MIRADOIRO

Uma boa história

Há gente que não resiste a contar uma boa história


Por:António Quaresma

2017-12-11
Em tempos, lá pelas décadas de 1970 e 1980, eu costumava passar boa parte das minhas férias no barco de um amigo

Há gente que não resiste a contar uma boa história, mesmo que isso, supostamente, não lhe seja conveniente

 

Em tempos, lá pelas décadas de 1970 e 1980, eu costumava passar boa parte das minhas férias no barco de um amigo, que designarei por M, “viciado” em pesca. Sempre que o mar e o tempo consentiam (às vezes, consentindo pouco), saíamos a barra e errávamos entre o Cabo Sardão e a Ponta do Ladoiro, com duas ou três linhas largadas, pescando ao “corrico”. Na altura própria, toneiras na água, também procurávamos alar algumas lulas, no “banco” existente por fora da Pedra da Foz. Para mim era mais o prazer de andar no mar do que a pesca.

 

Guardo desse tempo algumas histórias, uma delas a que vou contar. Numa bela manhã de Verão, éramos quatro a bordo, contando com um inexperiente alentejano do interior que se agregara ao grupo de habtituès e que, com algumas ameaças de enjoo, lá se “encaixou” na equipagem. Iniciámos o corrico na direcção do Sul, com pouco resultado, sequer uma vulgar cavala, até chegarmos em frente da praia do Almograve. Aí, anzolámos o primeiro robalo, depois outro… À medida que o resultado da pesca se tornava “histórico”, o entusiasmo dos pescadores aumentava.

 

Esquecido ficou o prévio acordo de regressarmos ao rio Mira à hora do almoço, mas como os estômagos nos recordaram dessa circunstância, o nosso anfitrião M entrou na cabine do barco, para colocar uma refeição enlatada num pequeno fogão a petróleo, voltando rapidamente para o “poço”, onde se desenrolava a grande azáfama da pescaria.

 

Passada uma boa meia-hora, lembrou-se da refeição que estava a preparar e abriu a porta entre a cabine e o “poço” para verificar o resultado culinário. Foi então que estalou a crise. Do interior do barco vinham chamas: o pequeno fogão e o próprio interior da cabine, tudo ardia. O fogo, alimentado pelo petróleo, por restos de óleo existentes nas cavernas e pela tinta que revestia a madeira, ameaçava tornar a feliz pescaria num naufrágio. Instintivamente, olhei para a costa para calcular que distância teria de nadar…

 

No “poço”, instalou-se o caos, onde apenas dois dos tripulantes procuraram uma solução racional; o (bom) extintor de incêndios não foi a primeira opção, na convicção de que lhe faltava carga. Afinal foi o extintor que, recarregado pouco tempo antes, resolveu o apuro.

 

Por fim, avaliados os estragos, verificou-se não haver avaria de maior, mas o interior da cabine, todo negro, a necessitar de raspagem e pintura, apresentava muito mau aspecto. M, dorido com o que via e prevendo humilhante zombaria pública que a divulgação do episódio lhe acarretaria, logo ali nos obrigou, a todos, a jurar que guardaríamos segredo da ocorrência. Pela minha parte assim fiz.

 

Não pude deixar, pois, de ficar surpreendido quando um conhecido, aliás também frequentemente presente nas pescarias, me abordou, dois ou três dias passados, com um sorriso de motejo, e me falou no incidente. Fiquei depois a saber que fora o próprio M que, não obstante a preocupação mostrada, contara o caso a alguém e, assim, o espalhara.

 

Termino como comecei. Há gente que não resiste a contar uma boa história, mesmo que isso, supostamente, não lhe seja conveniente.

 

por António Quaresma