade, a preocupação com a saúde e com o próprio corpo ganhou cada vez mais peso. Apareceram soluções para qualquer “defeito”, publicaram-se dietas após dietas que supostamente eram o caminho certo para uma vida saudável e feliz. Um dia eram só as proteínas que se deviam comer, outro dia nem pensar, um dia tudo em separado, outro dia apenas sopa de couve, etc., etc. Nada disso tinha fundamentos científicos, as teorias foram publicadas por institutos duvidosos, muitas vezes ligados a produtores de certos alimentos. Alimentar-se ficou cada vez mais complicado, surgiu o medo de prejudicar a saúde por alimentos “errados”.

 

Quando comecei a visitar Portugal, a partir de 1980, encontrei outra vez a situação da minha infância: depois dos tempos difíceis da ditadura, as pessoas aqui na região gostavam de comer muito e bem. Comer era um prazer. Mas pouco tempo depois apareceram as mesmas modas que já conhecia da Alemanha, regras, muitas vezes contraditórias, proibições, limitações e sugestões em relação à alimentação. Cá como lá estabeleceu-se um certo culto em volta da alimentação, quase uma religião. Como se estas regras dessem sentido à própria vida – crença em vez de ciência com alguns atributos religiosos: obediência às instruções, experiência de salvação, compras como viagem religiosa, etc. Surgiu até uma nova doença: ortorexia (o doente “possui uma fixação por alimentação saudável e chega a gastar horas pensando no assunto”, Wikipédia).

 

Estamos a viver numa situação historicamente excepcional: Cá não há escassez de alimentos, tudo o que o nosso corpo precisa temos sempre à disposição. E é apenas esta segurança, a ausência de fome, que nos permite discutir desta forma sobre a alimentação. Na verdade, nada dos alimentos tradicionais é prejudicial para a saúde, só o excesso e o desequilíbrio (muitas vezes provocado por dietas) podem ter consequências negativas, tal como acontece noutras áreas da vida. É certo que há pessoas que têm doenças e que não podem digerir tudo, p.ex., pessoas com celiaquia, uma intolerância ao glúten. Mas o número destas pessoas é muito limitado, 0,5-1% da população, e não tem nada a ver com a moda de comer “glúten-free”. Há até investigadores que dizem que a renúncia a certos ingredientes pode provocar as respectivas alergias.

 

É interessante olhar para os ingredientes dos produtos que substituem os alimentos tradicionais. Aqui não há falta de químicos. Sem estes não se pode obter alimentos com as mesmas características dos produtos tradicionais. Às vezes, a lista de ingredientes lê-se como uma instrução dum laboratório químico. E não podem ser estes químicos que fazem mal a saúde? O nosso pão, que se come há milhares de anos, é feito de farinha, fermento e água – ponto.

 

O capítulo II aborda os custos globais da nossa alimentação.

 

por Monika Dresing