OS DEVANEIOS DE UM CAMINHANTE SOLITÁRIO

História de um NON

Por Karl Moosdorf

fotografia: jason-blackeye - unsplash
2017-12-11
Odemira pode ser, talvez, o único concelho do país onde não há eólicas

Há cerca de 20 anos chegou um jovem engenheiro, a Odemira. Este vinha com a ideia de criar uma empresa para projectar e realizar eólicas na zona. Odemira é um concelho com condições extremamente favoráveis para a captação de energia através de torres eólicas. O que aconteceu parece uma história de um NON, no sentido apresentado há algum tempo pelo colega Paulo Trindade, neste jornal.

 

Todos os políticos e administradores das entidades envolvidas mostraram grande entusiasmo e garantiram que iriam ajudar e promover o assunto. Os políticos, desde há muitos anos, mostram a mesma reacção quando encontram uma empresa ou um projecto para a instalação de energias renováveis. “Ah! Isto é o futuro!” dizem eles de cada vez que a possibilidade surge. Mas para quem já participou na inauguração da uma FACECO, sabe bem o valor que tem “o futuro” ou as promessas no pensamento dos nossos políticos. Na inauguração deste evento, geralmente não faltam um conjunto de políticos regionais (com o nosso Presidente da Câmara à cabeça) e provavelmente uns secretários de estado ou representantes do distrito, entre outros de empresas municipais. Todos eles chegam e passam, a cada ano, no stand de uma empresa de energias renováveis e cantam em coro: “Ah, isto é que é o futuro!”

 

Mas para estes empresários o que interessa é o hoje, o amanha lá virá. Isto verifica-se quando todos os “Senhores nobres” passam no referido stand, quase sem parar, com pressa para chegar a um stand de hoje: neste stand são servidos chouriço, presunto e medronho – e ali param os nosso ilustres Senhores e ficam pelo menos uma meia hora.

 

Bem, dado o entusiasmo demonstrado pelos ilustres, à iniciativa do nosso engenheiro das eólicas, este avançou, nos locais próprios com pedidos de informação e licenciamento. Em cada entidade contactada, também os funcionários e respectivas chefias comentavam: “Ah, isto é o futuro!”.

 

No entanto, depois, na prática tudo fizeram para evitar a construção de uma eólica nesta zona. Novos postos de trabalho? Trabalho com qualidade? Valor económico acrescentado, na região de Odemira? Maior rendimento dos terrenos? Mais impostos para a comunidade? Uma imagem moderna do concelho? Pah, não tem interesse! 

 

O que interesse é que o presente se impõe, e que um certo grupo de pessoas mantém o controlo sobre tudo o que acontece aqui. Uma vez que ninguém pode assumir que não quer o futuro para Odemira, todos dizem SIM, mas o resultado é a palavra NON.

 

Como conclusão: o nosso engenheiro gastou anos de esforço e muito dinheiro, e finalmente teve que fechar a empresa. E o concelho de Odemira, o maior concelho do país, até hoje não tem nenhuma eólica instalada no seu território. Quem se dirige para norte do país, ou para sul, sabe que aí as decisões foram tomadas de forma diferente. O norte do país está cheio de eólicas que produzem energia limpa, dando lucro aos proprietários, trabalho às empresas de construção e contratos a empresas de manutenção.

 

Odemira pode ser, talvez, o único concelho do país onde não há eólicas – um concelho no passado que ainda está à espera do seu futuro.

 

por Karl Moosdorf