ENCONTREI EM ODEMIRA

O que nos reserva o futuro

Conceição Branco, 52 anos, empresária

2017-12-11
Gostaria de saber, por exemplo, que valor acrescentado traz à região o festival Sudoeste no mês de Agosto

Este mês encontrei em Odemira Conceição Branco, 52 anos, empresária:

 

- Qual a sua ligação a este território?

Sou de Castelo Branco e vim parar à Zambujeira do Mar por amor. Vivia em África, em Moçambique, e foi em Maputo que conheci o meu marido, o Luís, que é de cá e que tinha um terreno espectacular na Zambujeira do Mar onde queria desde há muito construir uma guesthouse ou Turismo em Espaço Rural. Portanto foram o coração e a possibilidade de desenvolver um projecto de negócio que me trouxeram até aqui. Em 2007 começámos a tratar de todo o processo e cinco anos mais tarde abrimos as portas ao público.

 

- O que tem esta terra de especial?

Como disse, mais do que pela região, vim para cá por razões familiares e para abraçar um projecto de vida que passa pelo desenvolvimento de raiz de um negócio muito personalizado. Mas um empreendimento destes dá muito mais dores de cabeça do que trabalhar por conta de outrem, é extremamente trabalhoso, e estou tão “enfiada” no monte, a trabalhar constantemente, que até tenho dificuldade em ter tempo e disponibilidade para apreciar devidamente o que esta terra tem para oferecer. Tenho menos férias agora e trabalho muito mais horas do que antigamente senão não conseguiria proporcionar um serviço de qualidade, sobretudo devido à escassez de recursos humanos disponíveis. Mas obviamente que sempre adorei cá estar, pela paisagem selvagem, as rochas pretas, aqueles dias inteiros sem nos cruzarmos com ninguém em praias maravilhosas, a gastronomia. As pessoas que aqui recebo procuram a tranquilidade, a possibilidade de relaxar e recarregar baterias, e a Costa Vicentina tornou-se conhecida por ser um sinónimo disso mesmo.

 

- O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

Para além de vir a ter um ecoponto aqui à porta que já pedi há tempos? (risos) Penso que o turismo em pequena escala e com qualidade é um excelente caminho de desenvolvimento sustentável e gradual, mas, como muita gente que trabalha na minha área, vejo com algum receio o futuro do sector e do próprio concelho, dado o aumento galopante da área ocupada por estufas para agricultura intensiva e a consequente poluição visual e das praias. Penso que devia haver uma gestão do território com conta, peso e medida, um equilíbrio entre as forças económicas da região e um maior controlo. Socialmente, este fenómeno também me causa preocupação, uma vez que quem procura o Alentejo tem a expectativa de tomar contacto com o modo de vida local, com a genuinidade apregoada, com usos e costumes antigos e reinterpretados, e, em vez disso, parece que esta zona do Alentejo tem vindo a perder a força da sua identidade, da sua história, das suas tradições. Quem percorre hoje em dia o concelho de Odemira, que é, já de si, pouco populoso e envelhecido, com a consequente perda de características distintivas, cruza-se constantemente com grupos de pessoas de outros continentes, recrutados para trabalhar na indústria agrícola, que, tanto quanto sei, não pára de crescer, e seria muito importante haver uma divulgação clara não só dos contornos do próprio fenómeno agrícola,  como da integração destes trabalhadores estrangeiros.

 

Em relação à minha área, o turismo, acredito que a própria conjuntura internacional tem trazido a Portugal turistas que normalmente não procuravam o país, como norte americanos, canadianos, muitos franceses... Não só temos um país que ainda “está por descobrir” para muitos mercados, como gozamos de uma preciosa tranquilidade. No entanto, falando especificamente do que se passa aqui no Sudoeste Alentejano e da perspectiva de quem trabalha para o turista, sentimos muito e cada vez mais uma tremenda escassez de pessoas para trabalhar, qualificadas e não qualificadas, o que compromete a estabilidade do sector, para não dizer o seu futuro. Por outro lado, encaro o forte aumento de turistas no verão com alguma preocupação porque a região não tem infra-estruturas adequadas para receber tanta gente com um mínimo de qualidade – para além de não haver recursos humanos suficientes nos serviços, as famosas praias estão a abarrotar, não se consegue jantar, os supermercados não dão vazão, o trânsito é muito intenso, os acessos e os estacionamentos estão sobrecarregados... Gostaria de saber, por exemplo, que valor acrescentado traz à região o festival Sudoeste no mês de Agosto; se fosse na Primavera ou no Outono poderia ser muito interessante, agora...no Verão?... Eu, pessoalmente, “barrico-me” em casa até passar a “enchente”, mas tinha hóspedes que eram habituais, repetentes, e que deixaram de vir de férias para cá por causa dos trinta ou quarenta mil festivaleiros que andam por aí numa zona que está dimensionada para poucos milhares de pessoas. Mesmo o lixo que se produz nessa altura e o respectivo impacto ambiental é muito assustador...

 

Penso que muitas coisas têm que ser reavaliadas com visão de longo prazo e noção das consequências para o futuro, em comunicação regular com as populações.

 

#encontreiemodemira

 

 

“Encontrei em Odemira...” é uma rubrica do Mercúrio, (humildemente) inspirada no blogue “Humans of New York”, que pretendia na sua origem ser um “catálogo” exaustivo dos habitantes de Nova Iorque, com pequenos apontamentos das suas vidas, e que acabou por se tornar um projecto vibrante, abrangendo dezenas de países, com milhões de seguidores nas redes sociais e inúmeras causas filantrópicas. À nossa escala, esta nova secção tem o objectivo único de mostrar aos leitores a diversidade humana que habita hoje em Odemira, entre autóctones que sempre aqui viveram, forasteiros que escolheram este território para viver e até mesmo aqueles que vieram aqui parar quase ao acaso. A cada mês vamos encontrar habitantes de Odemira e colocar-lhes três questões:

  • Qual a sua ligação a este território?
  • O que tem esta terra de especial?
  • O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

por Sara Serrão